20 de Fevereiro: Santos Francisco e Jacinta Marto

Fátima, os Pastorinhos, o Carmelo e um Milagre

Se eu pudesse meter no coração de toda a gente o lume que tenho cá dentro no peito a queimar-me e a fazer-me gostar tanto do Coração de Jesus e do Coração de Maria!” (Memórias da Irmã Lúcia III, 9).

Ave Maria Puríssima!

O Frei Manuel Castro, responsável pela revista “Família Carmelita”, da Ordem do Carmo em Portugal, pediu-me que escrevesse algo sobre a ligação entre a cura do menino Lucas, que conduziu à canonização dos Pastorinhos Francisco e Jacinta, e o nosso Carmelo de Campo Mourão (foto acima: capela do Carmelo “Nossa Senhora do Carmo” onde se pode ver Lucas, Irmã Teresa e os santos pastorinhos Francisco e Jacinta. Foto abaixo: Lucas e o Papa Francisco no dia da canonização de Francisco Marto e Jacinta Marto, em Fátima, em 13 de Maio de 2017). Faço-o com muito gosto.

As maravilhas e grandezas que Deus opera pela intercessão dos seus Santos são muitas, e na maioria das vezes a Omnipotência Divina escolhe frágeis instrumentos para manifestar a sua grandeza e infinita Misericórdia.

Aconteceu em 2013 o acidente de uma criança que comoveu uma pequena cidade e cuja notícia bateu às portas do nosso Mosteiro. Lucas caiu de uma altura de 6 metros, da janela da casa dos avós, onde brincava com sua irmãzinha. Ficou em coma muito grave pela fratura craniana com perda de massa encefálica, teve duas paragens cardíacas e os médicos achavam que tinha poucas probabilidades de sobreviver e se sobrevivesse ficaria com graves sequelas.

No mesmo dia do acidente, pessoas ligaram para o nosso Mosteiro pedindo orações pelo Lucas e pela família. Num primeiro telefonema a Irmã porteira não passou o recado à Comunidade pois, comovida com o fato, sentiu que deveria rezar apenas pelo conforto da família, pois pela gravidade do acidente não tinha esperanças que o menino Lucas fosse salvo. Era um domingo, 03 de Março. Passados uns dias a saúde da criança piorava e novamente uma pessoa nos telefonou perguntando: “Vocês estão rezando pelo Lucas? Ele ainda corre muito risco de vida e a família encontra-se muito aflita”. Desta vez outra Irmã atendeu o telefonema e passou o pedido de oração à Comunidade que estava reunida em recreação.

Eu já tinha uma antiga amizade com o Francisco e a Jacinta. Um sacerdote, amigo meu, me fez conhecer melhor a vida destes dois grandes Santos quando me pediu orações pela causa de canonização dos Beatos. Sempre recorria a eles em minha vida espiritual e também pedindo a sua intercessão pelas pessoas que me pediam orações. Francisco, o místico e contemplativo, me fez amar mais a Jesus escondido no Santíssimo Sacramento, a contemplar os mistérios de Deus, sendo exemplo para mim de absoluta docilidade à vontade Divina e no seu intenso amor e desejo de consolar o coração de Deus. Jacinta, a apóstola apaixonada, com o seu testemunho de imolação e doação sempre me ajudou a procurar ser generosa nos sacrifícios e imolação de minha vida pela Igreja, pelos sacerdotes e pela conversão e salvação das almas, ensinando-me a amar cada dia mais o Coração Imaculado de Maria e os mistérios do Rosário.

