As sete palavras de Jesus na cruz – 5

5. Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito (Lc 23,44-46)

Por volta do meio-dia, as trevas cobriram toda a região até às três horas da tarde. O Sol tinha-se eclipsado e o véu do templo rasgou-se ao meio. Dando um forte grito, Jesus exclamou: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito. Dito isto, expirou.

As três palavras finais de Jesus na cruz, vamos meditá-las em conjunto. São, de facto as últimas que Ele pronuncia, no seu percurso como homem nesta terra. São Lucas, faz uma leitura muito sóbria e iluminadora que resume a vida de Jesus: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito. O Espírito é a vitalidade do homem, feito do pó da terra e do sopro (espírito) de Deus. Trata-se da vida humana na sua inteireza, dinamismo e capacidade. O que Jesus coloca nas mãos do Pai é o seu ser humano. A missão recebida do Pai é levada até se esgotar, até à última gota de sangue. Tudo isso, que recebeu de Deus e administrou em favor da humanidade, entrega nas mãos do Pai. Mas entrega também o seu ser Filho amado, que veio ao mundo e regressa com toda a humanidade resgatada e recriada.

Essa é também a atitude que Ele deixa aos seus: vivam inteiramente a vida, acolham os dons de Deus com gratidão e responsabilidade, colocando-os ao serviço do Seu projeto, oferecendo-se como serviço e como amor. Não tenham medo, que a vida que vocês têm e administram desse jeito está sempre nas mãos poderosas e carinhosas do Pai do Céu. E quando, como eu, chegarem ao fim do percurso da terra, entreguem tudo isso com coragem e paz nas mãos do Pai. O resto do percurso, só mesmo Ele pode criar e conduzir, porque estará para além daquilo que vocês podem construir, orientar e até sonhar. E não tenham medo: o Pai nunca vos deixará cair das suas mãos.

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Audiência Geral: O Tríduo Pascal

O Tríduo Pascal

De amanhã até Domingo viveremos os dias centrais do Ano Litúrgico, celebrando o mistério da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor. Na tarde da Quinta-feira Santa reviveremos os acontecimentos da Última Ceia, quando Cristo deixou-nos o testamento do Seu amor na Eucaristia, não como uma recordação, mas como memorial, como Sua presença perene. A Sexta-feira Santa é dia de penitência, jejum e oração. Na intensidade da ação litúrgica deste dia ser-nos à apresentado o Crucifixo e, diante da Sua imagem, rezaremos pelos muitos crucificados de hoje, que somente de Jesus podem receber o conforto e o sentido do seu próprio sofrimento. Graças a Ele, abandonado na cruz, ninguém mais está sozinho na escuridão da morte. O Sábado Santo é dia de silêncio, vivido no pranto e na desolação dos primeiros discípulos, abalados pela morte ignominiosa de Jesus. Também Maria vive o pranto deste dia, mas o seu coração é pleno de fé, de esperança e de amor. Deste modo, na hora mais escura do mundo, Ela torna-se Mãe dos que crêem, Mãe da Igreja e sinal de esperança. Em meio às trevas da noite do Sábado Santo irromperão a luz e a alegria com os ritos da Vigília Pascal e o canto festivo do Aleluia. Aquele que foi crucificado ressuscitou! Todas as perguntas e incertezas, as hesitações e temores são dissipados por esta revelação. O Ressuscitado nos dá a certeza de que o bem sempre triunfa sobre o mal, a vida sempre vence a morte. Ao vivermos as celebrações pascais ainda no contexto da pandemia, a Cruz de Cristo é sinal da esperança que não decepciona.

Resumo da catequese do Papa Francisco, 31 de Março, 2021

 CATEQUESE COMPLETA:

http://www.vatican.va/content/francesco/pt/audiences/2021/documents/papa-francesco_20210331_udienza-generale.html

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As sete palavras de Jesus na cruz – 4

4. Mulher, aí está o teu filho; filho, eis aí a tua mãe (Jo 19,25-27)

Junto à cruz de Jesus estavam, de pé, sua mãe e a irmã da sua mãe, Maria, a mulher de Clopas, e Maria Madalena. Então, Jesus, ao ver ali ao pé a sua mãe e o discípulo que Ele amava, disse à mãe: Mulher, eis o teu filho! Depois, disse ao discípulo: Eis a tua mãe! E, desde aquela hora, o discípulo acolheu-a em sua casa.

