Domingo do Baptismo do Senhor

Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência (Mt 3,17)

Neste Domingo da Festa do Baptismo do Senhor o Evangelho proclamado na Eucaristia é de São Mateus (3,13-17). O evangelista descreve o diálogo entre Jesus, que pede o Baptismo, e João Baptista, que quer negar-se a fazê-lo e observa: “Eu é que tenho necessidade de ser baptizado por ti e tu é que vens ter comigo?”.

Esta decisão de Jesus surpreende o Baptista pois o Messias não precisa de ser purificado visto ser ele que purifica. Mas Deus é o Santo, e os seus caminhos não são os nossos, e Jesus é o Caminho de Deus, um caminho imprevisível. Deus é o Deus das surpresas.

João havia declarado que entre ele e Jesus existia uma distância abissal, insuperável. “Eu não sou digno nem ao menos de lhe tirar as sandálias” (Mt 3,11). Mas o Filho de Deus veio justamente para preencher a distância entre o homem e Deus. Por isso, Jesus diz a João: “Deixa por agora; convém que assim cumpramos toda a justiça”. O Messias pede para ser baptizado, a fim de que se cumpra toda a justiça, isto é, se realize o desígnio do Pai que passa pelo caminho da obediência filial e da solidariedade com o homem frágil e pecador. É o caminho da humildade e da plena proximidade de Deus relativamente aos seus filhos. Também o profeta Isaías anuncia a justiça do Servo de Deus, que realiza a sua missão no mundo com um estilo contrário ao espírito mundano: “Ele não clamará, não levantará a voz, não fará ouvir a sua voz nas ruas, não quebrará a cana fendida, nem apagará a torcida que ainda fumega” (42,2-3). É a atitude da mansidão, da simplicidade, do respeito, da moderação e do não fazer alarde, que se requer também hoje aos discípulos do Senhor. Na acção missionária a comunidade cristã é chamada a ir ao encontro dos outros sempre propondo e não impondo, dando testemunho, partilhando a vida concreta das pessoas.

Assim que Jesus foi baptizado no rio Jordão, os céus abriram-se e desceu sobre ele o Espírito Santo como uma pomba, enquanto do alto soou uma voz que dizia: “Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência” (Mt 3,17).

Na festa do Baptismo de Jesus redescobramos o nosso Baptismo. Como Jesus é o Filho amado do Pai, também nós renascidos da água e do Espírito Santo sabemos ser filhos amados, (o Pai a todos ama), objecto da complacência de Deus, irmãos de tantos outros irmãos, investidos de uma grande missão para testemunhar e anunciar a todos os homens o amor sem limites do Pai.

Esta festa do Baptismo de Jesus lembra-nos o nosso Baptismo. Nós também renascemos no Baptismo. No Baptismo, o Espírito Santo veio permanecer em nós. É por isso que é importante saber qual é a data do meu Baptismo.

Papa Francisco, Angelus (resumo), 12 de Janeiro, 2020

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A Eucaristia é mesmo o único necessário

A participação na Eucaristia é mesmo o único necessário, sem ela não há vida cristã. Porque não é cumprir uma obrigação legal, mas atender ao dever de me alimentar. Alimentar-me do espírito de perdão, de justiça e de verdade. Onde iria eu buscá-lo? Aliás, ir à Eucaristia é treinar-me para viver eucaristicamente, o que, como a própria palavra indica, significa uma entrega alegre, gratuita e agradecida. Ou seja, uma vida cristã.

Vasco P. Magalhães, sj

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Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus

Nascido de uma mulher

«Quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher» (Gal 4, 4). Nascido de uma mulher: assim veio Jesus. Não apareceu adulto no mundo, mas, como disse o Evangelho, foi «concebido no seio materno» (Lc 2, 21): aqui, dia após dia, mês após mês, assumiu a nossa humanidade. No seio duma mulher, Deus e a humanidade uniram-se para nunca mais se deixarem: mesmo agora, no Céu, Jesus vive na carne que tomou no seio de sua mãe. Em Deus, há a nossa carne humana!

