Via Sacra – 2021

VIA SACRA – 2021

V./ Nós te adoramos e bendizemos, ó Jesus.
R./ Porque pela tua santa cruz remiste o mundo.

 1º ESTAÇÃO: JESUS É CONDENADO À MORTE

Pilatos perguntou a Jesus: “Tu és o Rei dos Judeus?”. Jesus respondeu: “Tu o dizes”. Pilatos disse aos príncipes dos sacerdotes e à multidão: “Não encontro nada de culpável neste homem”.

Oração: Senhor Jesus, homem inocente, tu foste julgado e não quiseste defender-te. Tu, que não vieste para condenar, foste condenado. Enche a nossa vida de inocência e paciência. Dá-nos um coração compreensivo e compassivo. Que não queiramos condenar e que sejamos capazes de defender aqueles que são condenados injustamente.

2º ESTAÇÃO: JESUS É CARREGADO COM A CRUZ

Pilatos entregou-lhes então Jesus, para ser crucificado. E eles apoderaram-se de Jesus. Levando a cruz, Jesus saiu para o chamado “Lugar do Calvário”, que em hebraico se diz “Gólgota”.

Oração: Senhor, carregaste o peso do mundo. Quiseste tomar parte no peso de todos os homens. Querias aliviar o peso dos ombros de todos aqueles que carregam fardos insuportáveis. Dá-nos também forças para levar a nossa cruz. Dá-nos força e misericórdia para tomar parte nas cruzes dos outros. Dá-nos forças para ajudar os outros.

3º ESTAÇÃO: JESUS CAI PELA PRIMEIRA VEZ

Jesus chamou a multidão com os seus discípulos e disse-lhes: “Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me.”

Oração: Senhor, tinhas sido flagelado e tinhas uma coroa de espinhos na cabeça. Sobre ti caía o peso do mundo. Era algo superior às tuas forças – que eram muitas – e caíste por terra. Senhor, deixa-me levantar-te. Mas tu continuas a cair em muitos irmãos nossos. Quero ajudá-los, para que possam levantar-se.

4º ESTAÇÃO: JESUS ENCONTRA-SE COM A SUA MÃE

Vós todos que passais pelo caminho, olhai e vede se há dor semelhante à minha dor, que tanto me atormenta: porque o Senhor me feriu no dia da sua cólera. Por isso, eu choro e desfazem-se em lágrimas os meus olhos; o inimigo triunfou e eu perdi os meus filhos.

Oração: Senhor, a tua mãe não te abandonou. Era uma mulher forte e cheia de compaixão, sempre unida a ti. O Pai pode ter-te “abandonado”, mas a mãe não. Sem ela, ias sentir-te sozinho. Que a mãe continue a estar próxima de todos os que carregam o peso da cruz e alivie as suas feridas com o bálsamo da misericórdia.

5º ESTAÇÃO: SIMÃO DE CIRENE AJUDA JESUS A LEVAR A CRUZ

Quando O conduziam, lançaram mão de um certo Simão de Cirene, que vinha do campo, e puseram-lhe a cruz às costas, para a levar atrás de Jesus.

Oração: Senhor, tu quiseste carregar as nossas cruzes pesadas. Talvez não tenhas medido bem as forças. És um Deus fraco e é por isso que ainda te amamos mais. És um Messias humilde e deixas-te ajudar. Eu também quero ajudar-te como Simão de Cirene. Quero ajudar os meus irmãos a carregar a sua cruz. Sê tu, Senhor, para todos nós o nosso melhor Cireneu.

6º ESTAÇÃO: A VERÓNICA LIMPA O ROSTO DE JESUS

Quem acreditou no que ouvimos dizer? A quem se revelou o braço do Senhor? O meu servo cresceu diante do Senhor como um rebento, como raiz numa terra árida, sem distinção nem beleza para atrair o nosso olhar, nem aspecto agradável que possa cativar-nos… Como cordeiro levado ao matadouro, como ovelha muda ante aqueles que a tosquiam, ele não abriu a boca.

Oração: Senhor, ajuda-nos a ser como esta mulher delicada e corajosa, capazes de enxugar o teu rosto com o lenço da nossa proximidade e da nossa ternura, capazes de fazer a nossa opção pelos que mais sofrem, ultrapassando preconceitos e barreiras injustas. Mas grava também no nosso interior a imagem viva do teu rosto.