Por isso, no momento em que recebemos o pedido de oração pelo Lucas, ali mesmo na sala de recreação senti-me interiormente comovida e rezei: “Bem que vocês poderiam fazer este milagre para esta criança!”. Ao final do dia, estando eu nos afazeres da sacristia, ao colocar a chave no sacrário cujo chaveiro possuiu a medalha do Francisco e da Jacinta de um lado e do outro o Imaculado Coração de Maria e onde estavam também as relíquias dos Pastorinhos, rezei com firme confiança pedindo aos dois: “Francisco e Jacinta, curem o Lucas, por favor!”. E ali permaneci uns instantes diante de Jesus escondido e fazendo minha súplica ao Francisco e à Jacinta. No momento tive a certeza de que fui atendida. Foi uma oração simples, breve, mas diferente. Uma firme confiança em Deus me fazia crer que o céu havia ouvido minha oração. Não houve nenhum sinal concreto que me deu essa certeza mas sim uma moção interior me dizia que o Lucas estava bem. Na celebração da Eucaristia pedi às minhas Irmãs para rezarem também por essa intenção. E por Bondade de Deus e intercessão dos Santos, o milagre aconteceu. No dia seguinte, sábado, dia dedicado a Nossa Senhora, Lucas acordou do coma induzido, totalmente lúcido e sem nenhuma sequela o que surpreendeu os médicos e a todos nós.

Duas crianças curaram uma criança! A Misericórdia de Deus quis agir e salvar por intercessão de dois pequenos grandes Santos, hoje reconhecidos como tais pela Igreja, onde do céu continuam a interceder por todos nós, pelos sofrimentos da humanidade, pela santificação das almas conduzindo-as por Maria até Jesus.

Gosto tanto de Deus!”, exclamava Francisco. E a Jacinta : “Não sei como é! Sinto a Nosso Senhor dentro em mim. Compreendo o que me diz e não O vejo nem oiço; mas é tão bom estar com Ele!”. É paradoxal como duas crianças podem conduzir-nos, nós que nos consideramos grandes, no caminho da fé e da santidade. Mas esse é o agir de Deus que nos surpreende com a sua grandeza manifestada nos simples e pequenos.

O que mais me chamou a atenção neste milagre, que foi o milagre para a canonização, é que tenha ocorrido num Carmelo. Parece-me que tudo está perfeitamente entrelaçado e bem escrito por Deus. Os Pastorinhos na sexta aparição de Nossa Senhora em Fátima, no milagre do Sol, viram também Nossa Senhora do Carmo, manifestando já um prelúdio da vocação de Lúcia que se tornou monja Carmelita no Carmelo de Coimbra. Isso manifesta o estreito vínculo entre Fátima e o Carmelo que a meu ver possui uma missão especial dentro da mensagem de Fátima, sendo sinal profético de oração, comunhão com Deus e zelo apostólico pela salvação das almas.

O milagre do Lucas que levou à canonização dos Pastorinhos nos dá a entender que precisamos continuar a missão de Lúcia no anúncio da mensagem de Fátima, dos pedidos de Nossa Senhora, dentro da vivência do nosso carisma e do próprio Evangelho. Assim é que elevamos o nosso “Magnifica” aos céus pelos sinais e obras que Ele realiza e que se tornam para todos nós hoje, um impulso para buscarmos com maior fervor a santidade para assim podermos cantar um dia com os Santos Francisco e Jacinta e todos os Santos Carmelitas as Misericórdias de Deus, no céu.

31 de Maio de 2017, Festa da Visitação de Nossa Senhora

Carmelo “Nossa Senhora do Carmo”, Campo Mourão, Paraná, Brasil

Irmã Teresa Margarida do Divino Coração, OCD

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São Francisco Marto e Santa Jacinta Marto – 20 de Fevereiro

No dia 20 de Fevereiro celebra-se na Diocese de Leiria-Fátima a Festa de São Francisco Marto e de Santa Jacinta Marto. Para que fossem declarados “santos” em 13 de Maio de 2017, em Fátima, pelo Papa Francisco, foi determinante o milagre da cura do menino Lucas, natural de Juranda, município da Diocese de Campo Mourão, no estado brasileiro do Paraná, por intermédio de São Francisco e Santa Jacinta Marto. Publicamos a seguir o testemunho do Sr. João Baptista, pai do menino Lucas, que a nosso pedido nos enviou em 2017 este pequeno escrito que agora publicamos. Este testemunho foi já publicado na revista “Família Carmelita”, nº 77 de 2017, da Ordem do Carmo em Portugal, onde se encontra também o testemunho da Irmã Teresa Margarida do Divino Coração, Carmelita Descalça, do Carmelo “Nossa Senhora do Carmo”, em Campo Mourão.