No primeiro dia do ano, celebramos estas núpcias entre Deus e o homem, inauguradas no seio de uma mulher. Em Deus, estará para sempre a nossa humanidade, e Maria será a Mãe de Deus para sempre. É mulher e mãe: isto é o essencial. D’Ela, mulher, surgiu a salvação e, assim, não há salvação sem a mulher. N’Ela, Deus uniu-Se a nós e, se queremos unir-nos a Ele, temos de passar pela mesma estrada: por Maria, mulher e mãe. Por isso, começamos o ano sob o signo de Nossa Senhora, mulher que teceu a humanidade de Deus. Se quisermos tecer de humanidade a trama dos nossos dias, devemos recomeçar da mulher.

Nascido de uma mulher. O renascimento da humanidade começou pela mulher. As mulheres são fontes de vida; e, no entanto, são continuamente ofendidas, espancadas, violentadas, induzidas a prostituir-se e a suprimir a vida que trazem no seio. Toda a violência infligida à mulher é profanação de Deus, nascido de uma mulher. A salvação chegou à humanidade, a partir do corpo de uma mulher: pelo modo como tratamos o corpo da mulher, vê-se o nosso nível de humanidade. Quantas vezes o corpo da mulher acaba sacrificado nos altares profanos da publicidade, do lucro, da pornografia, explorado como se usa uma superfície qualquer. Há que libertá-lo do consumismo, deve ser respeitado e honrado; é a carne mais nobre do mundo: concebeu e deu à luz o Amor que nos salvou! Ainda hoje a maternidade é humilhada, porque o único crescimento que interessa é o económico. Há mães que, na busca desesperada de dar um futuro melhor ao fruto do seu seio, se arriscam a viagens impraticáveis e acabam julgadas como número excedente por pessoas que têm a barriga cheia, mas de coisas, e o coração vazio de amor.

Nascido de uma mulher. Segundo a narração da Bíblia, no cume da criação surge a mulher, quase como compêndio de toda a obra criada. De facto, encerra em si mesma a finalidade da própria criação: a geração e a conservação da vida, a comunhão com tudo, a solicitude por tudo. É o que faz Nossa Senhora no Evangelho de hoje. «Maria – diz o texto – conservava todas estas coisas, ponderando-as no seu coração» (Lc 2, 19). Conservava tudo: a alegria pelo nascimento de Jesus e a tristeza pela hospitalidade negada em Belém; o amor de José e a admiração dos pastores; as promessas e as incertezas quanto ao futuro. Interessava-se por tudo e, no seu coração, tudo reajustava, incluindo as adversidades. Pois, no seu coração, tudo organizava com amor e confiava tudo a Deus.

No Evangelho, esta actividade de Maria reaparece uma segunda vez: na adolescência de Jesus, diz-se que a «sua mãe guardava todas estas coisas no seu coração» (Lc 2, 51). Esta repetição faz-nos compreender que o gesto de guardar no coração não era simplesmente um ato bom que Nossa Senhora realizava de vez em quando, mas é um hábito d’Ela. É próprio da mulher tomar a peito a vida. A mulher mostra que o sentido da vida não é produzir coisas em continuação, mas tomar a peito as coisas que existem. Só vê bem quem olha com o coração, porque sabe «ver dentro»: a pessoa independentemente dos seus erros, o irmão independentemente das suas fragilidades, a esperança nas dificuldades; vê Deus em tudo.

Ao começarmos um ano novo, interroguemo-nos: «Sei olhar com o coração? Sei olhar as pessoas, com o coração? Tenho a peito as pessoas com quem vivo, ou arruíno-as com as bisbilhotices? E sobretudo, no centro do coração, tenho o Senhor ou outros valores, outros interesses, a minha promoção, as riquezas, o poder?» Somente se tivermos a peito a vida é que saberemos cuidar dela e vencer a indiferença que nos rodeia. Peçamos esta graça: viver o ano com o desejo de ter a peito os outros, cuidar dos outros. E se queremos um mundo melhor, que seja casa de paz e não palco de guerra, tenhamos a peito a dignidade de cada mulher. Da mulher, nasceu o Príncipe da paz. A mulher é doadora e medianeira de paz, e deve ser plenamente associada aos seus processos decisores. Com efeito, quando é dada às mulheres a possibilidade de transmitir os seus dons, o mundo encontra-se mais unido e mais em paz. Por isso, uma conquista a favor da mulher é uma conquista em prol da humanidade inteira.