Como fora a vida de Jesus assim é a sua morte. Ele não viveu voltado para si, mas para a sua missão, para realizar o projeto do Pai para a humanidade. Também agora, na hora da aflição, não fica autocentrado na sua dor, mas olha ainda à sua volta e vê a mãe e o discípulo.

São, evidentemente, duas pessoas queridas de Jesus. Mas, além disso, são representantes de duas realidades fundamentais: A mãe representa o Israel fiel, filho de Abraão, o crente, com o qual Deus se comprometeu com amor fiel. É nesse povo e no seio desta mulher – Maria – que Ele entrou na nossa humanidade. O discípulo João corporiza a comunidade nascente de Jesus, a Igreja.

A palavra de Jesus também não pretende simplesmente assegurar o cuidado da sua mãe na velhice, embora isso também esteja incluído. Trata-se de mais. Ao povo de Israel, Jesus pede que reconheça como seu filho e seu futuro o seu discípulo, representante da nova aliança no seu sangue, na sua cruz. Israel não deve renegar-se a si mesmo nem ao seu passado, mas deve abrir-se, por esta mãe nova, a ter filhos de toda a humanidade, realizando a promessa feita a Abraão de ser bênção para todas as nações.

Ao discípulo, Jesus, do alto da cruz, diz que considera Maria e o seu povo como sua mãe. O discípulo, a Igreja, nasce da descendência de Abraão e de David. A nova aliança não veio abolir a primeira. Deus continua sempre fiel à aliança, mesmo quando Israel ou os discípulos de Jesus possam não o ser.

Não pode haver rivalidade, ódio e morte quando se levanta a cruz como sinal de salvação. Exercer violência em nome da cruz, contra quem quer que seja, é a maior blasfémia contra a cruz; é negação daquele que nela foi cravado por renunciar à violência e acreditar no amor gratuito, universal e salvador de Deus. Aos pés da cruz, reconheçam-se como blasfémia todas as guerras religiosas e ódios em nome de Deus e da cruz de Jesus. Muitas vezes, neste dia de sexta-feira santa, os cristãos saíam da igreja e iam matar judeus nos seus guetos: quão distantes da verdadeira perspetiva da cruz! Qual negação daquele que implorou perdão para os seus algozes!

E esta deve ser a norma para qualquer diálogo com outras formas de acreditar e outras religiões. Nega-se a Deus quando em seu nome se destrói o homem. A cruz é o sinal da paz e de perdão, mesmo à custa da vida oferecida por amor, para que não se propague o vírus do ódio destruidor.

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As sete palavras de Jesus na cruz – 3

3 – Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso (Lc 23,39-43)

Ora, um dos malfeitores que tinham sido crucificados insultava-o, dizendo: Não és Tu o Messias? Salva-te a ti mesmo e a nós também. Mas o outro, tomando a palavra, repreendeu-o: Nem sequer temes a Deus, tu que sofres o mesmo suplício? Quanto a nós, fez-se justiça, pois recebemos o castigo que as nossas acções mereciam; mas Ele nada praticou de condenável. E acrescentou: Jesus, lembra-te de mim, quando estiveres no teu Reino. Ele respondeu-lhe: Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso.

Jesus termina a sua vida, como tinha sido anunciado pelo profeta que escutámos na primeira leitura: ”Será contado entre os malfeitores” (22-37). Para o evangelista, esta é a imagem da sua vida dedicada a redimir a humanidade pecadora, não de fora, mas a partir de dentro, do estar, sem pecado, entre os pecadores. Estes dois crucificados são os representantes de toda a humanidade merecedora de morte, aos olhos daqueles que se consideravam mais justos e excluem os outros. Mas esses são antes de mais pecadores, precisamente por isso: porque não o admitem.

Neste homem começa a revelar-se a missão de Jesus na sua plenitude. Ele vem em nome do Pai, para chamar, não os justos mas os pecadores (Lc 5,32; Lc 19,10). Por isso, convive com os pecadores e come com eles (Lc 19,7), vai à procura da ovelha perdida (Lc 15,1-7) e espera sempre o regresso do filho querido que se perdeu (Lc 15,11-32). Este homem era verdadeiramente pecador e assassino. O único mérito dele foi ter reconhecido e acolhido, naquele que foi crucificado ao seu lado, o justo de Deus, a porta para a vida. Esta é a sua profissão de fé, semelhante à do centurião, junto da cruz de Jesus já morto – um outro protagonista na execução de Jesus – que, ”vendo o que acontecera, exclamou: verdadeiramente este homem era justo” (Lc 23,47). São os primeiros frutos da redenção. Este foi verdadeiramente associado à morte de Jesus e é o primeiro (um pecador inveterado) a participar na Sua ressurreição.