7º ESTAÇÃO: JESUS CAI PELA SEGUNDA VEZ

Naquele tempo, disse Jesus: “Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica só; mas se morrer, dará muito fruto.

Oração: Senhor, caíste de novo, porque a tua fraqueza é extrema. Mas beijas de novo a terra e levantas-te. Tens que continuar até ao fim o caminho marcado. Beija também todos os que estão caídos, beija a nossa miséria, quando caímos, e dá-nos força para nos levantarmos.

8º ESTAÇÃO: JESUS CONSOLA AS MULHERES DE JERUSALÉM

Seguia Jesus uma grande multidão de povo e mulheres que batiam no peito e se lamentavam, chorando por Ele. Mas Jesus voltou-Se para elas e disse-lhes: “Filhas de Jerusalém, não choreis por Mim; chorai antes por vós mesmas e pelos vossos filhos”.

Oração: Senhor, tu choraste por Jerusalém; agora são as filhas de Jerusalém que choram por ti. As suas lágrimas são a melhor oferta destas mulheres cheias de compaixão. Dá-nos a graça de chorar com os que choram, de estar próximos de quem sofre. Que não sejamos lenha seca, nem deixemos secar o nosso coração.

9º ESTAÇÃO: JESUS CAI PELA TERCEIRA VEZ

Caríssimos: Se vós, fazendo o bem, suportais o sofrimento com paciência, isto é uma graça aos olhos de Deus. Para isto é que fostes chamados, porque Cristo sofreu também por vós, deixando-vos o exemplo, para que sigais os seus passos… Vós éreis como ovelhas desgarradas, mas agora voltastes para o pastor e guarda das vossas almas.

Oração: Senhor, cais pela terceira vez, sinal da máxima fraqueza. És o mais formoso grão de trigo que cai à terra. Não nos admiramos de caíres três vezes, mas de encontrares forças para te levantares outras tantas. Pelas tuas quedas, perdoa, Senhor, as nossas quedas. Diz-nos para nos levantarmos e ajuda-nos a levantar-nos, para que, deste modo, aprendamos a compreender e ajudar aqueles que caem.

10º ESTAÇÃO: JESUS É DESPOJADO DAS SUAS VESTES

Quando crucificaram Jesus, os soldados tomaram as suas vestes, das quais fizeram quatro lotes, um para cada soldado, e ficaram também com a túnica. Assim se cumpria a Escritura: “Repartiram entre si as minhas vestes e deitaram sortes sobre a minha túnica”. Foi o que fizeram os soldados.

Oração: Senhor, primeiro foste tu que te despojaste. Agora foram os soldados que te despojaram do pouco que te restava. És o pobre do Senhor. Que também nós saibamos despojar-nos das muitas coisas que nos sobram. Que saibamos pedir perdão, se, por acaso, despojámos alguém dos seus bens, do seu prestígio ou da sua dignidade. E que saibamos denunciar os muitos despojos de que ainda hoje és vítima.

11º ESTAÇÃO: JESUS É CRAVADO NA CRUZ

Eram nove horas da manhã quando crucificaram Jesus. O letreiro que indicava a causa da condenação tinha escrito: “Rei dos Judeus”. Crucificaram com Ele dois salteadores, um à direita e outro à esquerda.

Oração: Estás na cruz, ó Cristo amado, dor viva, oração em lágrimas, paciência de tremores, perdão que sangra, generosidade sem limites. Ensina-nos estas dramáticas lições da tua cruz, ensina-nos a rezar na noite escura, a sofrer perdoando, a esperar mesmo no vazio, a entregar-nos até ao sangue. E ensina-nos a amar na cruz de cada dia.

12º ESTAÇÃO: JESUS MORRE NA CRUZ

Era já quase meio-dia, quando as trevas cobriram toda a terra, até às três horas da tarde, porque o sol se tinha eclipsado. O véu do templo rasgou-se ao meio. E Jesus exclamou com voz forte: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito”. Dito isto, expirou.

Oração: Nessa cruz espantosa, tu és, Senhor, uma fogueira acesa, um livro aberto, uma bandeira de salvação. Salva-nos, pela tua cruz, salva todos os homens. Que aqui aprendamos a paciência, a generosidade, a confiança, o amor. Que aqui aprendamos a amar-nos e a entregar-nos até ao fim. Jesus inclina a cabeça e morre, mas não morre o Amor, que é o mais forte: a Vida triunfa sobre toda a morte, o Amor brilha com toda a sua beleza.

