Cristo, fonte de água viva

A passagem do Evangelho deste Domingo, o terceiro da Quaresma, apresenta o encontro de Jesus com uma mulher samaritana. Ele está a caminho com os seus discípulos e param junto a um poço, na Samaria. Os samaritanos eram considerados heréticos pelos judeus, e muito desprezados, como cidadãos de segunda classe. Jesus está cansado, tem sede. Chega uma mulher para tirar água e ele pede-lhe: “Dá-me de beber”. Assim, rompendo toda a barreira, começa um diálogo em que revela àquela mulher o mistério da água viva, isto é, do Espírito Santo, dom de Deus. De facto, diante da reacção de surpresa da mulher, Jesus responde: “Se conhecesses o dom de Deus e quem é Aquele que te diz: ‘Dá-Me de beber’, tu é que Lhe pedirias e Ele te daria água viva”

No centro deste diálogo está a água. Por um lado, a água como elemento essencial para viver, que sacia a sede do corpo e sustenta a vida. Por outro, a água como símbolo da graça divina, que dá a vida eterna. Na tradição bíblica, Deus é a fonte da água viva – assim se diz nos salmos, nos profetas – afastar-se de Deus, fonte de água viva, e da sua Lei, comporta a pior seca. É a experiência do povo de Israel no deserto. No longo caminho para a liberdade, sedento, protesta contra Moisés e contra Deus porque não há água. Então, por desejo de Deus, Moisés faz brotar água de uma rocha, como sinal da providência de Deus que acompanha o seu povo e lhe dá a vida.

E o apóstolo Paulo interpreta essa rocha como um símbolo de Cristo. Dirá assim: “E a rocha é Cristo”. É a misteriosa figura da sua presença no meio do povo de Deus que caminha. Cristo, de facto, é o Templo do qual, segundo a visão dos profetas, jorra o Espírito Santo, isto é, a água viva que purifica e dá vida. Quem tem sede de salvação pode obtê-la gratuitamente de Jesus, e o Espírito Santo se tornará nele ou nela uma fonte de vida plena e eterna.

A promessa da água viva que Jesus fez à mulher samaritana tornou-se realidade na sua Páscoa: do lado trespassado, saiu “sangue e água”. Cristo, o Cordeiro imolado e ressuscitado, é a fonte da qual brota o Espírito Santo, que perdoa os pecados e regenera para uma vida nova.

Este dom é também a fonte do testemunho. Como a samaritana, quem quer que encontre Jesus vivo sente a necessidade de contar aos outros, para que todos confessem que Jesus “é verdadeiramente o Salvador do mundo”, como disseram os conterrâneos daquela mulher.

Também nós, nascidos para uma vida nova mediante o Baptismo, somos chamados a testemunhar a vida e a esperança que há em nós. Se a nossa busca e a nossa sede encontram plena satisfação em Cristo, mostraremos que a salvação não está nas “coisas” deste mundo, que no final produzem secura, mas n’Aquele que nos amou e sempre nos ama: Jesus nosso Salvador, na água viva que Ele nos oferece.

Que Maria Santíssima nos ajude a cultivar o desejo de Cristo, fonte de água viva, o único que pode saciar a sede de vida e de amor que trazemos no coração.

Papa Francisco, Angelus (resumo), 15 de Março, 2020

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3º Domingo da Quaresma – Ano A

Dá-me de beber” (João 4,7)

O Evangelho do 3º Domingo da Quaresma, Ano A, oferece-nos o grande diálogo de Jesus com a samaritana (João 4,5-42). O evangelista diz-nos que «era preciso passar pela Samaria» (João 4,4). Aquilo que parece óbvio à primeira vista, na verdade não o é. Quem, no tempo de Jesus, fazia essa viagem, evitava mesmo passar pela Samaria porque a estrada era montanhosa, mas também porque eram hostis as relações entre judeus e samaritanos. Se o narrador coloca Jesus a calcorrear o caminho montanhoso da Samaria, é assunto teológico, de resto, explicitado naquele «era preciso», e não geográfico: trata-se de revestir Jesus dos traços do mensageiro de Isaías 52,7: «Como são belos, sobre os montes, os pés do mensageiro que leva boas novas a Sião», e do noivo do Cântico dos Cânticos 2,8, de quem a noiva diz: «A voz do meu amado: ei-lo que vem correndo sobre os montes». O que faz correr sobre os montes é, pois, uma grande notícia ou um grande amor. As duas realidades movem Jesus.

