3º Domingo do Tempo Comum – Ano A

Vinde e segui-Me e farei de vós pescadores de homens

O Evangelho de hoje (Mateus 4,12-23) relativo ao 3º Domingo do Tempo Comum – Ano A, refere que quando Jesus soube que João Baptista foi preso, voltou para a Galileia e retomou a mesma mensagem de João: “Arrependei-vos, porque o Reino de Deus está próximo!”. A pregação do Evangelho traz riscos. Ao anotar a prisão de João Baptista, o narrador não só está a registar um facto histórico, mas também a desvendar já aquilo que um dia acontecerá também a Jesus. Mas Jesus não volta atrás. Deste modo, Mateus anima as comunidades cristãs (de ontem e de hoje) que corriam (correm) riscos de perseguição.

Jesus não parte de Jerusalém, com uma acção fulgurante, como seria de esperar, mas da periferia. Mateus justifica-o, citando o profeta Isaías: “Terra de Zabulão e terra de Neftali, estrada do mar, além do Jordão, Galileia dos gentios: o povo que vivia nas trevas viu uma grande luz; para aqueles que habitavam na sombria região da morte uma luz se levantou”. A luz que havia de iluminar os que jazem nas trevas e na sombra da morte é Jesus, o qual, como que em nova criação e em novo êxodo fará brilhar a luz da salvação, em primeiro lugar na região humilhada da Galileia, para depois a estender aos pagãos. Desde o início a missão de Jesus é universal.

Ainda antes de nos convidar a que nos interessemos por Deus, é Deus que se interessa primeiro por nós, tomando a iniciativa de percorrer as nossas estradas para nos vir visitar! Confirma-o Evangelho! Jesus caminha ao longo das praias do Mar da Galileia, e vê dois irmãos, Simão e André, ocupados nos trabalhos da pesca, e diz-lhes: “Vinde atrás de mim”. A resposta é imediata: “Deixaram logo as redes, e seguiram-no!”. E andando um pouco mais, viu outros dois irmãos, Tiago e João, que, com o pai, Zebedeu, remendavam as redes na barca. Também os chamou. E também eles deixaram logo a barca e o pai, e seguiram-no.

Jesus desce ao nosso mundo, caminha pelas nossas estradas e vem ter connosco aos nossos lugares de trabalho. E é aí que nos chama. Não espera por nós no cenário sagrado das nossas Igrejas! Não nos obriga a fazer uma inscrição, a preencher uma ficha, a aprender uma doutrina, nem sequer nos entrega um projecto de vida, um guião, uma regra, mas chama-nos a segui-lo (“vinde atrás de mim”), e partilha connosco a sua vida, como o Mestre faz com os seus discípulos.

Este 3º Domingo do Tempo Comum é, por vontade do Papa Francisco, o Domingo da Palavra de Deus. “A dedicação dum Domingo do Ano Litúrgico particularmente à Palavra de Deus permite, antes de mais nada, fazer a Igreja reviver o gesto do Ressuscitado que abre, também para nós, o tesouro da sua Palavra, para podermos ser no mundo arautos desta riqueza inexaurível (Papa Francisco, Aperuit illis, nº 2). Deixemos que a Palavra nos forme e não apenas nos informe, e desabroche num jardim de canteiros com toda a espécie de flores de todas as cores e de todos os odores pois: “Quem poderá compreender, Senhor, toda a riqueza duma só das tuas palavras? Como o sedento que bebe da fonte, muito mais é o que perdemos do que o que tomamos. A tua palavra apresenta muitos aspectos diversos, como diversas são as perspectivas daqueles que a estudam. O Senhor pintou a sua palavra com muitas belezas, para que aqueles que a perscrutam possam contemplar aquilo que preferirem. Escondeu na sua palavra todos os tesouros, para que cada um de nós se enriqueça em qualquer dos pontos que medita” (Santo Efrém).

 

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“Aperuit illis” (“Abriu-lhes”). Extractos

– A dedicação dum Domingo do Ano Litúrgico particularmente à Palavra de Deus permite, antes de mais nada, fazer a Igreja reviver o gesto do Ressuscitado que abre, também para nós, o tesouro da sua Palavra, para podermos ser no mundo arautos desta riqueza inexaurível (Aperuit illis, nº 2).