13º ESTAÇÃO: JESUS É DESCIDO DA CRUZ

Ao cair da tarde José de Arimateia, ilustre membro do Sinédrio foi corajosamente à presença de Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus. José comprou um lençol, desceu o corpo de Jesus e envolveu-O no lençol.

Oração: Ó Jesus, o teu corpo ferido pode agora descansar. A tua mãe, cheia de compaixão, oferece-te ao Pai e, banhada em lágrimas, beija as tuas feridas. Também eu quero beijá-las. Quero chorar os meus pecados. Quero oferecer-te toda a dor do mundo. E quero agradecer-te a oferta da tua mãe, ó Jesus.

14º ESTAÇÃO: JESUS É DEPOSITADO NO SEPULCRO

No local em que Jesus tinha sido crucificado, havia um jardim e, no jardim, um sepulcro novo, no qual ainda ninguém fora sepultado. Foi aí que, por causa da Preparação dos judeus, porque o sepulcro ficava perto, depositaram Jesus.

Oração: Queremos permanecer em vigília junto ao teu corpo, ó Jesus. Permanecer em vigília, enquanto tu dormes. Permanecer em vigília, enquanto tu resgatas Adão, enchendo o inferno de luz e de esperança. Permanecer em vigília, que são apenas três momentos. E o teu corpo há de revestir-se de glória, o triunfo do amor sobre a morte. Livra-nos, Senhor, de toda a espécie de morte. Ressuscita também em nós, Senhor.

V./ Nós te adoramos e bendizemos, ó Jesus.
R./ Porque pela tua santa cruz remiste o mundo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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As sete palavras de Jesus na cruz – 7

7. Tudo está consumado (Jo 19, 29-35)

Havia ali uma vasilha cheia de vinagre. Então, ensopando no vinagre uma esponja fixada num ramo de hissopo, chegaram-lha à boca. Quando tomou o vinagre, Jesus disse: Tudo está consumado. E, inclinando a cabeça, entregou o espírito. Como era o dia da Preparação da Páscoa, para evitar que no sábado ficassem os corpos na cruz, porque aquele sábado era um dia muito solene, os judeus pediram a Pilatos que se lhes quebrassem as pernas e fossem retirados. Os soldados foram e quebraram as pernas ao primeiro e também ao outro que tinha sido crucificado juntamente. Mas, ao chegarem a Jesus, vendo que já estava morto, não lhe quebraram as pernas. Porém, um dos soldados traspassou-lhe o peito com uma lança e logo brotou sangue e água. Aquele que viu estas coisas é que dá testemunho delas e o seu testemunho é verdadeiro. E ele bem sabe que diz a verdade, para vós crerdes também.

O evangelista João, depois de parar em contemplação diante da morte de Jesus, continua revelando o sinal que cumpre as Escrituras e o projeto de Deus solenemente prometido pela sede de Jesus. É algo de tão importante que João faz dessa contemplação o ponto de chegada de todo o Evangelho: o dom do Espírito que jorra do peito trespassado de Jesus na cruz.

Os soldados partiram as pernas aos que tinham sido crucificados com Jesus, para que morressem de sufocação, não podendo apoiar-se nos pés para respirar. Chegando a Jesus, não se deram a esse trabalho, pois viram que estava já morto, mas trespassam-lhe o peito, e saiu sangue e água. O sangue é o sinal da vida, da vida levada até à morte violenta. Era por isso que João tinha explicado o modo de agir de Jesus, no início da narração da paixão: Tendo amado os seus que estavam no mundo, levou até ao extremo o seu amor por eles (Jo 13,1). A água é a promessa feita por Jesus ao longo do Evangelho, o dom do Espírito. A humanidade de Jesus, como expressão total do amor (o sangue) e o dom do Espírito do Pai (a água prometida) são o coroamento da missão de Jesus nesta terra, que introduzem na humanidade um novo dinamismo. A criação prodigiosa do homem, atinge uma nova dimensão ao participar do Espírito, da vida de Deus.

É à luz deste sinal que S. João anuncia o valor recriador e salvador da morte de Jesus: sem o dom do Espírito, fruto da morte e ressurreição  de Jesus, a sua missão poderia ser notável, mas não traria bem substancialmente novo à humanidade. É o Espírito de Deus que nos permite viver realizando o projeto de Jesus de anunciar a Boa nova aos pobres, de dar vista aos cegos de libertar os prisioneiros e anunciar a misericórdia de Deus. É igualmente esse Espírito que nos liberta definitivamente das nossas limitações e fragilidades, fazendo-nos participar da morte e ressurreição de Jesus. É pelo Espírito que a morte de Jesus é verdadeiramente salvadora e radicalmente libertadora.

