“Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei”

Na alocução que precedeu a oração do Regina Coeli deste 6º Domingo da Páscoa, o Papa Francisco disse que neste tempo pascal a Palavra de Deus continua a indicar-nos estilos de vida coerentes para sermos a comunidade do Senhor Ressuscitado. De entre esses estilos, o Evangelho de hoje apresenta-nos o pedido de Jesus: “Permanecei no meu amor”. Viver na corrente do amor de Deus, estabelecer nela a nossa morada segura, é a condição para que o nosso amor não perca pelos caminhos da vida o ardor e a audácia. Devemos acolher com gratidão o amor que vem do Pai e permanecer neste amor, tentando não nos separar dele pelo egoísmo e o pecado. É um programa exigente mas não impossível.

É importante tomar consciência de que o amor de Cristo não é um sentimento superficial, mas uma atitude fundamental do coração, que se manifesta no viver como Ele quer. De facto, Jesus afirma: “Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como Eu, que tenho guardado os mandamentos do meu Pai, também permaneço no seu amor”.

O amor realiza-se na vida de todos os dias, nos comportamentos, nas acções; caso contrário é apenas algo ilusório. São palavras, palavras, palavras: isso não é amor. O amor é concreto, todos os dias. Jesus pede-nos para observar os seus mandamentos, que se resumem nisto: “Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei”.

Como fazer para que o amor que o Senhor Ressuscitado nos dá possa ser partilhado com os outros? Várias vezes, Jesus indicou quem é o outro que se deve amar, não com palavras, mas com obras. O outro é aquele que encontro no meu caminho e me interpela com o seu rosto e a sua história; é aquele que, com a sua presença, me impulsiona a sair dos meus interesses e das minhas seguranças; é aquele que espera a minha disponibilidade de o acolher e caminhar junto com ele um troço da mesma estrada.

Isto implica que eu tenha disponibilidade para quem quer que seja, independentemente da situação em que se encontra, começando por aquele que está próximo de mim na família, na comunidade, no trabalho, na escola. Desta forma, se eu permaneço unido a Jesus, o seu amor pode alcançar o outro e atraí-lo para Si, para a Sua amizade.

O amor pelos outros não pode ser reservado unicamente para momentos excepcionais, mas deve tornar-se a constante da nossa existência. É por isso que somos chamados, por exemplo, a proteger os idosos como um tesouro precioso e com amor, cuidar dos doentes, mesmo no último estádio de vida. É por isso que os nascituros devem ser sempre acolhidos. É por isso que, em última análise, a vida deve ser sempre protegida e amada desde a concepção até à morte natural. Isto é amor.

Somos amados por Deus em Jesus Cristo, que nos pede para nos amarmos uns aos outros como Ele nos ama. Mas nós não o conseguiremos se não tivermos o seu próprio coração. A Eucaristia, à qual somos chamados a participar todos os Domingos, tem como finalidade formar em nós o Coração de Cristo, de modo que toda a nossa vida seja guiada pelas suas atitudes generosas.

Papa Francisco, Regina Coeli (resumo), 6 de Maio, 2018

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Dia da Mãe – 6 de Maio

Sobre esta terra dorida, anestesiada e indiferente, uma Mãe verdadeira ainda é o ícone mais belo deste amor imenso e sem pauta nem medida, que não é meu, nem é teu, nem é nosso. É de Deus. Nós sabemos isso. Mas uma Mãe sabe isso melhor.

António Couto

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6º Domingo da Páscoa – Ano B

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João (Jo 15, 9-17)

Naquele tempo disse Jesus aos seus discípulos: «Assim como o Pai me tem amor, assim Eu vos amo a vós. Permanecei no meu amor. Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como Eu, que tenho guardado os mandamentos do meu Pai, também permaneço no seu amor. Manifestei-vos estas coisas, para que esteja em vós a minha alegria, e a vossa alegria seja completa. É este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como Eu vos amei. Ninguém tem mais amor do que quem dá a vida pelos seus amigos. Vós sois meus amigos, se fizerdes o que Eu vos mando. Já não vos chamo servos, visto que um servo não está ao corrente do que faz o seu senhor; mas a vós chamei-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi ao meu Pai. Não fostes vós que me escolhestes; fui Eu que vos escolhi a vós e vos destinei a ir e a dar fruto, e fruto que permaneça; e assim, tudo o que pedirdes ao Pai em meu nome Ele vo-lo concederá. É isto o que vos mando: que vos ameis uns aos outros.»