Nascido de uma mulher. Jesus, logo que nasceu, espelhou-Se nos olhos duma mulher, no rosto de sua Mãe. D’Ela recebeu as primeiras carícias, com Ela trocou os primeiros sorrisos. Com Ela, inaugurou a revolução da ternura; a Igreja, ao contemplar o Menino Jesus, é chamada a continuá-la. Pois também ela, como Maria, é mulher e mãe – a Igreja é mulher e mãe –, e encontra em Nossa Senhora os seus traços característicos. Vê-A imaculada e sente-se chamada a dizer «não» ao pecado e ao mundanismo. Vê-A fecunda e sente-se chamada a anunciar o Senhor, a gerá-Lo nas inúmeras vidas. Vê-A mãe e sente-se chamada a acolher cada homem como um filho.

Aproximando-se de Maria, a Igreja reencontra-se: encontra o seu centro, encontra a sua unidade. Ao contrário o diabo, inimigo da natureza humana, procura dividi-la, colocando em primeiro plano as diferenças, as ideologias, os pensamentos unilaterais e os partidos. Mas não compreenderemos a Igreja, se olharmos para ela a partir das estruturas, a partir dos programas e das tendências, das ideologias, da funcionalidade: entenderemos qualquer coisa, mas não o coração da Igreja. Porque a Igreja tem um coração de mãe. E nós, filhos, invocamos hoje a Mãe de Deus, que nos reúne como povo crente. Ó Mãe, gerai em nós a esperança, trazei-nos a unidade. Mulher da salvação, confiamo-Vos este ano, guardai-o no vosso coração. Nós Vos aclamamos: Santa Mãe de Deus. Todos juntos, de pé, aclamemos Nossa Senhora, a Santa Mãe de Deus: [repete com a assembleia] Santa Mãe de Deus, Santa Mãe de Deus, Santa Mãe de Deus!

Papa Francisco, Homilia da Missa da Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus, 1 de Janeiro, 2020

 

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Santa Maria, Mãe de Deus – 1 de Janeiro

Maria é o grande modelo de quem sabe escutar Deus, da pessoa fiel que foi capaz de captar o que Deus lhe pedia. É a cheia de graça, isto é, totalmente aberta a Deus, totalmente disponível para a missão que lhe é pedida. E por isso é bem-aventurada, feliz em plenitude.

Vasco P. Magalhães, sj

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Sagrada Família de Jesus, Maria e José

A Sagrada Família de Nazaré estava totalmente disponível para a vontade de Deus

Hoje celebramos a Festa da Sagrada Família de Nazaré. O termo “santo” coloca esta família no contexto da santidade, que é um dom de Deus, mas, ao mesmo tempo, é uma adesão livre e responsável ao plano de Deus. A Sagrada Família de Nazaré estava totalmente disponível para a vontade de Deus.

Surpreende-nos a docilidade de Maria à acção do Espírito Santo que lhe propões para que seja a mãe do Messias, quando ela estava prestes a concretizar o seu projecto de vida, isto é, casar com José. Mas quando percebe que Deus a chama para uma missão específica, ela não hesita em proclamar que é a sua “serva”. Jesus exaltará a sua grandeza não tanto pelo seu papel de mãe, mas pela sua obediência a Deus: “Bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus e a guardam!”. E quando ela não entende completamente os acontecimentos que a envolvem, Maria medita no silêncio e reflecte e adora a iniciativa divina. A sua presença ao pé da cruz consagra esta total disponibilidade.