Aos pés da cruz, acolhemos este Espírito que brota do Coração aberto de Jesus, expressão do seu amor humano levado até ao dom da vida, manifestação do amor fiel de Deus que nunca deixa nenhum dos seus filhos cair no aniquilamento da morte.

Esta é a fé, a vida e a esperança que hoje professamos e anunciamos aos pés da cruz do Senhor.

“As sete palavras de Jesus na cruz”, publicadas ao longo de sete dias por “Caminhos Carmelitas”, fazem parte da Homilia pronunciada por D. José Ornelas, Bispo de Setúbal, na Celebração da Paixão do Senhor, em 10 de Abril de 2020.

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As sete palavras de Jesus na cruz – 6

6. Tenho sede (Jo 19,28)

Depois disso, Jesus, sabendo que tudo se tinha cumprido, para se cumprir totalmente a Escritura, disse: Tenho sede!

João tem uma leitura semelhante, mas mais desenvolvida, que revela o sentido da morte de Jesus para o futuro da Igreja e da humanidade. Ele refere um grito de Jesus agonizante: sabendo que tudo se tinha cumprido, para se cumprir totalmente a Escritura, disse: Tenho sede! É um grito que reassume toda a vida de Jesus no cumprimento da vontade do Pai. A sua vida foi isso mesmo: realizar o projeto do Pai de dar a vida em plenitude ao mundo. Mas parece que falta algo a cumprir, pois diz-se: para se cumprir totalmente a Escritura, disse: Tenho sede!

O grito de sede não denta apenas a fisiológica de um condenado desidratado, embora isso seja mais do que natural. Essa sede tem outro significado e é muito importante.  O tema da sede e da água, estava prometido desde o início do evangelho de S. João, desde as bodas de Caná, onde Jesus tinha transformado a água em vinho e tinha prometido que havia de chegar a hora de saciar, com o vinho da alegria este casamento onde faltava o vinho do amor (cf. Jo 2,1-12). À Samaritana, Ele tinha anunciado uma água que sacia a sede de felicidade e de vida (Jo 4,14); em Jerusalém, tinha prometido que “se alguém tem sede, venha a mim e beba aquele que crê em mim. Como diz a Escritura, das suas entranhas hão- de correr rios de água viva». Ora Ele disse isto, referindo-se ao Espírito que haviam de receber os que nele acreditassem. Com efeito, ainda não tinham o Espírito, porque Jesus ainda não tinha sido glorificado”.

Agora é a hora da glorificação de Jesus e a hora de dar essa água que jorra até à vida eterna. Jesus tem sede dessa água da vida que é o Espírito, que se recebe no Batismo. Sem o Espírito de Deus nós continuaríamos a ser apenas seres humanos destinados à morte e limitados na nossa maneira de pensar e de agir. É desse Espírito que Jesus tem sede e anuncia a sua manifestação, a partir da sua humanidade glorificada no seu regresso ao Pai. Ele tinha dito que era necessário que fosse para o Pai, para enviar o Espírito (cf. Jo 15,5-7). Quando isso acontecer, Ele já não poderá mais falar com a língua dos homens; estará já junto do Pai, de onde enviará o Espírito.

Por isso, o grito de sede de Jesus liga-se, por assim dizer, com a primeira palavra na cruz: Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste? Essa exclamação e pedido de sentido e socorro recebe agora uma resposta: Só o Espírito de Jesus morto e ressuscitado pode saciar verdadeiramente o ser humano na sua demanda de felicidade e vida. Sem o dom do Espírito, a sua missão não estaria terminada. Por isso, faltava de facto uma profecia para cumprir. Agora sim, depois de ter anunciado o dom do Espírito, Jesus pode dizer que a sua missão como homem, nesta terra está plenamente cumprida e exclamou: Tudo está consumado (Jo 19, 29-35).

 

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As sete palavras de Jesus na cruz – 5

5. Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito (Lc 23,44-46)

Por volta do meio-dia, as trevas cobriram toda a região até às três horas da tarde. O Sol tinha-se eclipsado e o véu do templo rasgou-se ao meio. Dando um forte grito, Jesus exclamou: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito. Dito isto, expirou.