A palavra do ladrão assume a súplica de toda a humanidade. É a última palavra que Jesus escuta nesta terra: “Jesus, lembra-te de mim, quando vieres no teu Reino” (23,42). A Sua resposta a este grito é também, no evangelho de Lucas, a sua última palavra dirigida à humanidade, pecadora mas amada: “Hoje estarás comigo no paraíso”. É o resumo de todo o Evangelho, da Boa Nova para os pobres, da missão que Jesus veio realizar, revelando e realizando o desígnio salvador do Pai, através do dom da Vida.

 

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As sete palavras de Jesus na cruz – 2

2. Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem (Lc 23,33-35)

Quando chegaram ao lugar chamado Calvário, crucificaram-no a Ele e aos malfeitores, um à direita e outro à esquerda. Jesus dizia: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. Depois, deitaram sortes para dividirem entre si as suas vestes. O povo permanecia ali, a observar; e os chefes zombavam, dizendo: Salvou os outros; salve-se a si mesmo, se é o Messias de Deus, o Eleito.

O evangelista Lucas refere três palavras muito iluminadoras de Jesus na cruz: as duas primeiras referem-se sobretudo à sua missão e àquilo que revela sobre o Pai e a terceira, para confiar nas suas mãos toda a sua vida.

A primeira destas palavras encontra-se no contexto da crucifixão entre dois ladrões e a troça das autoridades religiosas, que celebram a sua vitória sobre este herético, que ousara pôr em causa as verdades e privilégios sobre os quais tinham construído o seu poder: Salvou os outros; salve-se a si mesmo, se é o Messias de Deus, o Eleito.

Eles só conhecem a lógica do poder, do sucesso que exclui quem pensa diferente, ou desafia o seu poder despótico. O pior destes dirigentes é que pensam que são justos e têm o direito de condenar e de eliminar os outros, os que pensam diferente. Pior ainda é que não entendem quem é Deus, mas arrogam-se o direito de julgar em seu nome. Na realidade só conhecem a si mesmos e às suas certezas e dogmas. Se Deus intervém, com a sua misericórdia de Pai, desarranja este mundo autocêntrico. É em nome de Deus que eles julgam e condenam Deus feito homem. Este é o maior pecado, aquele que Jesus chama o “pecado contra o Espírito Santo”; aquele que não permite que Deus entre com a sua misericórdia na nossa vida, para transformá-la e salvá-la.

Jesus não veio condenar ninguém, nem mesmo esses que o condenam. Não entenderam o coração, a lógica de Deus. Mas, também para eles, como para Paulo, o perseguidor, está levantada a cruz da misericórdia e de perdão. A mão de Deus está estendida; é preciso que a outra se abra para a receber. Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.

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As sete palavras de Jesus na cruz – 1

1. Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste? (Mc 15,33-36)

Ao chegar o meio-dia, fez-se trevas por toda a terra, até às três da tarde. E às três da tarde, Jesus exclamou em alta voz: «Eloí, Eloí, lemá sabachtáni?», que quer dizer: Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste? Ao ouvi-lo, alguns que estavam ali disseram: «Está a chamar por Elias!» Um deles correu a embeber uma esponja em vinagre, pô-la numa cana e deu-lhe de beber, dizendo: «Esperemos, a ver se Elias vem tirá-lo dali.»

Esta exclamação de Jesus crucificado mostra, antes de mais, como Ele desceu realmente à condição humana, em todas as suas potencialidades e capacidades, mas igualmente à sua dramaticidade, dor e limitação. Confrontado com a oposição, a violência, a injustiça, a dor e a perspetiva da morte, Ele permanece fiel ao projeto do Pai do céu e do seu desígnio de criação de um mundo mais humano e aberto à plenitude da vida.

Na hora da crise, da violência, da morte, Jesus sente a angústia de qualquer ser humano, não só perante a morte física, mas igualmente perante o aparente desmoronar dos seus projetos. Ele sente a experiência do “abandono de Deus”, que contradiz a própria relação com Ele.

Mas não vive esta hora em oposição com Deus, mas rezando. As suas palavras são o início de um salmo – oração dos aflitos (Sl 22) – que começa com um doloroso lamento perante o que aparece como o abandono de Deus e termina com louvor perante a salvação que Ele concede aos que nele confiam.