O texto refere que Jesus se sentava com tempo junto do poço-fonte de Jacob (João 4,6). É sabido, desde o Antigo Testamento, que o poço-fonte é visto como um cenário de noivado (Isaac com Rebeca; Jacob com Raquel; Moisés com Séfora). Um grande amor e grandes e belas notícias movem Jesus, na sua viagem «necessária» sobre os montes da Samaria.

Eis Jesus sentado, com tempo, junto do poço-fonte à hora do meio-dia. E aí vem a noiva, a mulher da Samaria. E Jesus desce pedagogicamente ao nível da mulher que vinha buscar água, com aquele pedido directo: «Dá-me de beber» (João 4,7). Salta à vista que Jesus se transforma em pedinte com o intuito de transformar em pedinte a mulher: a maravilhosa delicadeza de um Deus que pede para dar! De facto, pedagogicamente conduzida por Jesus, no final do diálogo sobre a água, é a mulher que diz para Jesus: «Senhor, dá-me dessa água…» (João 4,15).

Jesus imprime um novo ritmo ao diálogo, dizendo agora à mulher: «Vai, chama o teu marido, e vem aqui» (João 4,16). Ao que a mulher responde: «Não tenho marido!» (João 4,17). A mulher da Samaria, que não tem marido, vai encontrar o esposo definitivo, o próprio Deus, cumprindo Isaías 62,5: «Como um jovem desposa uma virgem, assim te desposará o teu edificador. Como a alegria do noivo pela sua noiva, assim o teu Deus se alegrará em ti».

Jesus é o conhecedor que nos conhece, e que nós ainda não conhecemos, a entrar dentro da mulher da Samaria e de nós mesmos, dizendo: «Disseste bem: “Não tenho marido”. Na Verdade tiveste cinco maridos, e o que tens agora [= sexto] não é teu marido”» (João 4,17-18). Seguramente que a mulher experimenta a estranha sensação de estar perante o saber que a ultrapassa de alguém que a conhece perfeitamente, e que ela ainda não conhece.

Aquela mulher da Samaria, que agora não tem marido, que já teve cinco, e que o que tem agora, e que é o sexto, não é seu marido, compreende-se então que aquela mulher já vai no sexto marido provisório, sendo seis um número imperfeito. Mas o sexto, enquanto provisório e imperfeito, aponta para o definitivo e perfeito, aponta para o sétimo, que está ali à beira, que está aqui à beira, e é Jesus! É por isso que a sua voz é a voz do noivo, daquele que vem, trazendo o tempo novo da alegria nova e definitiva, a alegria grande da Páscoa, o Messias suspeitado (João 4,25) e confesso: «EU SOU, o que estou a FALAR contigo!» (João 4,26), verdadeiro clímax narrativo e da revelação.

A samaritana, encontrada pelo Noivo novo definitivo esperado, procede, de facto, como as mulheres na manhã de Páscoa: abandona o cântaro antigo e provisório (João 4,28) que servia apenas para recolher a água antiga e provisória tirada do poço antigo e provisório (João 4,11), e correu à cidade para dizer a todos o que se passou com ela (João 4,28): «Vinde ver um Homem que me disse tudo o que eu fiz. Não será ele o Cristo?» (João 4,29). E a interrogação: «Não será ele o Cristo?» não é expressão de dúvida acerca da identidade de Jesus, mas uma finíssima interrogação pedagógica, que provoca nos samaritanos a curiosidade e acende neles o desejo de fazerem a experiência, de irem ver Jesus. Foi assim que os samaritanos foram ver e ouvir a voz do Noivo, Aquele-que-vem, e chegaram à fé em Jesus, confessando que Ele é verdadeiramente «o salvador do mundo» (João 4,42). O definitivo.