Reflexão

Poucos trechos do Evangelho de João são tão conhecidos como o de hoje, no qual sobressai o tema do “amor” como característica que deve distinguir os discípulos de Jesus. O amor é um dos temas preferidos da sociedade actual, mesmo que seja mais no falar do que na prática. Na sociedade actual o amor não passa muitas vezes de um sentimento agradável, uma emoção, quando não mesmo de um egoísmo disfarçado. Tendo como base a emoção, corre-se o risco de se tornar temporário, volúvel, sem consistência, descartável. 

O amor a que Jesus nos chama tem outro sentido: é o amor ”como Eu vos amei”. Como foi que Ele nos amou? Dando a sua vida por nós. O amor, assim, torna-se uma atitude de vida e não um sentimento. A comunidade dos discípulos (a Igreja) deve ser uma comunidade de pessoas enraízadas no amor de Jesus e comprometidas com o seu projecto, pois Jesus veio “para que todos tenham a vida e a tenham em abundância” (Jo, 10, 10). A prova de que uma comunidade cristã é animada pelo amor de Jesus são os frutos que ela dá, que devem permanecer e não desaparecer com a instabilidade dos sentimentos.

É interessante notar que, embora este trecho evangélico se situe no contexto da véspera da paixão, Jesus fala da alegria e da alegria completa. É impressionante como, num mundo que propõe a satisfação pessoal imediata de todas as necessidades e a “felicidade já” como metas, garantidas pelo consumo e pela posse, há tanta gente desanimada, triste, insatisfeita e deprimida. Contudo, vemos também muita gente, com uma vida sofrida e difícil, que irradia a verdadeira alegria e uma profunda paz, pois a sua vida está alicerçada sobre a rocha firme: uma vida de amor verdadeiro, na doação de si e na busca de uma vida digna para todos. Nessas pessoas realiza-se o que Jesus diz: “Manifestei-vos estas coisas, para que esteja em vós a minha alegria, e a vossa alegria seja completa”.

Palavra para o caminho                     

Amar é dar a própria vida. E este amor novo, que consiste em dar a própria vida, é tudo o que o Pai manda fazer. É, portanto, tudo o que Jesus, o Filho, faz por nós. E nos manda fazer também, dado que nos manda amar como Ele nos amou.

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Família Carmelita 79(2018)

Saiu há dias o nº 79 da revista “Família Carmelita”. Está de parabéns a equipa responsável pela publicação de mais um número desta revista da Ordem do Carmo em Portugal. Olhando com atenção para o conteúdo, alguns títulos dizem respeito a acontecimentos ocorridos neste Comissariado Carmelita e noutros espaços da Ordem; outros, relacionam-se com figuras da Família Carmelita; e outros, com a vida eclesial, nomeadamente a “Mensagem do Papa Francisco para o 55º Dia Mundial de Oração pelas Vocações”.

O Director de “Família Carmelita”, Fr. Pedro Monteiro, O. Carm., escreve na “Nota de abertura”: ”Este número da ‘Família Carmelita’ pretende-nos ajudar a percorrer o caminho da nossa vida até Deus com textos que nos ajudarão na nossa reflexão e viagem interior”.

Desejamos o bom acolhimento deste número da revista “Família Carmelita” por parte dos seus leitores e a sua colaboração na divulgação da mesma.

 

Fr. Manuel Castro, O. Carm.

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Não é possível aderir a Cristo, impondo condições

Prezados irmãos e irmãs, bom dia!

Prosseguindo a reflexão sobre o Batismo, hoje gostaria de meditar sobre os ritos centrais, que têm lugar ao pé da pia batismal.

Consideremos antes de tudo a água, sobre a qual é invocado o poder do Espírito, a fim de que tenha a força de regenerar e renovar (cf. Jo 3, 5 e Tt 3, 5). A água é matriz de vida e de bem-estar, enquanto a sua falta provoca o esmorecimento de toda a fecundidade, como acontece no deserto; mas a água pode ser também causa de morte, quando submerge entre as suas ondas, ou em grande quantidade devasta tudo; por fim, a água tem a capacidade de lavar, limpar e purificar.