Esta atitude orante – isto é, de ligação e comunhão com Deus – não aparece apenas aqui. Esteve presente ao longo da sua vida: no início da sua missão, no deserto, nas noites e manhãs em que se retirava, quando tinha de tomar decisões, no Jardim das Oliveiras, na horas das crises. Jesus viveu sempre em comunhão com o Pai e, nesta hora solene e dramática, essa relação faz-se mais forte.

Mas a oração de Jesus na cruz significa mais do que isso. Ele reza a oração do seu povo, com o seu povo, com toda a humanidade e pela humanidade à qual se tinha unido. O seu grito ao Pai é o grito da humanidade inteira. Ele sente bem a angústia dos homens: a fome das multidões, a sede de vida dos enfermos, dos pobres e injustiçados, a exclusão dos pecadores e dos que pensam diferente, as vítimas das opressões e os frustrados das revoltas violentas… Tudo isso se encontra neste grito de Jesus, na cruz de Jesus.

Este é também o grito da humanidade crente, o grito de nós todos, também nesta pandemia que atinge a humanidade: “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?” Não é um grito contra Deus, mas dirigido a Deus na dor e, por vezes, na difícil compreensão dos seus caminhos. No fundo um grito de sede e de confiança, para entender e aceitar o porquê de tudo isto e a meta aonde o caminho da vida nos leva.

A dor pode ter este efeito: reconhecer a própria limitação e levantar os olhos ao céu à procura de luz, de força, de caminho.

 

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Quaresma com Santa Teresa de Jesus – 8

 ORAR EM CADA DIA DA SEMANA SANTA DA QUARESMA 2021

 Segunda-feira Santa, 29 de Março: Com Maria Madalena

Então, Maria ungiu os pés de Jesus com uma libra de perfume de nardo puro, de alto preço, e enxugou-lhos com os seus cabelos. A casa encheu-se com a fragância do perfume. (Jo 12, 3).

Conheço uma pessoa (…) que se considerava aos pés do Senhor e chorava com a Madalena, nem mais nem menos do que se O vira com olhos corporais em casa do fariseu; pois, embora não sentisse devoção, a fé lhe dizia que Ele estava ali realmente. (Caminho de Perfeição 34,7).

Com Maria Madalena, eu Te ofereço a minha vida e Te adoro.

Terça-feira Santa, 30 de Março: Seja fiel a Ele

[Judas], tendo tomado o bocado de pão, saiu logo. Fazia-se noite. (Jo 13,30).

(…) grande misericórdia nos fez Deus; mas, quando vejo – como já disse – que estava Judas em companhia dos Apóstolos, e tratando sempre com o mesmo Deus, e ouvindo Suas palavras, entendo que nisto não há segurança. (5 Moradas 4, 7.)

Guarda-me fiel ao teu amor!

Quarta-feira Santa, 31 de Março: Prepare a sua pousada interior

O Mestre manda dizer: o meu tempo está próximo; é em tua casa que quero celebrar a Páscoa com os meus discípulos. (Mt 26,18).

Vós, Senhor, vindo a uma pousada tão ruim como a minha. Bendito sejais para sempre. (Livro da Vida, 22, 17).

Preparo a minha pousada interior para nela acolher o Senhor.

Quinta-feira Santa, 1º de Abril: Rezo pela Igreja e pelo mundo inteiro

Na verdade, dei-vos o exemplo para que, assim como Eu fiz, vós façais também. (Jo 13, 15).

Ponhamos os olhos em Cristo, nosso Bem, e ali aprenderemos a verdadeira humildade (1 Moradas 2, 11).

No seu Corpo entregue, Cristo reconcilia-nos com Deus e manifesta-nos o seu amor. Oremos pela Igreja e pelo mundo inteiro.

Sexta-feira Santa, 2 de Abril: Carregando a Cruz

Crucificaram-n’O, e com Ele outros dois, um de cada lado, ficando Jesus no meio. (Jo 19, 18).

Não nos há-de faltar cruz nesta vida, por mais que façamos, uma vez que somos do bando do Crucificado. (Carta 194).

Concede-me, concede-nos comungar deste mistério de amor!

Sábado Santo, 3 de Abril: Vigiar com Maria

No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo logo de manhã. (Jo 20,1).

Se estais alegres, vede-O ressuscitado; que só o imaginar como saiu do sepulcro, vos alegrará. Com quanta claridade e com que formosura! que majestade! Quão vitorioso e alegre! (Caminho de Perfeição 26,4).

O silêncio deste dia prepara-nos para acolher a Boa-Nova: Cristo está vivo, Aleluia!

