A Quaresma é um tempo de penitência, mas não de tristeza

Jesus vai ao deserto para se preparar para a sua missão no mundo. Ele não precisa de se converter, mas, como homem, deve passar por esta provação, seja para si mesmo, para obedecer à vontade do Pai, seja por nós, para nos dar a graça de vencer as tentações.

Também para nós, a Quaresma é um tempo de luta espiritual: somos chamados a enfrentar o Maligno mediante a oração para ser capazes, com ajuda de Deus, de vencê-lo na nossa vida quotidiana. O mal, infelizmente, trabalha na nossa existência e ao nosso redor, onde se manifestam violências, a rejeição do outro, fechamentos, guerras, injustiças. Tudo isto são obras do Maligno, do mal.

Depois das tentações, Jesus começa a pregar a Boa Nova que exige do homem conversão e fé. Nunca estamos suficientemente orientados para Deus e devemos continuamente dirigir a nossa mente e o nosso coração para Ele. Para fazê-lo, é preciso ter coragem de rejeitar tudo o que nos desvia do caminho, os falsos valores que nos enganam atraindo de modo subtil o nosso egoísmo. Pelo contrário, devemos confiar no Senhor, na sua bondade, no seu projecto de amor para cada um de nós.

A Quaresma é um tempo de penitência, mas não de tristeza. É um compromisso alegre e sério para nos desnudarmos do egoísmo, do nosso homem velho, e renovar-nos segundo a graça do nosso Baptismo. Só Deus nos pode dar a verdadeira felicidade: é inútil perdermos o nosso tempo buscando-a noutros lugares, nas riquezas, nos prazeres, no poder, na carreira. O Reino de Deus é a realização de todas as nossas aspirações mais profundas e mais autênticas, porque é, ao mesmo tempo, salvação do homem e glória de Deus”.

Assim, neste primeiro Domingo da Quaresma, somos convidados a escutar com atenção e acolher este chamamento de Jesus para nos convertermos e para acreditar no Evangelho.

Papa Francisco, Resumo do Angelus, 18 de Fevereiro de 2018

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1º Domingo da Quaresma (Ano B): Jesus é tentado no deserto por Satanás

Na oração dominical do “Angelus”, o Santo Padre costuma fazer uma pequena meditação quase sempre a partir do Evangelho desse Domingo. Decidimos respigar e partilhar o que os Papas Bento XVI e Francisco disseram relativamente aos “Domingos da Quaresma – Ano B”.

– O Livro do Êxodo narra a experiência do povo de Israel que, tendo saído do Egipto, peregrinou no deserto do Sinai durante quarenta anos antes de chegar à terra prometida. Durante aquela longa viagem, os hebreus conheceram toda a força e insistência do tentador, que os impelia a perder a confiança no Senhor e voltar para trás; mas, ao mesmo tempo, graças à mediação de Moisés, aprenderam a ouvir a voz de Deus, que os chamava a tornarem-se o seu povo santo. Meditando sobre esta página bíblica, compreendemos que (…) só estando livre da escravidão da mentira e do pecado, a pessoa humana, graças à obediência da fé que a abre à verdade, encontra o sentido pleno da sua existência e alcança a paz, o amor e a alegria (Bento XVI, Angelus, 5 de Março de 2006).

No deserto, lugar da provação, como mostra a experiência do povo de Israel, sobressai com profunda dramaticidade a realidade da kenosis, do esvaziamento de Cristo, que se despojou da forma de Deus (cf. Fl 2, 6-7). Ele, que não pecou e não pode pecar, submete-se à prova e por isso pode compadecer-se da nossa enfermidade (cf. Hb 4, 15) (Bento XVI, Angelus, 1 de Março de 2009).

– Jesus proclama que «se completou o tempo e o Reino de Deus está próximo» (Mc 1, 15), anuncia que nele acontece algo de novo: Deus dirige-se ao homem de modo inesperado, com uma proximidade singular, concreta, cheia de amor; Deus encarna-se e entra no mundo do homem para assumir sobre si o pecado, para vencer o mal e restituir o homem ao mundo de Deus. Mas este anúncio é acompanhado pelo pedido de corresponder a um dom muito grande. Com efeito, Jesus acrescenta: «Arrependei-vos e acreditai no Evangelho» (Mc 1, 15); é o convite a ter fé em Deus e a converter todos os dias a nossa vida à sua vontade, orientando para o bem todas as nossas obras e pensamentos. O tempo da Quaresma é o momento propício para renovar e tornar mais sólida a nossa relação com Deus, através da oração quotidiana, dos gestos de penitência e das obras de caridade fraterna (Bento XVI, Angelus, 26 de Fevereiro de 2012).