Testemunho de João Batista, Pai do Lucas

Meu nome é João Batista, sou Pai do Lucas, a criança que recebeu o milagre por intercessão dos Pastorinhos Francisco e Jacinta Marto (foto: Lucas, irmã e pais). Meu filho, quando tinha cinco anos de idade, no dia 03 de março de 2013, sofreu um acidente após queda de 6 metros da janela da casa de meus pais, sofrendo fratura craniana grave com perda de tecido celebral. Seu estado era gravíssimo e os médicos deram-lhes poucas esperanças de sobrevivência. Começamos a rezar a Jesus e a Nossa Senhora de Fátima, a quem temos muita devoção. Amigos ligaram para o Carmelo de Campo Mourão, pedindo às irmãs que rezassem pelo meu filho. Mas foi num segundo telefonema, quatro dias depois do acidente, que o pedido foi passado à comunidade onde uma das irmãs, muito devota dos pastorinhos, acorreu para as relíquias dos Beatos Francisco e Jacinta, que estavam junto do Sacrário, e sentiu esse impulso de oração: “Pastorinhos, salvem este menino, que é uma criança como vocês, por favor.” Na madrugada de sexta para sábado, 09 de março, seis dias depois do acidente, meu filho Lucas acordou bem, e começou a falar, perguntando pela irmãzinha. No dia 11 saiu da UTI, e no dia 15 teve alta. Uma cura para a qual os médicos, mesmo os não-crentes, não conseguem encontrar explicação. Lucas ficou completamente bem, sem nenhum sintoma ou sequela: O que o Lucas era antes do acidente ele o é agora: sua inteligência, seu caráter, é tudo igual.

Um mês depois, no dia 03 de abril fomos até o mosteiro das monjas carmelitas de Campo Mourão, cidade bem próxima a Juranda onde vivemos. Fomos conhecer as irmãs que rezaram pelo Lucas aos Pastorinhos e agradecer a graça recebida. Irmã Teresa se tornou madrinha de nossos filhos, Lucas e Eduarda, que agora criaram grande vínculo com o Carmelo por fazer então parte da nossa história e da história de Fátima. Neste dia, Lucas entrou na clausura e saiu correndo pelo claustro como se nunca tivesse sofrido acidente algum e a irmã Teresa, levou-o à capela e rezou com ele agradecendo a graça recebida. Sentimos, minha Esposa Lucila Yuri e eu assim como toda a minha família, imensa alegria pelo milagre que levou os Pastorinhos para canonização, por terem salvo a vida de meu filho e por termos agora duas crianças que no céu continuam a interceder por nós junto a Jesus e Nossa Senhora.

Deus seja louvado por tudo!

João Batista e Familia

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6º Domingo do Tempo Comum – Ano C

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas (Lc 6,17.20-26)

Naquele tempo, Jesus desceu do monte na companhia dos Apóstolos e deteve-se num sítio plano, com numerosos discípulos e uma grande multidão de toda a Judeia, de Jerusalém e do litoral de Tiro e Sidónia. Erguendo então Ele os seus olhos para os seus discípulos, dizia: «Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus. Bem-aventurados vós, que agora tendes fome, porque sereis saciados. Bem-aventurados vós, que agora chorais, porque haveis de rir. Bem-aventurados sois, quando os homens vos odiarem, quando vos excluírem, vos insultarem e rejeitarem o vosso nome como mau, por causa do Filho do homem. Alegrai-vos e exultai nesse dia, porque é grande no Céu a vossa recompensa. Era assim que os seus pais tratavam os profetas. Mas ai de vós, os ricos, porque já recebestes a vossa consolação. Ai de vós, os que agora estais fartos, porque haveis de ter fome. Ai de vós, os que agora rides, porque haveis de vos lamentar e chorar. Ai de vós, quando todos os homens vos elogiarem. Era assim que os seus pais tratavam os falsos profetas».