António Couto, texto resumido e adaptado

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3ª Semana da Quaresma com São João da Cruz

ATÉ AO CORAÇÃO

Leitura e meditação: João 4: encontro com a Samaritana

Três pistas para pôr em prática durante a semana

1. Qual é a imagem que mais me fala da minha sede espiritual?

2. Paro para observar os locais que habitualmente escolho para a oração: ajudam-me a interiorizar?Estaria disposto(a) a mudar de locais?

3. Qual é o espaço que eu dou à sensibilidade na minha oração? Como posso eu crescer na fé?

ORAR EM CADA DIA DA 3ª SEMANA

Segunda-feira, 16 Março: ao belo prazer de Deus

«Mas Ele, passando pelo meio deles, seguiu o seu caminho» (Lc 4, 30)

«Jesus Cristo, nesta vida não teve nem quis outro gosto senão o de fazer a vontade de seu Pai, à qual chamava sua comida e alimento.» (São João da Cruz citando Jo 4,34)

Quais são os movimentos interiores que me guiam para agir e avançar? O meu gosto, ou o gosto de dar alegria a Deus?

Terça-Feira, 17 Março: A doçura das palavras de Jesus

«É de todo o coração que agora Te seguimos, Te veneramos e procuramos a tua face» (Dn 3, 41)

«E a Samaritana esqueceu a água e o cântaro pela doçura das palavras de Deus.» (São João da Cruz)

Reavivo na minha memória um momento marcante na minha vida de oração e tiro dele benefício para me voltar a centrar no amor de Jesus.

Quarta-feira, 18 Março: lembrança de Deus

«Toma, pois, cuidado contigo! Guarda-te bem de esquecer os factos que os teus olhos viram; que eles nunca se afastem do teu coração em todos os dias da tua vida.» (Dt 4,9)

«Procure andar sempre na presença de Deus e conservar em si a pureza que Ele lhe ensina.» (São João da Cruz)

Vigio o meu coração, os pensamentos que nele habitam? Reavivo em mim a lembrança de Deus.

Quinta-feira, 19 Março: a fé de São José

«Não foi em virtude da Lei, mas da justiça obtida pela fé, que a Abraão, ou à sua descendência, foi feita a promessa de que havia de receber o mundo em herança.» (Rm 4, 13)

«É por meio delas [as virtudes teologais Fé, Esperança e Caridade] que a alma se une a Deus.» (São João da Cruz)

Com a ajuda de São José, faço um ato de fé em Deus numa situação concreta.

Sexta-feira, 20 Março: o verdadeiro amor de Deus

«Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu entendimento e com todas as tuas forças.» (Mc 12, 30)

«A alma que caminha no amor, não cansa nem se cansa.» (São João da Cruz)

O amor de Deus tornou-se para mim uma força quotidiana? Uma energia vital?

Sábado, 21 Março: a minha maneira de amar a Deus

«Porque Eu quero a misericórdia e não os sacrifícios, o conhecimento de Deus mais que os holocaustos.» (Os 6,6)

«Se a alma se habitua ao sabor da devoção sensível, nunca mais acertará em passar à força da alegria do espírito.» (São João da Cruz)

Como é a minha maneira de amar o Senhor na vida de oração? Como posso progredir?

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Senhor Jesus, livra-nos do flagelo do Coronavírus

Senhor Jesus, Salvador do mundo, esperança que não conhece a desilusão, tem piedade de nós e livra-nos do mal!

A Ti imploramos a vitória sobre o flagelo deste vírus que está a alastrar, a cura dos doentes, a protecção dos que estão sãos, o auxílio para quem presta cuidados de saúde. Mostra-nos o Teu Rosto de Misericórdia e salva-nos com o Teu grande amor.

Tudo isto te pedimos por intercessão de Maria, Tua e nossa Mãe, que fielmente nos acompanha! Tu que vives e reinas pelos séculos dos séculos. Amen!