A partir deste simbolismo natural, universalmente reconhecido, a Bíblia descreve as intervenções e as promessas de Deus através do sinal da água. No entanto, o poder de perdoar os pecados não está na água em si, como explicava Santo Ambrósio aos neófitos: «Viste a água, mas nem toda a água cura: só sara a água que tiver em si a graça de Cristo. […] A ação é da água, mas a eficácia é do Espírito Santo» (De sacramentis 1, 15).

Por isso, a Igreja invoca a ação do Espírito sobre a água, «a fim de que, aqueles que nela receberem o Batismo, sejam sepultados com Cristo na morte e, com Ele, ressuscitem para a vida imortal» (Rito do Batismo das crianças, n. 60). A prece de bênção diz que Deus preparou a água «para ser sinal do Batismo», recordando as principais prefigurações bíblicas: sobre as águas primordiais pairava o Espírito, para as transformar em germe de vida (cf. Gn 1, 1-2); a água do dilúvio marcou o fim do pecado e o início da nova vida (cf. Gn 7, 6-8, 22); através da água do Mar Vermelho, os filhos de Abraão foram libertados da escravidão do Egito (cf. Êx 14, 15-31). A propósito de Jesus, recorda-se o Batismo no Jordão (cf. Mt 3, 13-17), o sangue e a água derramados do seu lado (cf. Jo 19, 31-37), e o mandato dado aos discípulos, para batizar todos os povos em nome da Trindade (cf. Mt 28, 19). Revigorados por esta memória, pede-se a Deus que infunda na água da pia batismal a graça de Cristo morto e ressuscitado (cf. Rito do Batismo das crianças, n. 60). E assim, esta água é transformada em água que traz em si a força do Espírito Santo. E mediante esta água, com a força do Espírito Santo, batizamos as pessoas, os adultos, as crianças, todos.

Santificada a água da pia batismal, é preciso dispor o coração para aceder ao Batismo. Isto acontece mediante a renúncia a Satanás e a profissão de fé, dois gestos estritamente ligados entre si. Na medida em que digo “não” às sugestões do diabo — aquele que divide — torno-me capaz de dizer “sim” a Deus, que me chama a conformar-me com Ele nos pensamentos e nas ações. O diabo divide; Deus une sempre a comunidade, as pessoas num único povo. Não é possível aderir a Cristo, impondo condições. É necessário desapegar-se de certos vínculos para poder realmente abraçar outros; ou estás de bem com Deus, ou com o diabo. Por isso, a renúncia e o ato de fé caminham juntos. É preciso eliminar pontes, deixando-as atrás, para empreender o novo Caminho, que é Cristo.

A resposta às perguntas — «Renunciais a Satanás, a todas as suas obras e a todas as suas seduções?» — é dada na primeira pessoa do singular: «Renuncio». E do mesmo modo é professada a fé da Igreja, dizendo: «Creio». Eu renuncio, eu creio: isto está na base do Batismo. É uma opção responsável, que deve ser traduzida em gestos concretos de confiança em Deus. O ato de fé supõe um compromisso que o próprio Batismo ajudará a manter com perseverança nas várias situações e provas da vida. Recordemos a antiga sabedoria de Israel: «Meu filho, se te apresentares para servir o Senhor, prepara-te para a tentação» (Eclo 2, 1), ou seja, prepara-te para o combate. E a presença do Espírito Santo concede-nos a força para lutar bem.

Estimados irmãos e irmãs, quando molhamos a mão na água benta — ao entrar numa igreja, tocamos a água benta — e fazemos o sinal da Cruz, pensemos com alegria e gratidão no Batismo que recebemos — esta água benta recorda-nos o Batismo — e renovemos o nosso “Amém” — “Estou feliz” — para viver imersos no amor da Santíssima Trindade.

Papa Francisco, Audiência Geral, 2 de Maio de 2018

 

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Tenho um Amigo que adora encontrar-se comigo todos os dias

Um dia também perguntaram a uma amiga minha, muito nova e muito competente na sua área de especialidade, porque é que se levantava todos os dias uma hora mais cedo para ir à Missa antes de chegar ao trabalho. Também sem hesitar, esta minha querida amiga respondeu: “Tenho um Amigo que adoro e com quem conto para a vida que também me adora e gosta de Se encontrar comigo todos os dias. Marcamos encontro logo de manhã, porque gosto de conversar com Ele e de o ouvir antes de começar a fazer coisas e a tomar decisões. Sei que Ele nunca falha e está lá todos os dias à minha espera e, também por isso, não quero faltar ao encontro nem falhar!”