Reflexão

Conta-nos São Lucas que Jesus saiu para a montanha para orar, e passou a noite inteira em oração. O Evangelho de Lucas recorda-nos que Jesus reza sempre nos momentos importantes da sua missão. Quando amanheceu, continua São Lucas, Jesus chamou os discípulos e escolheu “Doze” a quem chamou Apóstolos, seguindo-se logo a lista dos seus nomes (Lucas 6,13-16). Notemos que o Apóstolo é o enviado autorizado, que fala em nome de quem o envia. Não está autorizado a dizer palavras suas ou a expressar a sua opinião. Fica totalmente vinculado àquele que o envia. A primeira nota que o caracteriza é a fidelidade.

Depois tendo descido com eles, ficou de pé num lugar plano, e um grupo numeroso dos seus discípulos e uma multidão numerosa do povo de toda a Judeia e de Jerusalém e do litoral de Tiro e de Sídon, que tinham vindo para o escutar e fazer-se curar das suas doenças. E aqueles que eram atormentados por espíritos impuros eram curados, e toda a multidão procurava tocá-lo, porque uma força saía dele e curava todos.

Então, Jesus, de pé, e “tendo levantado os olhos” como um profeta, declarou de forma directa e incisiva, bem-aventurados por Deus os POBRES, os FAMINTOS de agora, os que CHORAM agora, os REJEITADOS ou DESCARTADOS de agora. Lucas é mais radical e directo do que Mateus. Às quatro bem-aventuranças junta, em contraponto, quatro mal-aventuranças, declarando malditos por Deus os RICOS de agora, os FARTOS de agora, os que RIEM agora, os que RECEBEM APLAUSOS agora. As mal-aventuranças são introduzidas por um “Ai”, fórmula técnica para introduzir anúncios de desgraça no discurso profético.

As bem-aventuranças de Lucas identificam a condição social dos seus destinatários, os discípulos de Jesus: eles são pobres. São pessoas desprotegidas, exploradas, sem voz, vítimas da injustiça, privadas dos seus direitos e da sua dignidade pela arbitrariedade dos poderosos. Por isso, têm fome, choram, são rejeitadas e até perseguidas.

Lucas esclarecerá mais à frente, quando for contada a história do RICO FARTO e do POBRE LÁZARO (16,19-31), que os FARTOS não são demovidos pelos profetas nem tão-pouco por um morto que ressuscite! E esta parábola do homem Rico e do pobre Lázaro, que escutaremos no 26º Domingo, é o melhor comentário ao texto das bem-aventuranças e mal-aventuranças de hoje.

António Couto (texto sintetizado e adaptado)

Palavra para o caminho

Os pobres compreendem Jesus. Não são felizes por causa da sua pobreza. A sua miséria não é um estado invejável nem um ideal. Jesus chama-os de felizes porque Deus está do lado deles. O sofrimento deles não durará para sempre. Deus far-lhes-á justiça.

Jesus é realista. Sabe, muito bem, que as suas palavras não significam, agora mesmo, o final da fome e da miséria dos pobres. Porém, o mundo tem que saber que eles são os filhos predilectos de Deus, e isto confere à sua dignidade uma seriedade absoluta. A sua vida é sagrada.

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5º Domingo do Tempo Comum – Ano C

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas ( Lc 5, 1-11)

Naquele tempo, estava a multidão aglomerada em volta de Jesus, para ouvir a palavra de Deus. Ele encontrava-Se na margem do lago de Genesaré e viu dois barcos estacionados no lago. Os pescadores tinham deixado os barcos e estavam a lavar as redes. Jesus subiu para um barco, que era de Simão, e pediu-lhe que se afastasse um pouco da terra. Depois sentou-Se e do barco pôs-Se a ensinar a multidão. Quando acabou de falar, disse a Simão: «Faz-te ao largo e lançai as redes para a pesca». Respondeu-Lhe Simão: «Mestre, andámos na faina toda a noite e não apanhámos nada. Mas, já que o dizes, lançarei as redes». Eles assim fizeram e apanharam tão grande quantidade de peixes que as redes começavam a romper-se. Fizeram sinal aos companheiros que estavam no outro barco, para os virem ajudar; eles vieram e encheram ambos os barcos, de tal modo que quase se afundavam. Ao ver o sucedido, Simão Pedro lançou-se aos pés de Jesus e disse-Lhe: «Senhor, afasta-Te de mim, que sou um homem pecador». Na verdade, o temor tinha-se apoderado dele e de todos os seus companheiros, por causa da pesca realizada. Isto mesmo sucedeu a Tiago e a João, filhos de Zebedeu, que eram companheiros de Simão. Jesus disse a Simão: «Não temas. Daqui em diante serás pescador de homens». Tendo conduzido os barcos para terra, eles deixaram tudo e seguiram Jesus. 