D. Bruno Forte

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Senhor, vós conheceis o íntimo do meu ser

Só Deus vê o interior do coração. Ele vê o que bate como um sino, mas ele vê também a mais pequena pepita de ouro que escapa muitas vezes à nossa vista e que não está nunca totalmente ausente. Acredita nesta pepita em cada ser humano…

Santa Teresa Benedita da Cruz 

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2ª Semana da Quaresma com São João da Cruz

SÓ JESUS

Leitura e meditação: Evangelho: Mt 17, 1-9: A transfiguração

Três pistas para pôr em prática esta semana

1. Qual é a representação artística de Jesus que me atrai mais? Utilizo-a para a minha oração pessoal?

2. Faço memória de um momento importante em que compreendi que Jesus é uma Pessoa viva a Quem posso falar e confiar a minha vida.

3. Marco um tempo para olhar para Jesus e para O escutar da maneira que me for mais conveniente: em casa, numa capela, na natureza, etc.

REZAR EM CADA DIA DA 2ª SEMANA

Segunda-feira, 9 Março: olhar para Jesus

«Ah! Senhor, Deus grande e temível, que és fiel à Aliança e que mantens o teu favor para com os que te amam e guardam os teus mandamentos.» (Dan 9, 4)

«Se fixares n’Ele [meu Filho] o teu olhar, acharás tudo. Ele é toda a minha locução e resposta, (…) Ao dar-vo-l’O por Irmão, Companheiro, Mestre, Preço e Prémio já vos falei, respondi, manifestei e revelei tudo.» (São João da Cruz)

Escolho uma representação bela da Face de Cristo para olhar para ela com frequência, pedindo-Lhe que me dê a conhecer o Pai.

Terça-feira, 10 Março: a graça de deixar-se maravilhar

«Na terra, a ninguém chameis ‘Pai’, porque um só é o vosso ‘Pai’: aquele que está no Céu.» (Mt 23, 9)

«Meu Deus, não me ireis roubar o que me destes um dia no vosso único Filho, Jesus Cristo, no qual me destes tudo quanto quero.» (São João da Cruz)

Fico maravilhado e dou graças porque Deus nos chama a partilhar a felicidade da sua vida: a comunhão do Pai e do Filho no Espírito de Amor.

Quarta-feira, 11 Março: imitar Jesus na intercessão

«Lembra-te de que me apresentei diante de ti, a fim de interceder por eles e afastar deles a tua cólera.» (Jer. 18, 20)

«Mantenha um apetite contínuo de imitar Cristo em tudo, identificando-se com a Sua vida que deve amar para a saber imitar.» (São João da Cruz)

Como posso eu hoje imitar Jesus na intercessão pelos outros?

Quinta-feira, 12 Março: o conhecimento das Escrituras

«Disse-lhe Abraão: ‘Têm Moisés e os Profetas; que os oiçam!’» (Lc 16,29)

«O que antigamente Deus disse pelos profetas a nossos pais, de muitos modos e de muitas maneiras agora, por último, nestes dias, nos falou pelo Filho, tudo de uma só vez.» (São João da Cruz)

Penso numa forma concreta de conhecer melhor a Bíblia.

Sexta-feira, 13 Março: diante de Cristo na cruz

«Finalmente, enviou-lhes o seu próprio filho, dizendo: ‘Hão de respeitar o meu filho.’» (Mt 21, 37)

«Se quiseres que Eu te diga uma palavra de consolação, contempla o meu Filho, obediente e preso por meu amor, em agonia, e verás quantas te dirá.» (São João da Cruz)

Nos momentos de prova, de sofrimento, de desânimo, pouso o meu olhar em Cristo na cruz e opto por ter confiança n’Ele.

Sábado, 14 Março: conhecê-l’O e amá-lO

«‘Filho, tu estás sempre comigo…» (Lc 15, 31)

«Uma esposa que te ame, Meu Filho, dar-te queria, Que por teu amor mereça ter a nossa companhia…» (São João da Cruz, Romance 3)

Como permanecer na presença de Deus ao longo do dia?