No que diz respeito a José, o Evangelho não nos traz uma única palavra: ele não fala, mas age obedecendo. Ele é o homem do silêncio, o homem da obediência. A página do evangelho de hoje lembra três vezes essa obediência do justo José, referente à fuga para o Egipto e ao retorno à terra de Israel. Sob a orientação de Deus, representada pelo anjo, José foge com a sua família das ameaças de Herodes, salvando-a. Deste modo, a Sagrada Família solidariza-se com todas as famílias do mundo forçadas ao exílio, forçadas a abandonar as suas terras por causa da repressão, da violência, da guerra.

Finalmente, a terceira pessoa da Sagrada Família, Jesus. Ele é a vontade do Pai: nele, diz São Paulo, não havia “sim” e “não”, mas apenas “sim”. E isto manifestou-se em muitos momentos da sua vida terrena.

Maria, José, Jesus, a Sagrada Família de Nazaré, representa uma resposta em conjunto à vontade do Pai. Os três membros desta família ajudam-se uns aos outros a descobrir o projecto de Deus. Rezavam, trabalhavam, comunicavam. Devemos reaprender a dialogar em família. Esta é uma tarefa a ser realizada hoje, exactamente no dia da Sagrada Família. Que a Sagrada Família seja o modelo das nossas famílias, para que pais e filhos se apoiem mutuamente na vivência do Evangelho, fundamento da santidade da família.

Papa Francisco, Angelus (resumo), 29 de Dezembro, 2019

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Manifestou-se a graça de Deus

«Habitavam numa terra de sombras, mas uma luz brilhou sobre eles» (Is 9, 1). Esta profecia da Primeira Leitura realizou-se no Evangelho: de facto, enquanto os pastores velavam de noite nas suas terras, «a glória do Senhor refulgiu em volta deles» (Lc 2, 9). Na noite da terra, apareceu uma luz vinda do Céu. Que significa esta luz que se manifestou na escuridão? No-lo sugere o apóstolo Paulo quando diz: «Manifestou-se a graça de Deus». Nesta noite, a graça de Deus, «portadora de salvação para todos os homens» (Tt 2, 11), envolveu o mundo.

Mas, que é esta graça? É o amor divino, o amor que transforma a vida, renova a história, liberta do mal, infunde paz e alegria. Nesta noite, foi-nos mostrado o amor de Deus: é Jesus. Em Jesus, o Altíssimo fez-Se pequenino, para ser amado por nós. Em Jesus, Deus fez-Se Menino, para Se deixar abraçar por nós. Mas podemos ainda perguntar-nos: Porque é que São Paulo chama «graça» à vinda de Deus ao mundo? Para nos dizer que é completamente gratuita. Enquanto aqui, na terra, tudo parece seguir a lógica do dar para receber, Deus chega de graça. O seu amor ultrapassa qualquer possibilidade de negócio: nada fizemos para o merecer, e nunca poderemos retribuí-lo.

Manifestou-se a graça de Deus. Nesta noite, damo-nos conta de que, não sendo nós capazes da altura d’Ele, por amor nosso desceu à nossa pequenez; vivendo preocupados apenas com os nossos interesses, veio Ele habitar entre nós. O Natal lembra-nos que Deus continua a amar todo o homem, mesmo o pior. Hoje diz a mim, a ti, a cada um de nós: «Amo-te e sempre te amarei; és precioso aos meus olhos». Deus não te ama, porque pensas certo e te comportas bem; ama-te… e basta! O seu amor é incondicional, não depende de ti. Podes ter ideias erradas, podes tê-las combinado de todas as cores, mas o Senhor não desiste de te querer bem. Quantas vezes pensamos que Deus é bom, se formos bons; e castiga-nos, se formos maus; mas não é assim! Nos nossos pecados, continua a amar-nos. O seu amor não muda, não é melindroso; é fiel, é paciente. Eis o dom que encontramos no Natal: com maravilha, descobrimos que no Senhor está toda a gratuidade possível, toda a ternura possível. A sua glória não nos encandeia, nem a sua presença nos assusta. Nasce pobre de tudo, para nos conquistar com a riqueza do seu amor.