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Audiência Geral – 24 de Março, 2021

Rezar em comunhão com Maria

Na oração do cristão, a Virgem Maria ocupa um lugar privilegiado, porque é a Mãe de Jesus. Sabemos que a estrada-mestra da oração cristã é a humanidade de Jesus: por esta sua humanidade, o Espírito Santo introduz-nos na relação filial de Jesus com o Pai celeste e daí nascem a intimidade e a confidência típicas da oração cristã: «Abbá, Papá!» Cristo é o único Mediador, a ponte que atravessamos para chegar ao Pai. Desta mediação única de Cristo, recebem sentido e valor todos os outros intermediários a quem recorremos na nossa devoção, a começar pela Virgem Maria. Na iconografia das nossas igrejas, Ela está sempre presente, e por vezes até com grande realce, mas sempre associada ao Filho, sempre em função d’Ele. Nas suas mãos, nos seus olhos, na sua atitude geral, temos um «catecismo» vivo: sempre indicam o ponto cardeal, ou seja, Jesus. Este é o papel que Maria ocupou durante a sua vida terrena e mantém para sempre: ser a serva humilde do Senhor. Mas, pouco antes de morrer na cruz, Jesus estendeu a maternidade de Maria a toda a Igreja quando Lhe confiou o discípulo amado. Colocados assim sob o seu manto protetor, começamos a rezar-Lhe usando algumas expressões presentes nos Evangelhos, como «cheia de graça» e «bendita entre as mulheres». E, na Ave Maria, depressa entra o título de «Mãe de Deus» consagrado no Concílio de Éfeso. Como sucede no Pai Nosso, depois do louvor vem a súplica: pedimos à Virgem Mãe que reze «por nós pecadores, agora e na hora da nossa morte». Sabemos que Maria esteve e está presente, nestes dias de pandemia, junto das pessoas que concluíram o seu caminho terreno numa condição de isolamento, sem o conforto dos seus entes queridos. Com a sua ternura materna, estava lá Maria.

Resumo da catequese do Papa Francisco, 24 de Março, 2021

 TEXTO COMPLETO DA CATEQUESE:

http://www.vatican.va/content/francesco/pt/audiences/2021/documents/papa-francesco_20210324_udienza-generale.html

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Domingos de Ramos e a narrativa da Paixão do evangelista Marcos

Termos da Paixão, em Marcos

Nas celebrações do próximo Domingo (Domingo de Ramos), vai ser lida a narrativa da Paixão do evangelista Marcos (14, 1 – 15, 47). Porque usa termos cuja compreensão requer alguma explicitação, propomo-nos apresentar o seu significado, de forma sumária.

Começa por, em 14, 1, falar da Festa da Páscoa e dos Ázimos. O termo “Páscoa” indica, no Antigo Testamento, a ceia do cordeiro (comer a Páscoa [v. 12] significa, por isso, “comer o cordeiro pascal”), comemorativa da libertação do Egito (êxodo). Acontecia no dia 14 do mês de Nisan, após o equinócio da Primavera. Na pastorícia, era a festa que assinalava a passagem dos rebanhos das pastagens de inverno para as de verão (transumância). A Festa dos Ázimos (de origem grega, o termo “ázimo” significa “sem fermento”) começava no dia a seguir à Páscoa (15 de Nisan). Durante sete dias, comia-se o pão não fermentado, como memorial da saída do Egito (cf. Ex 12, 15-20). Na agricultura, era a festa que assinalava a novidade das colheitas. Em época incerta, esta festa foi associada à Páscoa, de tal modo que se tornaram, na prática, uma festa única (cf. Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas, XVII, 93).

Um pouco mais adiante, em 14, 32, a narrativa fala-nos do Getsémani (o termo significa “lagar de azeite”), nome de uma propriedade situada no Monte das Oliveiras, a leste de Jerusalém, ainda que de localização incerta.

Depois de, em 14, 33, ter falado de “sumo sacerdotes, doutores da Lei e anciãos”, no v. 35, refere o nome da instituição por eles formada, o Sinédrio, uma espécie de tribunal judaico, chamado a intervir nas questões religiosas, mas sem poder para condenar, pois só os romanos o podiam fazer.

Estando Jesus perante o tribunal romano e sendo costume Pilatos soltar-lhes um preso por altura da festa, a decisão da multidão recai sobre Barrabás (15, 7.11), um nome aramaico que significa “filho (bar) do pai (abbá)”. A ironia é forte: Pilatos solta Barrabás, que fora “preso com os insurretos que tinham cometido um assassínio durante a revolta” (v. 7), e condena Jesus, o verdadeiro filho do Pai. Tal diz bem da falsidade e dos equívocos que presidiram ao processo que dita a condenação de Jesus.