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2º Domingo da Quaresma – Ano A

“Levantai-vos e não tenhais medo”

O Evangelho deste segundo Domingo da Quaresma (cfr Mt 17,1-9) apresenta a narração da Transfiguração de Jesus. Cristo toma consigo Pedro, Tiago e João e leva-os para uma alta montanha, símbolo da proximidade com Deus, para abri-los a uma compreensão mais plena do mistério da sua pessoa. Jesus fala-lhes dos sofrimentos, da morte e da ressurreição que o aguardavam, mas os discípulos não conseguiam aceitar aquela perspectiva. Por isso, já no cimo da montanha, Jesus imergiu-se em oração e transfigurou-se diante dos três discípulos e o seu rosto brilhou como o sol e as suas roupas ficaram brancas como a luz.

Através do acontecimento maravilhoso da Transfiguração os três discípulos são chamados a reconhecer em Jesus o Filho de Deus. Deste modo, eles avançam no conhecimento do seu Mestre, dando-se conta que o aspecto humano não expressa toda a sua realidade, sendo-lhes revelada a dimensão ultra-terrena e divina de Jesus. Os discípulos são convidados a ouvi-lo e a segui-lo.

Jesus escolheu Pedro, Tiago e João não porque eram os mais santos: na hora da provação, Pedro renega-lo-á e os dois irmãos Tiago e João pedirão para ter os primeiros lugares no seu reino. Jesus não escolhe segundo os nossos critérios, mas segundo o seu desígnio de amor. E assim como chamou aqueles três discípulos, também hoje chama algumas pessoas para que estejam próximas d’Ele, para testemunhá-lo, embora não o mereçamos.

Não estivemos no monte Tabor, não vimos com os nossos olhos o rosto de Jesus brilhar como o sol. Todavia, também a nós foi entregue a Palavra da salvação, foi doada a fé. Também a nós Jesus diz: “Levantai-vos e não tenhais medo”. Neste mundo, marcado pelo egoísmo e pela avidez, a luz de Deus está ofuscada pelas preocupações do quotidiano. Dizemos com frequência: não tenho tempo para rezar, não sou capaz de realizar um serviço na paróquia, de responder aos pedidos dos outros… Mas não nos devemos esquecer que o Baptismo que recebemos faz de nós testemunhas, não pela nossa capacidade, mas pelo dom do Espírito.

Papa Francisco, Angelus (resumo), 8 de Fevereiro, 2020

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Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra

«Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra» (Mt 5, 5). O termo “mansos” usado aqui significa literalmente meigo, dócil, gentil, sem violência. A mansidão manifesta-se em momentos de conflito, vê-se pela forma como se reage a uma situação hostil. Qualquer um pode parecer manso quando tudo está calmo, mas como reage “sob pressão” se for atacado, ofendido, agredido? Numa passagem, São Paulo recorda a «mansidão e bondade de Cristo» (2 Cor 10, 1). E São Pedro, por sua vez, recorda a atitude de Jesus na Paixão: ele não respondia nem ameaçava, «mas entregava-se àquele que julga com justiça» (1 Pd 2, 23). E a mansidão de Jesus é vista fortemente na sua Paixão.

Na Escritura a palavra “manso” também indica aquele que não possui terras; e por isso nos impressiona que a terceira bem-aventurança diga precisamente que os mansos «possuirão a terra». Mas vejamos bem o verbo usado para indicar a posse dos mansos: eles não conquistam a terra; não se diz «bem-aventurados os mansos porque eles conquistarão a terra». Eles “possuem-na”. Bem-aventurados os mansos porque “possuirão” a terra. Nas Escrituras, o verbo “possuir” tem um significado maior. O Povo de Deus chama “posse” precisamente à terra de Israel que é a Terra Prometida.

Esta terra é uma promessa e uma oferenda para o povo de Deus, e torna-se sinal de algo muito maior do que apenas território. Há uma “terra”, que é o Céu, isto é, a terra para onde caminhamos: os novos céus e a nova terra rumo à qual caminhamos.