– Portanto estabeleço que o III Domingo do Tempo Comum seja dedicado à celebração, reflexão e divulgação da Palavra de Deus. As comunidades encontrarão a forma de viver este Domingo como um dia solene. Entretanto será importante que, na celebração eucarística, se possa entronizar o texto sagrado, de modo a tornar evidente aos olhos da assembleia o valor normativo que possui a Palavra de Deus (Aperuit illis, nº 3).

– A Bíblia não pode ser património só de alguns e, menos ainda, uma colectânea de livros para poucos privilegiados. A Bíblia é o livro do povo do Senhor que, escutando-a, passa da dispersão e divisão à unidade. A Palavra de Deus une os crentes e faz deles um só povo (Aperuit illis, nº 4).

– Por isso, é preciso dedicar tempo conveniente à preparação da homilia. Nunca nos cansemos de dedicar tempo e oração à Sagrada Escritura, para que seja acolhida, «não como palavra de homens, mas como ela é realmente, palavra de Deus» (1 Ts 2, 13) (Aperuit illis, nº 5).

– É bom também que os catequistas, atendendo ao ministério que desempenham de ajudar a crescer na fé, sintam a urgência de se renovar através da familiaridade e estudo das Sagradas Escrituras, que lhes consintam promover um verdadeiro diálogo entre aqueles que os escutam e a Palavra de Deus (Aperuit illis, nº 5).

– O dia dedicado à Bíblia pretende ser, não «uma vez no ano», mas uma vez por todo o ano, porque temos urgente necessidade de nos tornar familiares e íntimos da Sagrada Escritura e do Ressuscitado, que não cessa de partir a Palavra e o Pão na comunidade dos crentes. Para tal, precisamos de entrar em confidência assídua com a Sagrada Escritura; caso contrário, o coração fica frio e os olhos permanecem fechados, atingidos, como somos, por inumeráveis formas de cegueira (Aperuit illis, nº 8)

– Se uma pessoa ouvir a sua voz e Lhe abrir a porta, Ele entra para cear junto com ela (cf. 3, 20). Cristo Jesus bate à nossa porta através da Sagrada Escritura; se ouvirmos e abrirmos a porta da mente e do coração, então Ele entra na nossa vida e permanece connosco (Aperuit illis, nº 8).

– A Bíblia não é uma colectânea de livros de história nem de crónicas, mas está orientada completamente para a salvação integral da pessoa. A inegável radicação histórica dos livros contidos no texto sagrado não deve fazer esquecer esta finalidade primordial: a nossa salvação. Tudo está orientado para esta finalidade inscrita na própria natureza da Bíblia, composta como história de salvação na qual Deus fala e age para ir ao encontro de todos os homens e salvá-los do mal e da morte (Aperuit illis, nº 9).

– Por isso, é necessário ter confiança na acção do Espírito Santo que continua a realizar uma sua peculiar forma de inspiração, quando a Igreja ensina a Sagrada Escritura, quando o Magistério a interpreta de forma autêntica (cf. ibid., 10) e quando cada crente faz dela a sua norma espiritual (Aperuit illis, nº 10).

– Quem se alimenta dia a dia da Palavra de Deus torna-se, como Jesus, contemporâneo das pessoas que encontra; não se sente tentado a cair em nostalgias estéreis do passado, nem em utopias desencarnadas relativas ao futuro (Aperuit illis, nº 12).

– Outra provocação que nos vem da Sagrada Escritura tem a ver com a caridade. A Palavra de Deus apela constantemente para o amor misericordioso do Pai, que pede a seus filhos para viverem na caridade. A vida de Jesus é a expressão plena e perfeita deste amor divino, que nada guarda para si, mas a todos se oferece sem reservas. Escutar as Sagradas Escrituras para praticar a misericórdia: este é um grande desafio lançado à nossa vida (Aperuit illis, nº 13).

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Instituição do “Domingo da Palavra de Deus”

Com o documento “Aperuit illis” (“Abriu-lhes”), o Papa Francisco estabelece que “o III Domingo do Tempo Comum” seja o “Domingo da Palavra de Deus”.

Decidimos fazer um “resumo” desta Carta para realçar algumas ideias fortes que o Santo Padre quer partilhar, para que “Possa o Domingo dedicado à Palavra fazer crescer no povo de Deus uma religiosa e assídua familiaridade com as Sagradas Escrituras, tal como ensinava o autor sagrado já nos tempos antigos: esta palavra «está muito perto de ti, na tua boca e no teu coração, para a praticares» (Dt 30, 14)”. O que é publicado é de responsabilidade única de “Caminhos Carmelitas”.