Reflexão

Diz-nos o texto deste Evangelho que certo dia Jesus estava na margem do Lago de Genesaré e a multidão estava aglomerada à sua volta “para ouvir a Palavra de Deus”. A Palavra de Deus era realmente “Boa Notícia”. Nenhuma palavra humana, por mais eloquente ou edificante que seja, pode igualar-se à Palavra de Deus: “A Igreja sempre venerou as Sagradas Escrituras da mesma forma como o próprio Corpo do Senhor” (Dei Verbum, 21).

Terminada a pregação, Jesus pede a Simão que avance para águas mais profundas e lance as redes. Como é tentador para nós – a Igreja, as comunidades, os indivíduos – ficarmos seguros nas águas tranquilas junto à margem que não apresentam perigo mas não dão frutos! Se quisermos ser realmente “pescadores de homens” teremos que enfrentar as águas profundas da vida, com todas as incertezas e inseguranças que isso acarreta.

Simão não se mostra muito entusiasmado diante do convite do Senhor, pois ele, pescador experimentado, sabia muito bem que não se lançavam as redes naquela hora do dia. Parece loucura. Assim, muitas vezes, é hoje o que Jesus nos pede parece loucura aos olhos da sociedade. Pois, como diz São Paulo “a loucura de Deus é mais sábia do que os homens, e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (1Cor 1, 25). Mesmo assim, Pedro é um homem de fé, seduzido por Jesus. As suas palavras têm, para ele, mais força do que a sua própria experiência: “Mas, já que o dizes, lançarei as redes”.

A pesca é abundantíssima. Pedro reage: “Senhor, afasta-te de mim, porque sou um homem pecador!”. Como a luz cria a sombra, a proximidade da santidade põe em relevo o pecado humano. Mas, Jesus não atende o pedido de Pedro: porque somos pecadores é que Ele veio ter connosco! Diz a Pedro para não ter medo, nem da sua fraqueza, nem da sua natureza pecaminosa, nem das suas falhas. Jesus chama-o tal como ele é e confia-lhe uma missão: “Daqui em diante serás pescador de homens”. Jesus ama-nos, não como gostaríamos de ser, mas como somos de facto. Somos chamados a segui-Lo como somos. O seguimento de Jesus a que Pedro e nós somos convidados, não se destina a aprender uma doutrina ou uma ideia, mas a seguir de perto uma Pessoa, Jesus de Nazaré, e a sua maneira concreta de viver. É a adesão a uma Pessoa que está em causa para Pedro e para nós.

Palavra para o caminho

Os insucessos e as dificuldades não induzam ao desânimo: nós temos o dever de lançar as redes com fé, e o Senhor faz o resto (Bento XVI).

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Sem coragem perdemos a identidade

Não podemos viver sem coragem! Sem coragem ninguém sairia de casa, ninguém entraria num avião, ninguém ligaria um aquecedor. Tudo pode rebentar! Mas a coragem maior é aquela de que precisamos para sermos coerentes connosco próprios e com os nossos valores, sobretudo quando todos os atacam ou se riem deles. Sem coragem não há personalidade nem felicidade!