As três palavras finais de Jesus na cruz, vamos meditá-las em conjunto. São, de facto as últimas que Ele pronuncia, no seu percurso como homem nesta terra. São Lucas, faz uma leitura muito sóbria e iluminadora que resume a vida de Jesus: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito. O Espírito é a vitalidade do homem, feito do pó da terra e do sopro (espírito) de Deus. Trata-se da vida humana na sua inteireza, dinamismo e capacidade. O que Jesus coloca nas mãos do Pai é o seu ser humano. A missão recebida do Pai é levada até se esgotar, até à última gota de sangue. Tudo isso, que recebeu de Deus e administrou em favor da humanidade, entrega nas mãos do Pai. Mas entrega também o seu ser Filho amado, que veio ao mundo e regressa com toda a humanidade resgatada e recriada.

Essa é também a atitude que Ele deixa aos seus: vivam inteiramente a vida, acolham os dons de Deus com gratidão e responsabilidade, colocando-os ao serviço do Seu projeto, oferecendo-se como serviço e como amor. Não tenham medo, que a vida que vocês têm e administram desse jeito está sempre nas mãos poderosas e carinhosas do Pai do Céu. E quando, como eu, chegarem ao fim do percurso da terra, entreguem tudo isso com coragem e paz nas mãos do Pai. O resto do percurso, só mesmo Ele pode criar e conduzir, porque estará para além daquilo que vocês podem construir, orientar e até sonhar. E não tenham medo: o Pai nunca vos deixará cair das suas mãos.

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Audiência Geral: O Tríduo Pascal

O Tríduo Pascal

De amanhã até Domingo viveremos os dias centrais do Ano Litúrgico, celebrando o mistério da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor. Na tarde da Quinta-feira Santa reviveremos os acontecimentos da Última Ceia, quando Cristo deixou-nos o testamento do Seu amor na Eucaristia, não como uma recordação, mas como memorial, como Sua presença perene. A Sexta-feira Santa é dia de penitência, jejum e oração. Na intensidade da ação litúrgica deste dia ser-nos à apresentado o Crucifixo e, diante da Sua imagem, rezaremos pelos muitos crucificados de hoje, que somente de Jesus podem receber o conforto e o sentido do seu próprio sofrimento. Graças a Ele, abandonado na cruz, ninguém mais está sozinho na escuridão da morte. O Sábado Santo é dia de silêncio, vivido no pranto e na desolação dos primeiros discípulos, abalados pela morte ignominiosa de Jesus. Também Maria vive o pranto deste dia, mas o seu coração é pleno de fé, de esperança e de amor. Deste modo, na hora mais escura do mundo, Ela torna-se Mãe dos que crêem, Mãe da Igreja e sinal de esperança. Em meio às trevas da noite do Sábado Santo irromperão a luz e a alegria com os ritos da Vigília Pascal e o canto festivo do Aleluia. Aquele que foi crucificado ressuscitou! Todas as perguntas e incertezas, as hesitações e temores são dissipados por esta revelação. O Ressuscitado nos dá a certeza de que o bem sempre triunfa sobre o mal, a vida sempre vence a morte. Ao vivermos as celebrações pascais ainda no contexto da pandemia, a Cruz de Cristo é sinal da esperança que não decepciona.

Resumo da catequese do Papa Francisco, 31 de Março, 2021

 CATEQUESE COMPLETA:

http://www.vatican.va/content/francesco/pt/audiences/2021/documents/papa-francesco_20210331_udienza-generale.html

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As sete palavras de Jesus na cruz – 4

4. Mulher, aí está o teu filho; filho, eis aí a tua mãe (Jo 19,25-27)

Junto à cruz de Jesus estavam, de pé, sua mãe e a irmã da sua mãe, Maria, a mulher de Clopas, e Maria Madalena. Então, Jesus, ao ver ali ao pé a sua mãe e o discípulo que Ele amava, disse à mãe: Mulher, eis o teu filho! Depois, disse ao discípulo: Eis a tua mãe! E, desde aquela hora, o discípulo acolheu-a em sua casa.

Como fora a vida de Jesus assim é a sua morte. Ele não viveu voltado para si, mas para a sua missão, para realizar o projeto do Pai para a humanidade. Também agora, na hora da aflição, não fica autocentrado na sua dor, mas olha ainda à sua volta e vê a mãe e o discípulo.