Aperuit illis (Abriu-lhes)

 1. «ABRIU-LHES o entendimento para compreenderem as Escrituras» (Lc 24, 45). Trata-se de um dos últimos gestos realizados pelo Senhor ressuscitado, antes da sua Ascensão. Encontrando-se os discípulos reunidos, Jesus aparece-lhes, parte o pão com eles e abre-lhes o entendimento à compreensão das Sagradas Escrituras. Revela àqueles homens, temerosos e desiludidos, o sentido do mistério pascal, ou seja, que Ele, segundo os desígnios eternos do Pai, devia sofrer a paixão e ressuscitar dos mortos para oferecer a conversão e o perdão dos pecados (cf. Lc 24, 26.46-47); e promete o Espírito Santo que lhes dará a força para serem testemunhas deste mistério de salvação (cf. Lc 24, 49).

2. No termo do Jubileu Extraordinário da Misericórdia, pedi que se pensasse num «Domingo dedicado inteiramente à Palavra de Deus, para compreender a riqueza inesgotável que provém daquele diálogo constante de Deus com o seu povo» (Carta ap. Misericordia et misera, 7). A dedicação dum Domingo do Ano Litúrgico particularmente à Palavra de Deus permite, antes de mais nada, fazer a Igreja reviver o gesto do Ressuscitado que abre, também para nós, o tesouro da sua Palavra, para podermos ser no mundo arautos desta riqueza inexaurível. A propósito, voltam à mente os ensinamentos de Santo Efrém: «Quem poderá compreender, Senhor, toda a riqueza duma só das tuas palavras? Como o sedento que bebe da fonte, muito mais é o que perdemos do que o que tomamos. A tua palavra apresenta muitos aspectos diversos, como diversas são as perspectivas daqueles que a estudam. O Senhor pintou a sua palavra com muitas belezas, para que aqueles que a perscrutam possam contemplar aquilo que preferirem. Escondeu na sua palavra todos os tesouros, para que cada um de nós se enriqueça em qualquer dos pontos que medita» (Comentários sobre o Diatessaron, 1, 18).

Assim, com esta Carta, pretendo dar resposta a muitos pedidos que me chegaram da parte do povo de Deus no sentido de se poder celebrar o Domingo da Palavra de Deus em toda a Igreja e com unidade de intenções.

3. Portanto estabeleço que o III Domingo do Tempo Comum seja dedicado à celebração, reflexão e divulgação da Palavra de Deus. As comunidades encontrarão a forma de viver este Domingo como um dia solene. Entretanto será importante que, na celebração eucarística, se possa entronizar o texto sagrado, de modo a tornar evidente aos olhos da assembleia o valor normativo que possui a Palavra de Deus.

4. O regresso do povo de Israel à pátria, depois do exílio de Babilónia, foi assinalado de modo significativo pela leitura do livro da Lei. A Bíblia dá-nos uma comovente descrição daquele momento, no livro de Neemias. O povo está reunido em Jerusalém, na praça da Porta das Águas, a escutar a Lei. Aquele povo dispersara-se com a deportação, mas agora encontra-se reunido à volta da Sagrada Escritura «como um só homem» (Ne 8, 1). Durante a leitura do Livro sagrado, o povo «escutava com atenção» (Ne 8, 3), ciente de encontrar naquela palavra o sentido para os acontecimentos vividos. Em reacção à proclamação daquelas palavras, brotou a comoção e o pranto. Os levitas «liam, clara e distintamente, o livro da Lei de Deus e explicavam o seu sentido, de modo que se pudesse compreender a leitura. O governador Neemias, Esdras, sacerdote e escriba, e os levitas que instruíam o povo disseram a toda a multidão: “Este é um dia consagrado ao Senhor, vosso Deus; não vos entristeçais nem choreis”. Pois todo o povo chorava ao ouvir as palavras da Lei. (…) “Não vos entristeçais, porque a alegria do Senhor é a vossa força”» (Ne 8, 8-9.10).