Manifestou-se a graça de Deus. Graça é sinónimo de beleza. Nesta noite, na beleza do amor de Deus redescobrimos também a nossa beleza, porque somos os amados de Deus. No bem e no mal, na saúde e na doença, felizes ou tristes, sempre aparecemos lindos a seus olhos: não pelo que fazemos, mas pelo que somos. Em nós, há uma beleza indelével, intangível; uma beleza incancelável, que é o núcleo do nosso ser. Deus no-lo recorda hoje, tomando amorosamente a nossa humanidade e assumindo-a, «desposando-a» para sempre.

A «grande alegria», anunciada aos pastores nesta noite, é verdadeiramente «para todo o povo». Naqueles pastores, que santos não eram certamente, estamos também nós, com as nossas fragilidades e fraquezas. Deus, tal como chamou a eles, chama a nós também, porque nos ama. E, nas noites da vida, diz-nos como a eles: «Não temais» (Lc 2, 10). Coragem, não percais a confiança nem a esperança; não penseis que amar seja tempo perdido! Nesta noite, o amor venceu o medo, manifestou-se uma nova esperança; a luz gentil de Deus venceu as trevas da arrogância humana. Humanidade, Deus ama-te e, por ti, fez-Se homem; já não estás sozinha.

Amados irmãos e irmãs, que fazer perante esta graça? Uma coisa só: acolher o dom. Antes que ir à procura de Deus, deixemo-nos procurar por Ele, que nos procura primeiro. Não partamos das nossas capacidades, mas da sua graça, porque é Ele, Jesus, o Salvador. Fixemos o olhar no Menino e deixemo-nos envolver pela sua ternura. As desculpas para não nos deixarmos amar por Ele, desapareceram: aquilo que está torto na vida, aquilo que não funciona na Igreja, aquilo que corre mal no mundo não poderá mais servir-nos de justificação. Passou a segundo plano, pois frente ao amor louco de Jesus, a um amor todo ele mansidão e proximidade, não há desculpas. E, assim, a questão no Natal é esta: «Deixo-me amar por Deus? Abandono-me ao seu amor que vem salvar-me?»

Um dom tão grande merece tanta gratidão! Acolher a graça é saber agradecer. Frequentemente, porém, as nossas vidas transcorrem alheias à gratidão. Hoje é o dia justo para nos aproximarmos do sacrário, do presépio, da manjedoura, e dizermos obrigado. Acolhamos o dom que é Jesus, para depois nos tornarmos dom como Jesus. Tornar-se dom é dar sentido à vida, sendo este o melhor modo para mudar o mundo: nós mudamos, a Igreja muda, a história muda, quando começamos a querer mudar, não os outros, mas a nós mesmos, fazendo da nossa vida um dom.

Assim no-lo mostra Jesus nesta noite: não mudou a História forçando alguém ou à força de palavras, mas com o dom da sua vida. Não esperou que nos tornássemos bons para nos amar, mas deu-Se gratuitamente a nós. Por nossa vez, não esperemos que o próximo se torne bom para lhe fazermos bem, que a Igreja seja perfeita para a amarmos, que os outros tenham consideração por nós para os servirmos. Comecemos nós. Isto é acolher o dom da graça. E a santidade consiste precisamente em preservar esta gratuidade.

Conta uma graciosa história que, no nascimento de Jesus, os pastores acorriam à gruta com vários dons. Cada um levava o que tinha, ora os frutos do seu trabalho, ora algo precioso. Mas, enquanto todos se prodigalizavam com generosidade, havia um pastor que não tinha nada. Era muito pobre, não tinha nada para oferecer. E enquanto todos se emulavam na apresentação dos seus dons, ele mantinha-se aparte, com vergonha. A dada altura, São José e Nossa Senhora sentiram dificuldade para receber todos os dons – eram tantos – , especialmente Maria que devia segurar nos braços o Menino. Então, vendo com as mãos vazias aquele pastor, pediu-lhe que se aproximasse e colocou-lhe Jesus nas mãos. Ao acolhê-Lo, aquele pastor deu-se conta de ter recebido aquilo que não merecia: ter nas mãos o maior dom da História. Olhou para as suas mãos, aquelas mãos que lhe pareciam sempre vazias: tornaram-se o berço de Deus. Sentiu-se amado e, superando a vergonha, começou a mostrar aos outros Jesus, porque não podia guardar para si o dom dos dons.