São, evidentemente, duas pessoas queridas de Jesus. Mas, além disso, são representantes de duas realidades fundamentais: A mãe representa o Israel fiel, filho de Abraão, o crente, com o qual Deus se comprometeu com amor fiel. É nesse povo e no seio desta mulher – Maria – que Ele entrou na nossa humanidade. O discípulo João corporiza a comunidade nascente de Jesus, a Igreja.

A palavra de Jesus também não pretende simplesmente assegurar o cuidado da sua mãe na velhice, embora isso também esteja incluído. Trata-se de mais. Ao povo de Israel, Jesus pede que reconheça como seu filho e seu futuro o seu discípulo, representante da nova aliança no seu sangue, na sua cruz. Israel não deve renegar-se a si mesmo nem ao seu passado, mas deve abrir-se, por esta mãe nova, a ter filhos de toda a humanidade, realizando a promessa feita a Abraão de ser bênção para todas as nações.

Ao discípulo, Jesus, do alto da cruz, diz que considera Maria e o seu povo como sua mãe. O discípulo, a Igreja, nasce da descendência de Abraão e de David. A nova aliança não veio abolir a primeira. Deus continua sempre fiel à aliança, mesmo quando Israel ou os discípulos de Jesus possam não o ser.

Não pode haver rivalidade, ódio e morte quando se levanta a cruz como sinal de salvação. Exercer violência em nome da cruz, contra quem quer que seja, é a maior blasfémia contra a cruz; é negação daquele que nela foi cravado por renunciar à violência e acreditar no amor gratuito, universal e salvador de Deus. Aos pés da cruz, reconheçam-se como blasfémia todas as guerras religiosas e ódios em nome de Deus e da cruz de Jesus. Muitas vezes, neste dia de sexta-feira santa, os cristãos saíam da igreja e iam matar judeus nos seus guetos: quão distantes da verdadeira perspetiva da cruz! Qual negação daquele que implorou perdão para os seus algozes!

E esta deve ser a norma para qualquer diálogo com outras formas de acreditar e outras religiões. Nega-se a Deus quando em seu nome se destrói o homem. A cruz é o sinal da paz e de perdão, mesmo à custa da vida oferecida por amor, para que não se propague o vírus do ódio destruidor.

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As sete palavras de Jesus na cruz – 3

3 – Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso (Lc 23,39-43)

Ora, um dos malfeitores que tinham sido crucificados insultava-o, dizendo: Não és Tu o Messias? Salva-te a ti mesmo e a nós também. Mas o outro, tomando a palavra, repreendeu-o: Nem sequer temes a Deus, tu que sofres o mesmo suplício? Quanto a nós, fez-se justiça, pois recebemos o castigo que as nossas acções mereciam; mas Ele nada praticou de condenável. E acrescentou: Jesus, lembra-te de mim, quando estiveres no teu Reino. Ele respondeu-lhe: Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso.

Jesus termina a sua vida, como tinha sido anunciado pelo profeta que escutámos na primeira leitura: ”Será contado entre os malfeitores” (22-37). Para o evangelista, esta é a imagem da sua vida dedicada a redimir a humanidade pecadora, não de fora, mas a partir de dentro, do estar, sem pecado, entre os pecadores. Estes dois crucificados são os representantes de toda a humanidade merecedora de morte, aos olhos daqueles que se consideravam mais justos e excluem os outros. Mas esses são antes de mais pecadores, precisamente por isso: porque não o admitem.

Neste homem começa a revelar-se a missão de Jesus na sua plenitude. Ele vem em nome do Pai, para chamar, não os justos mas os pecadores (Lc 5,32; Lc 19,10). Por isso, convive com os pecadores e come com eles (Lc 19,7), vai à procura da ovelha perdida (Lc 15,1-7) e espera sempre o regresso do filho querido que se perdeu (Lc 15,11-32). Este homem era verdadeiramente pecador e assassino. O único mérito dele foi ter reconhecido e acolhido, naquele que foi crucificado ao seu lado, o justo de Deus, a porta para a vida. Esta é a sua profissão de fé, semelhante à do centurião, junto da cruz de Jesus já morto – um outro protagonista na execução de Jesus – que, ”vendo o que acontecera, exclamou: verdadeiramente este homem era justo” (Lc 23,47). São os primeiros frutos da redenção. Este foi verdadeiramente associado à morte de Jesus e é o primeiro (um pecador inveterado) a participar na Sua ressurreição.