Então o manso é aquele que “possui” o mais sublime dos territórios. Ele não é um cobarde, um “débil” que encontra uma moralidade alternativa para se manter fora dos problemas. De modo algum! Trata-se de uma pessoa que recebeu uma herança e não a quer perder. O manso não é um indulgente, mas o discípulo de Cristo que aprendeu a defender uma terra diferente. Ele defende a sua paz, defende a sua relação com Deus, defende os seus dons, os dons de Deus, preservando a misericórdia, a fraternidade, a confiança, a esperança. Porque as pessoas mansas são pessoas misericordiosas, fraternas, confiantes e esperançosas.

Aqui devemos mencionar o pecado da ira, um movimento violento cujo impulso todos nós conhecemos. Quem nunca se zangou? Todos. Devemos inverter a bem-aventurança e questionar-nos: quantas coisas destruímos com a ira? O que perdemos? Um momento de cólera pode destruir muitas coisas; perde-se o controlo e não se avalia o que é realmente importante, e pode-se arruinar o relacionamento com um irmão, às vezes sem remédio. Devido à ira, tantos irmãos já não se falam, afastam-se uns dos outros. É o oposto de mansidão. A mansidão reúne, a ira separa.

A “terra” a ser conquistada com mansidão é a salvação daquele irmão do qual fala o próprio Evangelho de Mateus: «Se te der ouvidos, terás ganho o teu irmão» (Mt 18, 15). Não há terra mais bela do que o coração do próximo, não há território mais belo para ganhar do que a paz reencontrada com um irmão. E esta é a terra que se deve possuir com mansidão!

Papa Francisco, Audiência geral (resumo), 19 de Fevereiro, 2020

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Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados

Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. Este choro, nas Escrituras, pode ter dois aspectos: o primeiro é pela morte ou sofrimento de alguém. O outro aspecto são as lágrimas pelo pecado — pelo próprio pecado — quando o coração sangra pela dor de ter ofendido a Deus e ao próximo.

Podemos amar de uma forma fria? Podemos amar por função, por dever? Claro que não. Há alguns aflitos para consolar, mas às vezes há também consolados para afligir, para despertar, que têm um coração de pedra e não aprenderam a chorar. É necessário também despertar as pessoas que não se deixam comover pela dor dos outros.

O luto, por exemplo, é um caminho amargo, mas pode ser útil para abrir os olhos para a vida e para o valor sagrado e insubstituível de cada pessoa, e nesse momento percebemos quão curto é o tempo.

Há um segundo significado desta paradoxal bem-aventurança: chorar pelo pecado. Aqui é necessário distinguir: há aqueles que estão irados por terem cometido um erro. Mas isto é orgulho. Ao contrário, há quem chora pelo mal feito, pelo bem omitido, e pela traição do relacionamento com Deus. Este é o choro por não ter amado, que nasce da preocupação pelas outras pessoas. Neste caso, choramos porque não correspondemos ao Senhor que nos ama tanto, e entristece-nos o pensamento do bem que não praticamos; este é o significado do pecado. Estes dizem: «Ofendi aquele que amo», e isto os faz sofrer até às lágrimas. Deus seja abençoado se houver estas lágrimas!

A compreensão do pecado é um dom de Deus, é uma obra do Espírito Santo. Nós, sozinhos, não conseguimos entender o pecado. É uma graça que devemos pedir. Senhor, que eu entenda o mal que cometi ou o que posso cometer. Este é um dom muito grande e depois de ter compreendido isto, vem o choro de arrependimento.

Sábio e bem-aventurado é aquele que acolhe a dor relacionada com o amor, porque receberá a consolação do Espírito Santo que é a ternura de Deus que perdoa e corrige. Deus perdoa sempre: não nos esqueçamos disto. Deus perdoa sempre, até os piores pecados, sempre. O problema está em nós, que nos cansamos de pedir perdão, fechamo-nos e não pedimos perdão. É este o problema, mas Ele está ali para perdoar.