Vasco P. Magalhães, sj

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Felizes

Felizes: é a palavra com que Jesus começa a sua pregação no Evangelho de Mateus. E é o refrão que Ele repete hoje, como se quisesse antes de mais nada fixar no nosso coração uma mensagem basilar: se estás com Jesus, se gostas – como os discípulos de então – de escutar a sua palavra, se procuras vivê-la cada dia, és feliz. Não serás feliz, mas és feliz: aqui está a primeira realidade da vida cristã. Esta não aparece como uma lista de prescrições exteriores para se cumprir, nem como um conjunto complexo de doutrinas para se conhecer. Primariamente, não é isso, mas saber que somos, em Jesus, filhos amados do Pai. É viver a alegria desta bem-aventurança, é compreender a vida como uma história de amor: a história do amor fiel de Deus, que nunca nos abandona e quer fazer comunhão connosco sempre. Eis o motivo da nossa alegria, uma alegria que nenhuma pessoa no mundo nem nenhuma circunstância da vida pode tirar-nos. É uma alegria que dá paz mesmo na dor, que já agora nos faz saborear a felicidade que nos espera para sempre. Amados irmãos e irmãs, na alegria de vos encontrar, esta é a palavra que vim dizer-vos: Felizes!

Embora Jesus designe felizes os seus discípulos, todavia não deixa de surpreender o motivo de cada uma das Bem-aventuranças. Neles, vemos uma inversão do pensar comum, segundo o qual são felizes os ricos, os poderosos, aqueles que têm sucesso e são aclamados pela multidão. Para Jesus, ao contrário, felizes são os pobres, os mansos, os que permanecem justos, mesmo à custa de fazerem má figura, os perseguidos. Quem tem razão: Jesus ou o mundo? Para compreender, vejamos como viveu Jesus: pobre de coisas e rico de amor, curou muitas vidas, mas não poupou a sua. Veio para servir e não para ser servido; ensinou que não é grande quem tem, mas quem dá. Justo e manso, não opôs resistência e deixou-Se condenar injustamente. E, assim, Jesus trouxe o amor de Deus ao mundo. Só assim derrotou a morte, o pecado, o medo e o próprio mundanismo: unicamente com a força do amor divino. (…)

Amados irmãos e irmãs, gostaria ainda de vos dizer que viver as Bem-aventuranças não requer gestos fulgurantes. Olhemos para Jesus: não deixou nada escrito, não construiu nada de imponente. E, quando nos disse como viver, não pediu para erguermos grandes obras ou nos salientarmos realizando feitos extraordinários. Uma única obra de arte, possível a todos, nos pediu para realizarmos: a da nossa vida. Então as Bem-aventuranças são um mapa de vida: não pedem ações sobre-humanas, mas a imitação de Jesus na vida de cada dia. Convidam-nos a manter puro o coração, a praticar a mansidão e a justiça venha o que vier, a ser misericordiosos com todos, a viver a aflição unidos a Deus. É a santidade da vida diária, que não precisa de milagres nem de sinais extraordinários. As Bem-aventuranças não são para super-homens, mas para quem enfrenta os desafios e provações de cada dia. Quem as vive à maneira de Jesus torna puro o mundo. É como uma árvore que, mesmo em terra árida, diariamente absorve ar poluído e restitui oxigénio. Faço votos de que sejais assim, bem enraizados em Cristo, em Jesus e prontos a fazer bem a quem está perto de vós. Que as vossas comunidades sejam oásis de paz.

Excerto da Homilia do Papa Francisco,  Zayed Sports City (Abu Dhabi) , 5 de Fevereiro de 2019

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Domingo: a Páscoa semanal

Por tradição apostólica, que tem a sua origem no próprio dia da ressurreição de Cristo, a Igreja celebra o mistério pascal todos os oito dias, no dia que justamente se chama dia do Senhor ou Domingo. Neste dia devem os fiéis reunir-se para ouvir a palavra de Deus e participar na Eucaristia, e assim recordar a paixão, ressurreição e glória do Senhor Jesus e dar graças a Deus, que os fez renascer para uma esperança viva pela ressurreição de Jesus Cristo de entre os mortos. Por isso o Domingo é o principal dia de festa que se deve propor e inculcar à piedade dos fiéis, de modo que seja também o dia da alegria e do repouso.