Querido irmão, querida irmã, se as tuas mãos te parecem vazias, se vês o teu coração pobre de amor, esta é a tua noite. Manifestou-se a graça de Deus, para resplandecer na tua vida. Acolhe-a e brilhará em ti a luz do Natal.

Papa Francisco, Homilia da Missa da noite de Natal, 24 de Dezembro, 2019

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Natal do Senhor – 25 de Dezembro

Hino

Cristo Jesus, ó Sol da Redenção, / À vossa luz se extingue todo o erro: / Acaba-se no mundo a solidão / Das almas em desterro.

Os Anjos cantam a Jesus nascido, / Adormecem na selva as feras más: / O universo repousa agradecido / Na alegria da paz.

Senhor do mundo, Vós sois o Menino / Da Virgem pura, Mãe Imaculada: / Cai das alturas um luar divino / Sobre a terra admirada.

Nossa Senhora Vos embala e canta, / No coração guardando quanto escuta: / O mistério daquela noite santa / No silêncio da gruta.

Louve o Senhor a natureza humana / Que no mundo jamais subira tanto; / Glória ao Pai, glória ao Filho, glória, hossana / Ao Espírito Santo.

Leitura breve – Hebr 1, 1-2

Muitas vezes e de muitos modos falou Deus antigamente aos nossos pais pelos Profetas. Nestes dias, que são os últimos, falou-nos por seu Filho, a quem fez herdeiro de todas as coisas e pelo qual criou o universo.

Preces 

Celebremos dignamente o Verbo eterno de Deus, que Se fez homem por nosso amor, e aclamemo-l’O com alegria, dizendo: Alegre-se a terra com o vosso nascimento.

Cristo, Verbo eterno, que descendo à terra a enchestes de alegria, alegrai o nosso coração com a graça da vossa visita. Alegre-se a terra com o vosso nascimento.

Rei do Céu e da terra, que enviastes os Anjos a anunciar a paz aos homens, conservai em paz os dias da nossa vida. Alegre-se a terra com o vosso nascimento.

Senhor, que viestes para ser a Videira que nos dá os frutos da vida, fazei que, unidos a Vós, dêmos fruto abundante de santidade. Alegre-se a terra com o vosso nascimento.

Esperado das nações, que viestes na plenitude dos tempos, revelai-Vos também àqueles que ainda Vos esperam. Alegre-se a terra com o vosso nascimento.

Verbo Encarnado, que viestes renovar a natureza humana, ferida pelo pecado, concedei a renovação perfeita aos nossos irmãos defuntos. Alegre-se a terra com o vosso nascimento.

Pai Nosso

Oração conclusiva

Concedei, Deus todo-poderoso, que, inundados pela nova luz do Verbo Encarnado, resplandeça em nossas obras o que pela fé brilha em nossos corações. Por Nosso Senhor Jesus Cristo.

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4º Domingo do Advento – Ano A

Eis que a Virgem conceberá e dará à luz um Filho (Mt 1, 23)

Neste quarto e último domingo do Advento, o Evangelho (cf. Mt 1,18-24) orienta-nos para o Natal através da experiência de São José, uma figura aparentemente secundária, mas em cuja atitude está contida toda a sabedoria cristã. Ele, juntamente com João Baptista e Maria, é um dos personagens que a liturgia nos oferece para o tempo do Advento; dos três é o mais modesto. Não prega, não fala, mas procura fazer a vontade de Deus; e ele realiza-a segundo o estilo do Evangelho e das bem-aventuranças. Pensemos: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos céus” (Mt 5,3). E José é pobre porque vive do essencial, trabalha, vive do trabalho; é a pobreza típica daqueles que sabem que dependem inteiramente de Deus e depositam a sua confiança n’Ele.