Desde que ouvi esta minha amiga dar esta resposta, sinto que também é por isso que vou à Missa todos os dias.

Laurinda Alves

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“Quem permanece em mim e Eu nele, esse dá muito fruto”

Para ser santo não é necessário ser bispo, sacerdote, religioso ou religiosa. Todos nós somos chamados a ser santos vivendo com amor e oferecendo a cada um o seu próprio testemunho nas ocupações de todos os dias, ali onde se encontra. Neste sentido, toda a actividade, pequena ou grande que seja – o trabalho e o descanso, a vida familiar e social, o exercício de responsabilidades políticas, culturais e económicas – toda a actividade, se vivida em união com Jesus e com uma atitude de amor e de serviço, é uma oportunidade para viver em plenitude o Baptismo e a santidade evangélica.

Jesus apresenta-se como a verdadeira videira e convida-nos a permanecer unidos a Ele para podermos dar muito fruto. A videira é uma planta que forma uma única coisa com os ramos; e os ramos só são fecundos quando estão unidos à videira. Esta relação é o segredo da vida cristã e o evangelista João expressa-a com o verbo permanecer, que na passagem do evangelho de hoje é repetida sete vezes.

Trata-se de permanecer com o Senhor para encontrar a coragem de sair de nós mesmos, das nossas comodidades, dos nossos espaços restritos e protegidos, para entramos no mar aberto das necessidades dos outros e dar ampla respiração ao nosso testemunho cristão no mundo. Essa coragem de entrar nas necessidades dos outros nasce da fé no Senhor ressuscitado e da certeza de que o seu Espírito acompanha a nossa história. Neste sentido, um dos frutos mais maduros que brota da comunhão com Cristo é, de facto, o compromisso de caridade para com o próximo, amando os irmãos com abnegação de si mesmo, até às últimas consequências, como Jesus nos amou. O dinamismo da caridade do crente não é o resultado de estratégias, não nasce de solicitações externas, de instâncias sociais ou ideológicas, mas do encontro com Jesus e do permanecer em Jesus. Ele é para nós a videira da qual absorvemos a linfa, isto é, a vida para levar para a sociedade uma maneira diferente de viver e de se doar, que coloca em primeiro lugar os últimos.

Quando alguém é íntimo com o Senhor, como são íntimos e unidos entre si a videira e os ramos, tem-se a capacidade de produzir frutos de vida nova, de misericórdia, de justiça e de paz, derivados da ressurreição do Senhor. Isto é o que os santos fizeram, aqueles que viveram em plenitude a vida cristã e o testemunho da caridade, porque foram verdadeiros ramos da videira do Senhor.

Papa Francisco, Regina Coeli (resumo), 29 de Abril de 2018

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5º Domingo da Páscoa – Ano B

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João (Jo 15, 1-8) 

Naquele tempo disse Jesus aos seus discípulos: «Eu sou a videira verdadeira e o meu Pai é o agricultor. Ele corta todo o ramo que não dá fruto em mim e poda o que dá fruto, para que dê mais fruto ainda. Vós já estais purificados pela palavra que vos tenho anunciado.

Permanecei em mim, que Eu permaneço em vós. Tal como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, mas só permanecendo na videira, assim também acontecerá convosco, se não permanecerdes em mim. Eu sou a videira; vós, os ramos. Quem permanece em mim e Eu nele, esse dá muito fruto, pois, sem mim, nada podeis fazer. Se alguém não permanece em mim, é lançado fora, como um ramo, e seca. Esses são apanhados e lançados ao fogo, e ardem.

Se permanecerdes em mim e as minhas palavras permanecerem em vós, pedi o que quiserdes, e assim vos acontecerá. Nisto se manifesta a glória do meu Pai: em que deis muito fruto e vos comporteis como meus discípulos.» 

Reflexão 

No Antigo Testamento (e de forma especial na mensagem dos profetas), a videira e a vinha eram símbolos do Povo de Deus. A videira que era Israel produziu uvas azedas em vez de uvas boas e doces, porque abandonou o Deus verdadeiro, para ir atrás dos ídolos. Mas «a videira, a verdadeira», que é Jesus, está agora plantada no meio de nós. E nós podemos ser os seus ramos, enxertados nele, e dar assim uvas boas e doces, Bom e Belo fruto. Basta, para tanto, permanecer nele, que é «a videira, a verdadeira», e deixar a sua vida, a sua seiva, vivificar os ramos. Trata-se, para nós, de permanecer em Jesus, como ele permanece em nós, pois veio habitar em nós. Habitar nele é fazer dele a nossa casa onde nos alimentamos, repousamos, pacificamos das nossas agitações, decepções, fracassos, lutas e incompreensões.