Constituição Sacrosanctum Concilium, nº 8

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Quando um povo erra: “Nenhum profeta é bem recebido na sua pátria”

É muito frequente, entre nós, atribuir ao “povo” as posturas e atitudes que cada um trata de defender. Facilmente, gritam-se slogans, adoptam-se decisões e realizam-se acções em nome de um povo que, supostamente, as defende. Ninguém se atreve a elevar uma voz que possa parecer contrária ao povo. Deve-se deixar claro que a nossa palavra é expressão evidente da vontade do povo. Tudo acontece como se o apelo ao povo fosse o critério definitivo para julgar a validade e o carácter justo do que se propõe. 

Este desejo de defender o que o povo quer, deve ser, sem dúvida, a atitude de todo o homem que busca o bem comum diante dos interesses egoístas e exclusivamente partidários.

Porém, seria um equívoco pensar que a única maneira de amar um povo seja identificar-nos com tudo o que esse povo diz e aprovar, de modo acrítico, tudo o que esse povo faz. Um povo, pelo facto de sê-lo, não é automaticamente infalível. Os povos também erram. Os povos também são injustos.

É nesses momentos, justamente, que esse povo necessita de homens que lhe digam, com sinceridade e coragem, os seus erros e os seu pecado. Homens que, movidos pelo seu amor leal ao povo, se atrevem a levantar uma voz, às vezes, irritante e discordante, porém uma voz que esse povo necessita de escutar para não se desumanizar. 

Um povo que não tenha, em cada momento, filhos que se atrevam a denunciar-lhe os seus erros e injustiças, é um povo que corre o risco de ir “perdendo a sua consciência”.

Quem sabe, o maior pecado de um povo seja abafar a voz dos seus profetas, pessoas, às vezes, muito simples, porém que conservam como ninguém o melhor e o mais humano de um povo. E quando um povo reduz ao silêncio estes homens e mulheres, empobrece-se e fica sem luz para caminhar em direcção a um futuro mais humano.

É triste constatar que o refrão judaico continua a ser realidade: “Nenhum profeta é bem recebido na sua pátria”. E as pessoas continuam a ignorar os seus profetas, como as de Nazaré que expulsaram, certo dia, Jesus, o melhor e o mais necessário para o seu povo.

José Antonio Pagola

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Chamados a sermos profetas como Jesus o foi

Este evangelho (do 4º Domingo do Tempo Comum) mostra-nos que o ministério público de Jesus começa com uma rejeição e uma ameaça de morte, paradoxalmente, por parte dos seus próprios concidadãos. Ao viver a missão a Ele confiada pelo Pai, Jesus sabe que deve enfrentar o cansaço, a rejeição, a perseguição e a derrota. Um preço que, ontem como hoje, a autêntica profecia é chamada a pagar. A dura rejeição não desencoraja Jesus, nem cessa o caminho e a fecundidade da sua acção profética. Ele segue adiante pelo seu caminho, confiando no amor do Pai.

Também hoje, o mundo precisa de ver profetas nos discípulos do Senhor, isto é, pessoas corajosas e perseverantes ao responder à vocação cristã. Pessoas que seguem o impulso do Espírito Santo, que as envia a anunciar esperança e salvação aos pobres e aos excluídos; pessoas que seguem a lógica da fé e não dos milagres; pessoas dedicadas ao serviço de todos, sem privilégios ou exclusões. Pessoas que se abrem a acolher em si mesmas a vontade do Pai e se comprometem a testemunhá-la fielmente aos outros.

Papa Francisco, Angelus, 3 de Fevereiro, 2019

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4º Domingo do Tempo Comum – Ano C

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas (Lc 4, 21-30)

Naquele tempo, Jesus começou a falar na sinagoga de Nazaré, dizendo: «Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem da Escritura que acabais de ouvir». Todos davam testemunho em seu favor e se admiravam das palavras cheias de graça que saíam da sua boca. E perguntavam: «Não é este o filho de José?». Jesus disse-lhes: «Por certo Me citareis o ditado: ‘Médico, cura-te a ti mesmo’. Faz também aqui na tua terra o que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaum». E acrescentou: «Em verdade vos digo: Nenhum profeta é bem recebido na sua terra. Em verdade vos digo que havia em Israel muitas viúvas no tempo do profeta Elias, quando o céu se fechou durante três anos e seis meses e houve uma grande fome em toda a terra; contudo, Elias não foi enviado a nenhuma delas, mas a uma viúva de Sarepta, na região da Sidónia. Havia em Israel muitos leprosos no tempo do profeta Eliseu; contudo, nenhum deles foi curado, mas apenas o sírio Naamã». Ao ouvirem estas palavras, todos ficaram furiosos na sinagoga. Levantaram-se, expulsaram Jesus da cidade e levaram-n’O até ao cimo da colina sobre a qual a cidade estava edificada, a fim de O precipitarem dali abaixo. Mas Jesus, passando pelo meio deles, seguiu o seu caminho. 