Estas palavras encerram uma grande lição. A Bíblia não pode ser património só de alguns e, menos ainda, uma colectânea de livros para poucos privilegiados. A Bíblia é o livro do povo do Senhor que, escutando-a, passa da dispersão e divisão à unidade. A Palavra de Deus une os crentes e faz deles um só povo.

5. Nesta unidade gerada pela escuta, primariamente os Pastores têm a grande responsabilidade de explicar e fazer compreender a todos a Sagrada Escritura. Uma vez que é o livro do povo, todos os que têm a vocação de ser ministros da Palavra devem sentir fortemente a exigência de a tornar acessível à sua comunidade.

Com efeito, para muitos dos nossos fiéis, esta (a homilia) é a única ocasião que têm para captar a beleza da Palavra de Deus e a ver referida à sua vida diária. Por isso, é preciso dedicar tempo conveniente à preparação da homilia. Nunca nos cansemos de dedicar tempo e oração à Sagrada Escritura, para que seja acolhida, «não como palavra de homens, mas como ela é realmente, palavra de Deus» (1 Ts 2, 13).

É bom também que os catequistas, atendendo ao ministério que desempenham de ajudar a crescer na fé, sintam a urgência de se renovar através da familiaridade e estudo das Sagradas Escrituras, que lhes consintam promover um verdadeiro diálogo entre aqueles que os escutam e a Palavra de Deus.

7. É profundo o vínculo entre a Sagrada Escritura e a fé dos crentes. Sabendo que a fé vem da escuta, e a escuta centra-se na Palavra de Cristo (cf. Rm 10, 17), daí se vê a urgência e a importância que os crentes devem dar à escuta da Palavra do Senhor, tanto na acção litúrgica, como na oração e reflexão pessoais.

8. A «viagem» do Ressuscitado com os discípulos de Emaús conclui com a ceia. O misterioso Viandante acede ao pedido insistente que os dois Lhe dirigem: «Fica connosco, pois a noite vai caindo e o dia já está no ocaso» (Lc 24, 29). Sentam-se à mesa; Jesus toma o pão, pronuncia a bênção, parte-o e dá-o a eles. Naquele momento, abrem-se-lhes os olhos e reconhecem-No (cf. Lc 24, 31).

A partir desta cena, compreendemos como seja indivisível a relação entre a Sagrada Escritura e a Eucaristia. O Concílio Vaticano II ensina: «A Igreja venerou sempre as divinas Escrituras como venera o próprio Corpo do Senhor, não deixando jamais, sobretudo na sagrada Liturgia, de tomar e distribuir aos fiéis o pão da vida, quer da mesa da palavra de Deus quer da do Corpo de Cristo» (Dei Verbum, 21).

O dia dedicado à Bíblia pretende ser, não «uma vez no ano», mas uma vez por todo o ano, porque temos urgente necessidade de nos tornar familiares e íntimos da Sagrada Escritura e do Ressuscitado, que não cessa de partir a Palavra e o Pão na comunidade dos crentes. Para tal, precisamos de entrar em confidência assídua com a Sagrada Escritura; caso contrário, o coração fica frio e os olhos permanecem fechados, atingidos, como somos, por inumeráveis formas de cegueira.

Sagrada Escritura e Sacramentos são inseparáveis entre si. Quando os Sacramentos são introduzidos e iluminados pela Palavra, manifestam-se mais claramente como a meta dum caminho onde o próprio Cristo abre a mente e o coração ao reconhecimento da sua acção salvífica. Neste contexto, é preciso não esquecer um ensinamento que vem do livro do Apocalipse; lá se ensina que o Senhor está à porta e bate. Se uma pessoa ouvir a sua voz e Lhe abrir a porta, Ele entra para cear junto com ela (cf. 3, 20). Cristo Jesus bate à nossa porta através da Sagrada Escritura; se ouvirmos e abrirmos a porta da mente e do coração, então Ele entra na nossa vida e permanece connosco.

9. Na II Carta a Timóteo, que de certa forma constitui o testamento espiritual de Paulo, este recomenda ao seu fiel colaborador que frequente assiduamente a Sagrada Escritura. O Apóstolo está convencido de que «toda a Escritura é inspirada por Deus e adequada para ensinar, refutar, corrigir e educar na justiça» (3, 16).