Ser cristão hoje exige uma experiência vital com Jesus Cristo, um conhecimento interior da sua pessoa e uma paixão pelo seu projecto. O decisivo no momento que estamos a viver é “permanecer nele”. É importante e necessário que toda a Igreja compreenda bem que a sua segurança, a paz e os frutos não nascem de técnicas cada vez mais apuradas nem de mecanismos político-económicos cada vez mais sofisticados, mas do seu abandono seguro na Palavra de Deus e no Espírito que a conforta e sustenta porque “Cristo, (…) é como uma abundante mina com muitas cavidades cheias de riquezas, e por mais que se cave, nunca se lhes encontra fim nem termo; pelo contrário, aqui e além, vão encontrando em cada cavidade novos veios de novas riquezas” (São João da Cruz).

Palavra para o caminho 

O Pai, que é o agricultor, corta todo o ramo que não dá fruto e poda o que dá fruto, para que dê mais fruto ainda. O Pai poda-nos através da comunidade, dos amigos, dos pobres e, também, através dos que nos criticam e fazem frente…. Alguns podam-se a eles próprios para darem mais fruto. A maioria das podas acontecem sem serem procuradas. Trá-las a própria vida. São podas involuntárias, a tempo ou fora de tempo. A Carmelita Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein) tem uma afirmação que nos pode ajudar a compreender esta acção do Pai e a sua finalidade: “Quanto mais elevado é o grau de união amorosa ao qual Deus destina a alma, tanto mais profunda e persistente deverá ser a sua purificação”. É uma morte que é geradora de vida, e vida em abundância (Jo 10, 10).

É interessante repassar a vida dos santos: quanto mais santos, mais podas e provas tinham: físicas, morais e espirituais. Deus os podava para que dessem mais fruto. Provou Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz, e como os provou. Provou e podou Santa Teresinha de Lisieux. Provou e podou São João Bosco. Provou e podou o santo padre Pio de Pietrelcina. Provou e podou São João Paulo II. Graças a essa poda, caem de nós os galhos inúteis, os empecilhos que dificultavam a passagem triunfal da seiva de Cristo, as folhas secas da nossa vontade própria, dos nossos desejos vácuos, infantis e caprichosos. 

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A vida cristã é um combate sem fim contra o mal

Estimados irmãos e irmãs, bom dia!

Continuemos a nossa reflexão sobre o Batismo, sempre à luz da Palavra de Deus.

É o Evangelho que ilumina os candidatos e suscita a adesão de fé: «O Batismo é, de modo totalmente particular, o “sacramento da fé”, uma vez que é a entrada sacramental na vida de fé» (Catecismo da Igreja Católica, 1236). E a fé é a entrega de nós mesmos ao Senhor Jesus, reconhecido como «nascente de água […] para a vida eterna» (Jo 4, 14), «luz do mundo» (Jo 9, 5), «vida e ressurreição» (Jo 11, 25), como ensina o itinerário percorrido, ainda hoje, pelos catecúmenos já prestes a receber a iniciação cristã. Educados pela escuta de Jesus, pelo seu ensinamento e pelas suas obras, os catecúmenos voltam a viver a experiência da mulher samaritana sedenta de água viva, do cego de nascença que adquire a vista, de Lázaro que sai do sepulcro. O Evangelho traz em si a força de transformar quem o recebe com fé, arrancando-o do domínio do maligno, a fim de que aprenda a servir o Senhor com alegria e novidade de vida.