A palavra do ladrão assume a súplica de toda a humanidade. É a última palavra que Jesus escuta nesta terra: “Jesus, lembra-te de mim, quando vieres no teu Reino” (23,42). A Sua resposta a este grito é também, no evangelho de Lucas, a sua última palavra dirigida à humanidade, pecadora mas amada: “Hoje estarás comigo no paraíso”. É o resumo de todo o Evangelho, da Boa Nova para os pobres, da missão que Jesus veio realizar, revelando e realizando o desígnio salvador do Pai, através do dom da Vida.

 

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As sete palavras de Jesus na cruz – 2

2. Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem (Lc 23,33-35)

Quando chegaram ao lugar chamado Calvário, crucificaram-no a Ele e aos malfeitores, um à direita e outro à esquerda. Jesus dizia: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. Depois, deitaram sortes para dividirem entre si as suas vestes. O povo permanecia ali, a observar; e os chefes zombavam, dizendo: Salvou os outros; salve-se a si mesmo, se é o Messias de Deus, o Eleito.

O evangelista Lucas refere três palavras muito iluminadoras de Jesus na cruz: as duas primeiras referem-se sobretudo à sua missão e àquilo que revela sobre o Pai e a terceira, para confiar nas suas mãos toda a sua vida.

A primeira destas palavras encontra-se no contexto da crucifixão entre dois ladrões e a troça das autoridades religiosas, que celebram a sua vitória sobre este herético, que ousara pôr em causa as verdades e privilégios sobre os quais tinham construído o seu poder: Salvou os outros; salve-se a si mesmo, se é o Messias de Deus, o Eleito.

Eles só conhecem a lógica do poder, do sucesso que exclui quem pensa diferente, ou desafia o seu poder despótico. O pior destes dirigentes é que pensam que são justos e têm o direito de condenar e de eliminar os outros, os que pensam diferente. Pior ainda é que não entendem quem é Deus, mas arrogam-se o direito de julgar em seu nome. Na realidade só conhecem a si mesmos e às suas certezas e dogmas. Se Deus intervém, com a sua misericórdia de Pai, desarranja este mundo autocêntrico. É em nome de Deus que eles julgam e condenam Deus feito homem. Este é o maior pecado, aquele que Jesus chama o “pecado contra o Espírito Santo”; aquele que não permite que Deus entre com a sua misericórdia na nossa vida, para transformá-la e salvá-la.

Jesus não veio condenar ninguém, nem mesmo esses que o condenam. Não entenderam o coração, a lógica de Deus. Mas, também para eles, como para Paulo, o perseguidor, está levantada a cruz da misericórdia e de perdão. A mão de Deus está estendida; é preciso que a outra se abra para a receber. Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.

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As sete palavras de Jesus na cruz – 1

1. Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste? (Mc 15,33-36)

Ao chegar o meio-dia, fez-se trevas por toda a terra, até às três da tarde. E às três da tarde, Jesus exclamou em alta voz: «Eloí, Eloí, lemá sabachtáni?», que quer dizer: Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste? Ao ouvi-lo, alguns que estavam ali disseram: «Está a chamar por Elias!» Um deles correu a embeber uma esponja em vinagre, pô-la numa cana e deu-lhe de beber, dizendo: «Esperemos, a ver se Elias vem tirá-lo dali.»

Esta exclamação de Jesus crucificado mostra, antes de mais, como Ele desceu realmente à condição humana, em todas as suas potencialidades e capacidades, mas igualmente à sua dramaticidade, dor e limitação. Confrontado com a oposição, a violência, a injustiça, a dor e a perspetiva da morte, Ele permanece fiel ao projeto do Pai do céu e do seu desígnio de criação de um mundo mais humano e aberto à plenitude da vida.

Na hora da crise, da violência, da morte, Jesus sente a angústia de qualquer ser humano, não só perante a morte física, mas igualmente perante o aparente desmoronar dos seus projetos. Ele sente a experiência do “abandono de Deus”, que contradiz a própria relação com Ele.

Mas não vive esta hora em oposição com Deus, mas rezando. As suas palavras são o início de um salmo – oração dos aflitos (Sl 22) – que começa com um doloroso lamento perante o que aparece como o abandono de Deus e termina com louvor perante a salvação que Ele concede aos que nele confiam.