Apelando-se, antes de mais nada, à recomendação de Paulo a Timóteo, a Dei Verbum sublinha que «os livros da Escritura ensinam com certeza, fielmente e sem erro a verdade que Deus, para nossa salvação, quis que fosse consignada nas Sagradas Escrituras» (n. 11). Porque estas instruem tendo em vista a salvação pela fé em Cristo (cf. 2 Tm 3, 15), as verdades nelas contidas servem para a nossa salvação. A Bíblia não é uma colectânea de livros de história nem de crónicas, mas está orientada completamente para a salvação integral da pessoa. A inegável radicação histórica dos livros contidos no texto sagrado não deve fazer esquecer esta finalidade primordial: a nossa salvação. Tudo está orientado para esta finalidade inscrita na própria natureza da Bíblia, composta como história de salvação na qual Deus fala e age para ir ao encontro de todos os homens e salvá-los do mal e da morte.

Para alcançar esta finalidade salvífica, a Sagrada Escritura, sob a acção do Espírito Santo, transforma em Palavra de Deus a palavra dos homens escrita à maneira humana (cf. Dei Verbum, 12).

10.Com Jesus Cristo, a revelação de Deus alcança a sua realização e plenitude; e, todavia, o Espírito Santo continua a sua acção. De facto, seria redutivo limitar a acção do Espírito Santo apenas à natureza divinamente inspirada da Sagrada Escritura e aos seus diversos autores. Por isso, é necessário ter confiança na acção do Espírito Santo que continua a realizar uma sua peculiar forma de inspiração, quando a Igreja ensina a Sagrada Escritura, quando o Magistério a interpreta de forma autêntica (cf. ibid., 10) e quando cada crente faz dela a sua norma espiritual.

11. Muitas vezes corre-se o risco de separar Sagrada Escritura e Tradição, sem compreender que elas, juntas, constituem a única fonte da Revelação. O carácter escrito da primeira, nada tira ao facto de ela ser plenamente palavra viva; assim como a Tradição viva da Igreja, que no decurso dos séculos a transmite incessantemente de geração em geração, possui aquele livro sagrado como a «regra suprema da fé» (Ibid., 21). Além disso, antes de se tornar um texto escrito, a Palavra de Deus foi transmitida oralmente e mantida viva pela fé dum povo que a reconhecia como sua história e princípio de identidade no meio de tantos outros povos. Por isso, a fé bíblica funda-se sobre a Palavra viva, não sobre um livro.

12. Quando a Sagrada Escritura é lida com o mesmo Espírito com que foi escrita, permanece sempre nova. O Antigo Testamento nunca é velho, uma vez que é parte do Novo, pois tudo é transformado pelo único Espírito que o inspira. O texto sagrado inteiro possui uma função profética: esta não diz respeito ao futuro, mas ao hoje de quem se alimenta desta Palavra. Afirma-o claramente o próprio Jesus, no início do seu ministério: «Cumpriu-se hoje esta passagem da Escritura, que acabais de ouvir» (Lc 4, 21). Quem se alimenta dia a dia da Palavra de Deus torna-se, como Jesus, contemporâneo das pessoas que encontra; não se sente tentado a cair em nostalgias estéreis do passado, nem em utopias desencarnadas relativas ao futuro.

13. Outra provocação que nos vem da Sagrada Escritura tem a ver com a caridade. A Palavra de Deus apela constantemente para o amor misericordioso do Pai, que pede a seus filhos para viverem na caridade. A vida de Jesus é a expressão plena e perfeita deste amor divino, que nada guarda para si, mas a todos se oferece sem reservas. Escutar as Sagradas Escrituras para praticar a misericórdia: este é um grande desafio lançado à nossa vida. A Palavra de Deus é capaz de abrir os nossos olhos, permitindo-nos sair do individualismo que leva à asfixia e à esterilidade enquanto abre a estrada da partilha e da solidariedade.

15. No caminho da recepção da Palavra de Deus, acompanha-nos a Mãe do Senhor, reconhecida como bem-aventurada por ter acreditado no cumprimento daquilo que Lhe dissera o Senhor (cf. Lc 1, 45). Lembra-o um grande discípulo e mestre da Sagrada Escritura, Santo Agostinho: «Uma pessoa do meio da multidão, cheia de entusiasmo, exclamou: “Bem-aventurado o ventre que Te trouxe”. E Ele: “Mais felizes são os que ouvem a palavra de Deus e a guardam”. Como que a dizer: também a minha mãe, a quem tu chamas bem-aventurada, é bem-aventurada justamente porque guarda a palavra de Deus, não porque n’Ela o Verbo Se fez carne e habitou entre nós, mas porque guarda o próprio Verbo de Deus por meio do Qual foi feita, e que n’Ela Se fez carne» (Sobre o Evangelho de São João, 10, 3).