À pia batismal nunca vamos sozinhos, mas acompanhados pela oração da Igreja inteira, como recordam as ladainhas dos Santos que precedem a prece de exorcismo e a unção pré-batismal com o óleo dos catecúmenos. São gestos que, desde a antiguidade, asseguram a quantos se preparam para renascer como filhos de Deus, que a oração da Igreja os assiste na luta contra o mal, os acompanha no caminho do bem, os ajuda a libertar-se do poder do pecado, a fim de passar para o reino da graça divina. A prece da Igreja. A Igreja reza, e reza por todos, por todos nós! Nós, Igreja, oramos pelos outros. É bom rezar pelos outros. Quantas vezes, quando não temos uma necessidade urgente, não rezamos. Devemos orar pelos outros, unidos à Igreja: “Senhor, peço-vos pelas pessoas que estão em necessidade, por quantos não têm fé…”. Não vos esqueçais: a oração da Igreja está sempre em ação. Mas nós devemos entrar nesta prece e rezar por todo o povo de Deus, e por aqueles que precisam de orações. Por isso, o caminho dos catecúmenos adultos está marcado por reiterados exorcismos pronunciados pelo sacerdote (cf. CIC, 1237), ou seja, por orações que invocam a libertação de tudo o que separa de Cristo e impede a íntima união com Ele. Pede-se a Deus até pelas crianças, para que as liberte do pecado original e as consagre como morada do Espírito Santo (cf. Rito do Batismo das crianças, n. 56). As crianças. Rezar pelas crianças, pela sua saúde espiritual e corporal. É um modo de proteger as crianças com a oração. Como testemunham os Evangelhos, o próprio Jesus combateu e expulsou os demónios para manifestar a vinda do reino de Deus (cf. Mt12, 28): a sua vitória sobre o poder do maligno deixa espaço ao senhorio de Deus, que rejubila e reconcilia com a vida.

O Batismo não é uma fórmula mágica, mas um dom do Espírito Santo que torna quem o recebe capaz de «lutar contra o espírito do mal», acreditando que «Deus enviou ao mundo o seu Filho para destruir o poder de Satanás e transferir o homem das trevas para o seu Reino de luz infinita» (cf. Rito do Batismo das crianças, n. 56). Sabemos por experiência que a vida cristã está sempre sujeita à tentação, sobretudo à tentação de se separar de Deus, da sua vontade, da comunhão com Ele, para voltar a cair na rede das seduções mundanas. E o Batismo prepara-nos, dá-nos força para esta luta quotidiana, até para a luta contra o diabo que — como diz São Pedro — como um leão, procura devorar-nos, destruir-nos.

Além da oração, há a unção no peito com o óleo dos catecúmenos, os quais «dele recebem vigor para renunciar ao diabo e ao pecado, antes de se aproximarem da fonte e ali renascerem para a nova vida» (Bênção dos óleos, Premissas, n. 3). Devido à propriedade do óleo de penetrar nos tecidos do corpo, proporcionando-lhe benefício, os antigos lutadores costumavam ungir-se de óleo para tonificar os músculos e para ativar mais facilmente as garras do adversário. À luz deste simbolismo, os cristãos dos primeiros séculos adotaram o uso de ungir o corpo dos candidatos ao Batismo com o óleo benzido pelo do Bispo [Eis a prece de bênção, expressiva do significado deste óleo: «Ó Deus, sustentáculo e defesa do vosso povo, abençoai este óleo, no qual quisestes oferecer-nos um sinal da vossa fortaleza divina; concedei energia e vigor aos catecúmenos que serão por ele ungidos, a fim de que, iluminados pela vossa sabedoria, compreendam mais profundamente o Evangelho de Cristo; sustentados pelo vosso poder, assumam com generosidade os compromissos da vida cristã; e, tornando-se dignos da adoção de filhos, tenham a alegria de renascer e viver na vossa Igreja»: Bênção dos óleos, n. 21], com a finalidade de significar, mediante este «sinal de salvação», que o poder de Cristo Salvador fortalece para lutar contra o mal e para o derrotar (cf. Rito do Batismo das crianças, n. 105).

É cansativo combater contra o mal, escapar dos seus enganos, recuperar a força depois de uma luta extenuante, mas devemos saber que toda a vida cristã é um combate. Contudo, devemos saber também que não estamos sozinhos, que a Mãe Igreja reza a fim de que os seus filhos, regenerados no Batismo, não sucumbam às emboscadas do maligno, mas que as vençam pelo poder da Páscoa de Cristo. Fortalecidos pelo Senhor Ressuscitado, que derrotou o príncipe deste mundo (cf. Jo 12, 31), também nós podemos repetir com a fé de São Paulo: «Tudo posso n’Aquele que me dá força» (Fl 4, 13). Todos nós podemos vencer, vencer tudo, mas com a força que nos vem de Jesus.

Papa Francisco, Audiência Geral, 25 de Abril de 2018


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