A Igreja faz-nos recordar este mistério no início da Quaresma, porque ele nos dá a perspectiva e o sentido deste tempo, que é um tempo de combate – na Quaresma deve-se combater – um tempo de combate espiritual contra o espírito do mal (cf. Oração da colecta de Quarta-Feira de Cinzas). E ao atravessarmos o «deserto» quaresmal, nós mantemos o olhar dirigido para a Páscoa, que é a vitória definitiva de Jesus contra o Maligno, contra o pecado e a morte. (…) O deserto é o lugar onde se pode ouvir a voz de Deus e a voz do tentador (…). E como ouvimos a voz de Deus? Ouvimo-la na sua Palavra. Por isso é importante conhecer as Escrituras, porque de outro modo não sabemos responder às insídias do maligno (Papa Francisco, Angelus, 22 de Fevereiro de 2015).

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Início da Quaresma: quarta-feira de cinzas

A alma que se entregou a Deus deve dar-se inteiramente, pois o amor não reserva nada para si; consome tudo, para que dessas cinzas se levante uma só Pessoa: Cristo. A criatura consumiu-se na divindade. Já não tem vontade própria, [mas a de Deus]. […] Mas que importa se Deus está com ela? 

Santa Teresa dos Andes

Oração

Senhor, nesta quarta-feira de Cinzas, também eu Te venho dirigir a minha oração. Desejo começar esta Quaresma formulando a minha prece: consome-me no Teu amor! Que a minha pobre natureza humana seja posta ao serviço do Teu amor e se consuma no amor e amando. Sou pó e cinza, é certo, mas a minha grande fraqueza pode ser colocada nas Tuas mãos e nela encontrar a força para fazer sempre a Tua vontade. Anima-me, Senhor, a ultrapassar-me a mim mesmo por Teu amor e por amor aos meus irmãos. Assim seja!

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Quaresma 2018. Excerto da mensagem do Papa Francisco – 2

Os falsos profetas

Escutemos este trecho, interrogando-nos sobre as formas que assumem os falsos profetas?

Uns assemelham-se a «encantadores de serpentes», ou seja, aproveitam-se das emoções humanas para escravizar as pessoas e levá-las para onde eles querem. Quantos filhos de Deus acabam encandeados pelas adulações dum prazer de poucos instantes que se confunde com a felicidade! Quantos homens e mulheres vivem fascinados pela ilusão do dinheiro, quando este, na realidade, os torna escravos do lucro ou de interesses mesquinhos! Quantos vivem pensando que se bastam a si mesmos e caem vítimas da solidão!

Outros falsos profetas são aqueles «charlatães» que oferecem soluções simples e imediatas para todas as aflições, mas são remédios que se mostram completamente ineficazes: a quantos jovens se oferece o falso remédio da droga, de relações passageiras, de lucros fáceis mas desonestos! Quantos acabam enredados numa vida completamente virtual, onde as relações parecem mais simples e ágeis, mas depois revelam-se dramaticamente sem sentido! Estes impostores, ao mesmo tempo que oferecem coisas sem valor, tiram aquilo que é mais precioso como a dignidade, a liberdade e a capacidade de amar. É o engano da vaidade, que nos leva a fazer a figura de pavões para, depois, nos precipitar no ridículo; e, do ridículo, não se volta atrás. Não nos admiremos! Desde sempre o demónio, que é «mentiroso e pai da mentira» (Jo 8, 44), apresenta o mal como bem e o falso como verdadeiro, para confundir o coração do homem. Por isso, cada um de nós é chamado a discernir, no seu coração, e verificar se está ameaçado pelas mentiras destes falsos profetas. É preciso aprender a não se deter no nível imediato, superficial, mas reconhecer o que deixa dentro de nós um rasto bom e mais duradouro, porque vem de Deus e visa verdadeiramente o nosso bem.

Papa Francisco

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Quaresma 2018. Excerto da mensagem do Papa Francisco – 1

Amados irmãos e irmãs!