Possa o Domingo dedicado à Palavra fazer crescer no povo de Deus uma religiosa e assídua familiaridade com as Sagradas Escrituras, tal como ensinava o autor sagrado já nos tempos antigos: esta palavra «está muito perto de ti, na tua boca e no teu coração, para a praticares» (Dt 30, 14).

Roma, 30 de Setembro de 2019

Francisco

 

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Cordeiro de Deus

O cordeiro não é um dominador, mas é dócil; não é agressivo, mas pacífico; não mostra as garras nem os dentes diante de qualquer ataque, mas suporta e é dócil. Assim é Jesus! Assim é Jesus, como um cordeiro!

Que significa para a Igreja, para nós hoje, ser discípulos de Jesus, Cordeiro de Deus? Significa pôr no lugar da malícia a inocência, no lugar da força o amor, no lugar da soberba a humildade, no lugar do prestígio o serviço. É uma boa obra! Nós, cristãos, temos que agir assim: pôr no lugar da malícia a inocência, no lugar da força o amor, no lugar da soberba a humildade, no lugar do prestígio o serviço. Ser discípulo do Cordeiro significa não viver como que numa «cidadela cercada», mas como numa cidade posta sobre o monte, aberta, hospitaleira e solidária.

Papa Francisco

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2º Domingo do Tempo Comum – Ano A

Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo

Este segundo Domingo do Tempo Comum está em continuidade com a Epifania e com a festa do Baptismo de Jesus. A passagem do Evangelho (Jo 1, 29-34) fala-nos da manifestação de Jesus: depois de ser baptizado no rio Jordão, ele foi consagrado pelo Espírito Santo, que repousava sobre ele e foi proclamado Filho de Deus pela voz do Pai celeste. O evangelista João, ao contrário dos outros três evangelistas, não descreve o acontecimento do Baptismo de Jesus, mas oferece-nos, antes, o testemunho de João Baptista. Ele foi a primeira testemunha de Cristo. Deus chamou-o e preparou-o para isso.

O Baptista não pode conter o desejo urgente de testemunhar Jesus e declara: «Eu vi e testemunhei». João viu algo de impressionante, isto é, o Filho amado de Deus solidarizando-se com os pecadores; e o Espírito Santo fê-lo entender a novidade inaudita e inesperada. De facto, enquanto em todas as religiões é o homem que oferece e sacrifica algo a Deus, no caso de Jesus é Deus que oferece o seu próprio Filho para a salvação da humanidade. João manifesta o seu espanto e a sua adesão a esta novidade com a expressão que dizemos em todas as Missas: «Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!».

O testemunho de João Baptista convida-nos a recomeçar sempre de novo a nossa caminhada de fé: recomeçar de Jesus Cristo, o Cordeiro cheio de misericórdia que o Pai nos deu. Deixemo-nos surpreender de novo pela escolha de Deus de estar do nosso lado, de ser solidário connosco que somos pecadores e de salvar o mundo do mal.

Aprendamos de João Baptista a não presumir que já conhecemos Jesus, que já sabemos tudo sobre ele. Não é assim. Detenhamo-nos no Evangelho e contemplemos até um ícone de Cristo, e contemplando com os olhos e ainda mais com o coração, deixemo-nos instruir pelo Espírito Santo, que nos diz no interior: É Ele! Ele é o Filho de Deus feito cordeiro, imolado por amor. Somente Ele carregou, sofreu, expiou o pecado de cada um de nós, o pecado do mundo, e também os meus próprios pecados. Tudo. Ele carregou todos eles em si mesmo e libertou-nos deles, para que pudéssemos finalmente ser livres, não mais escravos do mal. Sim, ainda somos pobres pecadores, mas não escravos, não, não escravos: somos filhos, filhos de Deus!