A cena agora referida ocorreu no Pretório (15, 16), palavra de origem latina que significa, no âmbito militar, a sede do pretor e, aqui, o lugar onde Pilatos ordenou a condenação de Jesus. Apesar da incerteza, a sua localização oscila entre a Torre Antónia e o palácio de Herodes, ambos em Jerusalém.

Depois de Pilatos ter decidido crucificar Jesus (15, 15), a narrativa fala da cruz (v. 21). Era usada em muitas culturas antigas como ornamento, mas os egípcios viam-na como símbolo da vida. Por influência persa, os romanos adotaram-na para instrumento de suplício.

O caminho da Paixão termina no Gólgota (15, 22), termo que, em latim, se diz calvarium e significa “caveira/crânio”. Trata-se de uma pequena elevação de terreno rochoso fora das muralhas de Jerusalém, mas a poucos metros da cidade. O nome pode advir-lhe da sua configuração (em forma de crânio) ou do facto de aí haver muitos túmulos.

O vinagre dado a Jesus, numa esponja (15, 36), será um vinho acidulado ou uma mistura de água e vinagre, o refrigerante dos soldados. Tendo em conta que a Paixão de Jesus é relida em chave vetero-testamentária, Marcos evoca Sl 69, 22: “Deram-me fel, em vez de comida, e vinagre, quando tive sede”.

Quase a terminar, a narrativa fala da Preparação e esclarece que se tratava da “véspera do sábado” (15, 42). Assim se designava o início da tarde de sexta, em que se preparava a celebração do sábado e, neste caso, da própria Páscoa (cf. Jo 19, 31.42).

Para concluir, a narrativa refere a presença de um centurião (15, 44.45). Trata-se do chefe romano de um conjunto de cem soldados (centurium, em latim).

Partindo do pressuposto de que conhecer mais ajuda a viver melhor, esperamos, deste modo, contribuir para uma melhor vivência do Domingo de Ramos e da Semana da Paixão.

Pe. João Alberto Correia

 

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5º Domingo da Quaresma – Ano B

“Queremos ver Jesus”

Neste quinto Domingo da Quaresma, a liturgia proclama o Evangelho no qual São João relata um episódio que teve lugar nos últimos dias da vida de Cristo, pouco antes da Paixão, em que alguns gregos expressaram o desejo de ver Jesus: «Queremos ver Jesus». No pedido daqueles gregos podemos entrever o pedido que muitos homens e mulheres, de todos os lugares e épocas, dirigem à Igreja e também a cada um de nós: “Queremos ver Jesus”.

Como resposta Jesus diz: «É chegada a hora para o Filho do Homem ser glorificado […] Se o grão de trigo, caído na terra, não morrer, permanece sozinho; mas se morrer, produz muito fruto». Jesus revela que Ele, para cada homem que O quiser procurar, é a semente escondida pronta para morrer a fim de dar muito fruto. Como se pretendesse dizer: se me quiserdes conhecer, e se me quiserdes compreender, olhai para o grão de trigo que morre na terra, ou seja, olhai para a cruz

Ainda hoje muitas pessoas, frequentemente sem o dizer, de uma forma implícita, gostariam de “ver Jesus”, de o encontrar, de o conhecer. A partir disto compreendemos a grande responsabilidade de nós cristãos e das nossas comunidades. Também nós devemos responder com o testemunho de uma vida que se dá em serviço, uma vida que assume sobre si o estilo de Deus – proximidade, compaixão e ternura – e se doa no serviço. Trata-se de lançar sementes de amor não com palavras que voam para longe, mas com exemplos concretos, simples e corajosos, não com condenações teóricas, mas com gestos de amor. Então o Senhor, com a sua graça, faz-nos dar fruto, mesmo quando o terreno é árido devido a desentendimentos, dificuldades ou perseguições, ou pretensões de legalismos ou moralismos clericais. Então precisamente, na prova e na solidão, quando a semente morre, é o momento em que a vida brota, para produzir frutos maduros no seu tempo. É neste entrelaçamento de morte e vida que podemos experimentar a alegria e a verdadeira fecundidade do amor, que acontece sempre, repito, no estilo de Deus: proximidade, compaixão, ternura.

Papa Francisco, Angelus (resumo), 21 de Março, 2021

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