Se tivermos sempre em mente que Deus «não nos tratou segundo os nossos pecados, nem nos castigou segundo as nossas culpas» (Sl 103, 10), vivemos na misericórdia e na compaixão, e em nós surge o amor. Que o Senhor nos conceda amar em abundância, amar com o sorriso, com a proximidade, com o serviço e também com o choro.

Papa Francisco, Audiência geral (resumo), 12 de Fevereiro), 2020

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1ª Semana da Quaresma com São João da Cruz

O OBSTÁCULO QUE EXISTE EM NÓS

Leitura e meditação: Evangelho Mt 4, 1-11: As tentações de Jesus no deserto

Três pistas para pôr em prática esta semana

1. Esforço-me por perceber onde estão os meus apegos, onde se revela o meu instinto de posse. Que posso fazer esta semana para me tornar mais livre?

2. Procuro uma passagem ou um versículo da Escritura que me possa ajudar a combater os pensamentos nocivos que me afastam da paz.

3. Será que ponho os meios para me formar, para conhecer e compreender melhor a minha fé?

REZAR EM CADA DIA DA 1ª SEMANA

Segunda-feira, 2 de Março: amar a Deus como Ele quer

«Senhor, quando foi que te vimos com fome, ou com sede, ou peregrino, ou nu, ou doente, ou na prisão, e não te socorremos? (Mt 25, 44)

«No entardecer, examinar-te-ão no amor. Aprende a amar como Deus quer ser amado e não olhes à tua condição.» (São João da Cruz)

Abro os olhos para ver as oportunidades de prestar atenção às necessidades a que posso acudir, nem que seja com um sorriso, uma palavra benévola.

Terça-feira, 3 Março: a via do despojamento

«O vosso Pai celeste sabe do que necessitais antes de vós lho pedirdes.» (Mt 6,8)

«Este, por nenhuma [coisa] ter no coração, tem-nas a todas com grande liberdade» (São João da Cruz)

Consigo responder a certos apelos de Quaresma com algum pequeno passo de despojamento e de confiança?

Quarta-feira, 4 Março: deixar-se guiar

«Os habitantes de Nínive acreditaram em Deus, ordenaram um jejum e vestiram-se de saco, do maior ao menor.» (Jn 3,5)

«Deus é muito amigo de que a direcção e a comunicação do homem se faça por meio de outro homem igual a ele e que o homem seja guiado e governado pela razão natural.» (São João da Cruz)

A quem posso pedir ajuda para discernir precisamente sobre que aspecto é que devo direccionar o meu trabalho de conversão durante esta Quaresma?

Quinta-feira, 5 Março: rezar pelo meu próximo

«Pois, quem pede, recebe; e quem procura, encontra; e ao que bate, hão-de abrir.» (Mt 7, 8)

«Ó dulcíssimo amor de Deus, tão mal conhecido! Descansado fica quem encontrou a sua fonte.» (São João da Cruz)

Recolho na minha oração as necessidades dos meus irmãos, próximos ou longínquos, para os confiar à bondade de Deus.

Sexta-feira, 6 Março: «Felizes os mansos»

«Porventura hei-de comprazer-me com a morte do pecador – oráculo do Senhor Deus – e não com o facto de ele se converter e viver?» (Ez 18, 23)

«Se Vós, ó bom Jesus, não suavizais a alma no vosso amor, ela continuará sempre na sua rudeza natural.» (São João da Cruz)

Costumo pedir a Deus a graça da mansidão (que não é o mesmo que tibieza)?

Sábado, 7 Março: uma obediência amorosa

«Hoje, declaraste ao SENHOR que Ele seria o teu Deus e que andarias nos seus caminhos, observando as suas leis, os seus preceitos e os seus mandamentos.» (Dt 26, 17)

«Deus antes quer de ti o mais pequeno grau de obediência e humildade do que todos esses serviços que Lhe pensas oferecer.» (São João da Cruz)

Hoje que acto de obediência amorosa posso apresentar a Deus?

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