Esta atitude orante – isto é, de ligação e comunhão com Deus – não aparece apenas aqui. Esteve presente ao longo da sua vida: no início da sua missão, no deserto, nas noites e manhãs em que se retirava, quando tinha de tomar decisões, no Jardim das Oliveiras, na horas das crises. Jesus viveu sempre em comunhão com o Pai e, nesta hora solene e dramática, essa relação faz-se mais forte.

Mas a oração de Jesus na cruz significa mais do que isso. Ele reza a oração do seu povo, com o seu povo, com toda a humanidade e pela humanidade à qual se tinha unido. O seu grito ao Pai é o grito da humanidade inteira. Ele sente bem a angústia dos homens: a fome das multidões, a sede de vida dos enfermos, dos pobres e injustiçados, a exclusão dos pecadores e dos que pensam diferente, as vítimas das opressões e os frustrados das revoltas violentas… Tudo isso se encontra neste grito de Jesus, na cruz de Jesus.

Este é também o grito da humanidade crente, o grito de nós todos, também nesta pandemia que atinge a humanidade: “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?” Não é um grito contra Deus, mas dirigido a Deus na dor e, por vezes, na difícil compreensão dos seus caminhos. No fundo um grito de sede e de confiança, para entender e aceitar o porquê de tudo isto e a meta aonde o caminho da vida nos leva.

A dor pode ter este efeito: reconhecer a própria limitação e levantar os olhos ao céu à procura de luz, de força, de caminho.

 

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Quaresma com Santa Teresa de Jesus – 8

 ORAR EM CADA DIA DA SEMANA SANTA DA QUARESMA 2021

 Segunda-feira Santa, 29 de Março: Com Maria Madalena

Então, Maria ungiu os pés de Jesus com uma libra de perfume de nardo puro, de alto preço, e enxugou-lhos com os seus cabelos. A casa encheu-se com a fragância do perfume. (Jo 12, 3).

Conheço uma pessoa (…) que se considerava aos pés do Senhor e chorava com a Madalena, nem mais nem menos do que se O vira com olhos corporais em casa do fariseu; pois, embora não sentisse devoção, a fé lhe dizia que Ele estava ali realmente. (Caminho de Perfeição 34,7).

Com Maria Madalena, eu Te ofereço a minha vida e Te adoro.

Terça-feira Santa, 30 de Março: Seja fiel a Ele

[Judas], tendo tomado o bocado de pão, saiu logo. Fazia-se noite. (Jo 13,30).

(…) grande misericórdia nos fez Deus; mas, quando vejo – como já disse – que estava Judas em companhia dos Apóstolos, e tratando sempre com o mesmo Deus, e ouvindo Suas palavras, entendo que nisto não há segurança. (5 Moradas 4, 7.)

Guarda-me fiel ao teu amor!

Quarta-feira Santa, 31 de Março: Prepare a sua pousada interior

O Mestre manda dizer: o meu tempo está próximo; é em tua casa que quero celebrar a Páscoa com os meus discípulos. (Mt 26,18).

Vós, Senhor, vindo a uma pousada tão ruim como a minha. Bendito sejais para sempre. (Livro da Vida, 22, 17).

Preparo a minha pousada interior para nela acolher o Senhor.

Quinta-feira Santa, 1º de Abril: Rezo pela Igreja e pelo mundo inteiro

Na verdade, dei-vos o exemplo para que, assim como Eu fiz, vós façais também. (Jo 13, 15).

Ponhamos os olhos em Cristo, nosso Bem, e ali aprenderemos a verdadeira humildade (1 Moradas 2, 11).

No seu Corpo entregue, Cristo reconcilia-nos com Deus e manifesta-nos o seu amor. Oremos pela Igreja e pelo mundo inteiro.

Sexta-feira Santa, 2 de Abril: Carregando a Cruz

Crucificaram-n’O, e com Ele outros dois, um de cada lado, ficando Jesus no meio. (Jo 19, 18).

Não nos há-de faltar cruz nesta vida, por mais que façamos, uma vez que somos do bando do Crucificado. (Carta 194).

Concede-me, concede-nos comungar deste mistério de amor!

Sábado Santo, 3 de Abril: Vigiar com Maria

No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo logo de manhã. (Jo 20,1).

Se estais alegres, vede-O ressuscitado; que só o imaginar como saiu do sepulcro, vos alegrará. Com quanta claridade e com que formosura! que majestade! Quão vitorioso e alegre! (Caminho de Perfeição 26,4).

O silêncio deste dia prepara-nos para acolher a Boa-Nova: Cristo está vivo, Aleluia!

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