Papa Francisco, Angelus (resumo), 19 de Janeiro, 2020

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Catequeses do Papa Francisco sobre os “Actos dos Apóstolos”

O Papa Francisco deu início a uma série de catequeses sobre o Livro dos “Actos dos Apóstolos”, em 29 de Maio de 2019, com o tema “Esperar o cumprimento da Promessa do Pai”, concluindo com a catequese da Audiência Geral de 15 de Janeiro, onde falou sobre “A prisão de Paulo em Roma e a fecundidade do anúncio”.

2019

29 de Maio – Esperar o cumprimento da Promessa do Pai: https://is.gd/30Gbf7

12 de Junho – Matias, testemunha do ressuscitado, no lugar de Judas: https://is.gd/XE6cWh

19 de Junho –.Pentecostes e a dinâmica do Espírito que inflama a palavra humana e a torna Evangelho: https://is.gd/JkgLPZ

26 de Junho – As primeiras comunidades cristãs: https://is.gd/REcsNV

7 de Agosto – A comunhão integral na comunidade dos cristãos: https://is.gd/UtH6LD

21 de Agosto – koinonia, o novo modo de relacionamento entre os discípulos do Senhor: https://is.gd/mDMy9A

28 de Agosto – Entre os apóstolos, sobressai Pedro: https://is.gd/MYAlcm

18 de Setembro – Os critérios de discernimentos propostos pelo sábio Gamaliel: https://is.gd/wBa6DQ

25 de Setembro –  Estêvão “cheio de Espírito Santo”, entre diakonia e martyriahttps://is.gd/uGPLzm

2 de Outubro – Filipe anuncia o Evangelho: https://is.gd/Csp98p

9 de Outubro – “É um instrumento escolhido por mim”: https://is.gd/uY3gDk

16 de Outubro – “Em verdade reconheço que Deus não faz distinção de pessoas”: https://is.gd/0qQrol

30 de Outubro – A fé cristã chega à Europa: https://is.gd/lJFn9e

6 de Novembro – Paulo no Aerópago, exemplo de inculturação da fé em Atenas: https://is.gd/qCOApc

13 de Novembro –  Priscila e Áquila, um casal a serviço do Evangelho: https://is.gd/pnqCVE

4 de Dezembro – O ministério de Paulo e a despedida dos anciãos: https://is.gd/t1GpuP

11 Dezembro – Paulo prisioneiro diante do Rei Agripas: https://is.gd/b9eH3k

2020

8 Janeiro – A provação do naufrágio: https://is.gd/7qNHxp 

15 de Janeiro – A prisão de Paulo em Roma e a fecundidade do anúncio: https://is.gd/G2Bzab – https://is.gd/3YMRPk

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Alegria e auto-estima

O ponto de partida da alegria é a auto-estima. Quando a pessoa se sente apreciada e profundamente amada, isso dá-lhe auto-estima. Essa é uma fonte de que brota a alegria. E não me sinto amado porque sou perfeitinho, sinto-me amado porque alguém me fez experimentar que diante dele, sem condições, eu valho, mesmo que tenha um olho torto, um mau currículo ou uma doença terrível!

Vasco P. Magalhães, sj

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Pedimo-Vos, Senhor, que sejais o nosso auxílio e protecção

Pedimo-Vos, Senhor, que sejais o nosso auxílio e protecção. Salvai os que entre nós estão atribulados, tende piedade dos humildes, levantai os caídos, ajudai os necessitados, curai os enfermos, convertei os transviados do vosso povo, saciai os famintos, libertai os nossos prisioneiros, fortalecei os fracos, animai os pusilânimes.

Perdoai-nos as iniquidades, as injustiças, os pecados, as faltas. Não recordeis os pecados dos vossos servos e servas, mas purificai-nos na vossa verdade e dirigi os nossos passos, para que caminhemos na piedade, justiça e simplicidade do coração e façamos o que é bom e agradável aos vossos olhos e aos olhos daqueles que nos governam.

Senhor, fazei brilhar sobre nós a luz do vosso rosto, para gozarmos de bem-estar na vossa paz, para sermos protegidos com a vossa mão poderosa, livres de todo o pecado com o vosso braço excelso e salvos dos que nos odeiam injustamente.

Dai a concórdia e a paz, a nós e a todos os habitantes da terra, como a destes aos nossos pais, quando Vos invocavam santamente com toda a confiança e sinceridade de coração. Só Vós, Senhor, podeis conceder-nos estes bens e outros ainda maiores.

São Clemente I, papa, (séc. I)

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