Reflexão

O texto do Evangelho de Lucas deste 4º Domingo do Tempo Comum, Ano C, retoma e continua o “discurso programático” de Jesus na sinagoga de Nazaré, relatado no Domingo anterior. Não é fácil entender a reacção dos nazarenos que rápida e inesperadamente passam de uma atitude de admiração para a da fúria rejeitadora relativamente a Jesus.

Inicialmente houve uma aprovação de Jesus e estavam admirados com as palavras cheias de encanto que saíam da sua boca de modo que “Estavam fixos nele os olhos de todos, na sinagoga”. O que Jesus comunicou brotava da sua intimidade com o Pai, da sua espiritualidade profunda, da sua capacidade de compaixão, da coerência entre o que dizia e fazia. Aqui há um desafio para todos nós: deixar que sejamos tomados pela Palavra de Deus, de tal maneira que a nossa palavra não seja mais a nossa, mas, a manifestação do Espírito que habita em nós.

Jesus é rejeitado por ser considerado o “filho de José”, um simples carpinteiro de Nazaré. Quantas vezes, hoje, acontece o mesmo entre nós, nas nossas comunidades cristãs, nas quais cristãos rejeitam outros cristãos que assumem generosa e dedicadamente serviços na comunidade em benefício de todos e são criticados e rejeitados por outros cristãos? Há gente que sente prazer em destruir quem se disponibiliza com sacrifício e prejuízo da própria vida pessoal, familiar e profissional para servir a comunidade assumindo responsabilidades de liderança!

Outro motivo que explica a reacção dos conterrâneos de Jesus tem a ver com o facto de Jesus desafiar os preconceitos e comodismo da comunidade nazarena, ao usar os exemplos da acção de Deus em favor de um estrangeiro (o sírio Naamã) e uma estrangeira (a viúva de Sarepta) para demonstrar que por vezes há mais fé fora de Israel. Jesus era um profeta e o profeta sempre incomoda, pois desafia-nos a sair das nossas fronteiras e a olhar o mundo como Deus o vê. É difícil que alguém goste de ser incomodado e desinstalado.

Jesus dá-nos o exemplo de como enfrentar estes problemas, diante das críticas e da rejeição, quando realmente tentamos ser coerentes como ele: Jesus “seguiu o seu caminho”. É também esta a atitude que o cristão deve tomar apesar das críticas, da não aceitação, da perseguição, das palavras maldosas, depreciativas e irónicas… O que aconteceu em Nazaré causou sofrimento a Jesus e é uma amostra do que viria a ser toda a sua vida, mas não se deixou abater nem desistiu porque a sua convicção não se baseava na opinião, aprovação e aceitação dos outros, mas no cumprimento da vontade do Pai a qual era o seu alimento. Faz-nos bem reter o que diz a Carta aos Hebreus: “Considerai, pois, aquele que sofreu tal oposição por parte dos pecadores, para que não desfaleçais, perdendo o ânimo”(Hb 12, 3).

Palavra para o caminho

Entre Jesus e os seus conterrâneos deu-se uma ruptura. “Por que motivo quis Jesus provocar esta ruptura? No início o povo admirava-O, e talvez tivesse podido obter um certo consenso… Mas é precisamente este o ponto: Jesus não veio para procurar o consenso dos homens, mas — como dirá a Pilatos no fim — para «dar testemunho da verdade» (Jo 18, 37). O verdadeiro profeta não obedece a outros mas só a Deus e põe-se ao serviço da verdade, pronto a pagar pessoalmente” (Bento XVI).

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