O relato do evangelho de hoje apresenta uma situação humanamente embaraçante e contrastante. José e Maria estão prometidos como esposos; ainda não vivem juntos, mas ela espera um filho por obra de Deus. José, diante desta surpresa, naturalmente que fica perturbado, mas, em vez de reagir de maneira impulsiva e punitiva – como era habitual fazer, a lei protegia-o – , procura uma solução que respeite a dignidade e a integridade da sua amada Maria. Diz o Evangelho: “José, seu marido, porque era um homem justo e não queria acusá-la publicamente, pensou em repudiá-la em segredo”. José sabia muito bem que, se denunciasse a sua esposa prometida, tê-la-ia exposto a graves consequências, mesmo até à morte. Ele tem total confiança em Maria, a quem ele escolheu como sua esposa. Ele não entende, mas procura outra solução.

Esta circunstância inexplicável condu-lo a pôr em causa a sua ligação com Maria. Com grande sofrimento, decide separar-se de Maria sem criar escândalo. Mas o Anjo do Senhor intervém para lhe dizer que a solução por ele pensada não é a que Deus quer. Deste modo, o Senhor abre-lhe uma nova estrada, uma estrada de união, amor e felicidade e diz-lhe: “José, filho de David, não temas receber Maria como tua esposa, pois o que nela foi gerado é do Espírito Santo”.

José confia totalmente em Deus, obedece às palavras do Anjo e toma consigo Maria. Esta confiança inabalável em Deus permitiu a José aceitar uma situação humanamente difícil e, em certo sentido, incompreensível. José entende, na fé, que o menino gerado no ventre de Maria não é seu filho, mas é o Filho de Deus e ele, José, será seu protector, assumindo plenamente a sua paternidade terrena. O exemplo deste homem manso e sábio exorta-nos a elevar o olhar, procurando ver sempre mais além. Trata-se de recuperar a surpreendente lógica de Deus que, longe dos pequenos ou grandes cálculos, é feita de abertura a novos horizontes, em direcção a Cristo e à Sua Palavra.

Papa Francisco, Angelus (resumo), 22 de Dezembro, 2019

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Advento. Orar em cada dia da semana 4

Domingo, 22 de Dezembro: ver a acção de Deus no concreto do nosso viver.

– «Não sei verdadeiramente como se deve pensar na Rainha dos Anjos no tempo em que tanto se angustiou com o Menino Jesus sem dar graças a São José pelo auxílio que lhe prestou» (Santa Teresa de Jesus).

«José, filho de David, não temas receber Maria, tua esposa, pois o que ela concebeu é obra do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho e pôr-lhe-ás o nome de Jesus; porque ele salvará o povo dos seus pecados» (Mt 1, 20-21).

– José ensina-nos a deixar-nos orientar por Deus com obediência voluntária.

Segunda-feira, 23 de Dezembro: deixar-se amar.

– «Deus, com efeito, nunca terminou de nos criar. Mantém húmido sob o seu polegar o barro humano e molda-o e torna a moldá-lo à semelhança da ideia que traz em Si mesmo».

– «Não temas, porque eu te resgatei e te chamei pelo teu nome: tu és meu» (Is 43,1).

– Com Zacarias, deixo que o Senhor pronuncie sobre mim o meu nome.

Terça-feira 24 de Dezembro: abrir a porta do meu coração.

– «Desde o primeiro despertar da razão, Maria foi Sede de Sabedoria. E, através do despojamento interior, esta nunca mais deixou de crescer dentro dela».

– «Se alguém me tem amor, há de guardar a minha palavra e meu Pai o amará, e nós viremos a ele e faremos nele a nossa morada» (Jo 14, 23).

– Abro o meu coração à vinda do Senhor, para que Ele possa vir fazer em mim a sua morada.

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