Mais uma vez vamos encontrar-nos com a Páscoa do Senhor! Todos os anos, com a finalidade de nos preparar para ela, Deus na sua providência oferece-nos a Quaresma, «sinal sacramental da nossa conversão», que anuncia e torna possível voltar ao Senhor de todo o coração e com toda a nossa vida.

Com a presente mensagem desejo, este ano também, ajudar toda a Igreja a viver, neste tempo de graça, com alegria e verdade; faço-o deixando-me inspirar pela seguinte afirmação de Jesus, que aparece no evangelho de Mateus: «Porque se multiplicará a iniquidade, vai resfriar o amor de muitos» (24, 12).

Esta frase situa-se no discurso que trata do fim dos tempos, pronunciado em Jerusalém, no Monte das Oliveiras, precisamente onde terá início a paixão do Senhor. Dando resposta a uma pergunta dos discípulos, Jesus anuncia uma grande tribulação e descreve a situação em que poderia encontrar-se a comunidade dos crentes: à vista de fenómenos espaventosos, alguns falsos profetas enganarão a muitos, a ponto de ameaçar apagar-se, nos corações, o amor que é o centro de todo o Evangelho.

Papa Francisco

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“Se queres, tens o poder de me purificar”

Nestes últimos Domingos, o Evangelho, segundo a narração de Marcos, apresenta-nos Jesus que cura os doentes de todos os tipos. Nenhuma doença é causa de impureza: a doença certamente envolve toda a pessoa, mas de modo algum afecta ou impede o seu relacionamento com Deus. Pelo contrário, uma pessoa doente pode estar ainda mais unida a Deus. O pecado, esse sim, torna-nos impuros! O egoísmo, o orgulho, o entrar no mundo da corrupção, essas são doenças do coração das quais é preciso sermos purificados, dirigindo-nos a Jesus como o leproso: “Se queres, tens o poder de me purificar”. Ao ouvir isto Jesus sente compaixão. Não se entende a obra de Cristo, não se entende o próprio Cristo, se não entrarmos no seu coração cheio de compaixão. É isso que o leva a estender a mão ao homem que sofre de lepra, tocá-lo e dizer-lhe: “Eu quero, fica purificado”.

O facto mais perturbador é que Jesus toca o leproso, porque isso era absolutamente proibido pela lei mosaica. Tocar um leproso significava tornar-se impuro. Mas, neste caso, o influxo não vai do leproso para Jesus para transmitir o contágio, mas de Jesus para o leproso para lhe dar a purificação. Nesta cura, admiramos, além da compaixão, também a audácia de Jesus, que não se preocupa nem com o contágio, nem com as prescrições, mas é movido somente pela vontade de libertar aquele homem da maldição que o oprime.

Todas as vezes que nos aproximamos do Sacramento da Reconciliação com o coração arrependido, o Senhor repete também a nós: “Eu quero, fica purificado!”. Assim a lepra do pecado desaparece, voltamos a viver com alegria o nosso relacionamento filial com Deus e somos readmitidos plenamente na comunidade.

Papa Francisco, Resumo do Angelus de 11 de Fevereiro de 2018

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6º Domingo do Tempo Comum – Ano B

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos (Mc 1, 40-45)

Naquele tempo, vem ter com Jesus um leproso, suplicando-lhe de joelhos: “Se quiseres, podes purificar-me”. Jesus, enchendo-se de compaixão, estendeu a mão, tocou-o e diz-lhe: “Quero, fica purificado”. E logo o deixou a lepra e ele ficou purificado. Advertindo-o severamente, Jesus despediu-o, dizendo-lhe: “Olha, não digas nada a ninguém, mas vai mostrar-te ao sacerdote e oferece pela tua purificação o que Moisés ordenou, a fim de lhes servir de testemunho”. Ele, porém, logo que partiu, começou a apregoar muitas coisas e a divulgar a palavra, a ponto de Jesus já não poder entrar abertamente em nenhuma cidade; mas ficava fora, em lugares desertos, e vinham ter com Ele de toda a parte.

Reflexão

O Evangelho do 6º Domingo do Tempo Comum (Ano B) (Mc 1, 40-45) apresenta uma cena comovente. Contra todas as regras estabelecidas, que impunham aos leprosos o isolamento e a distância de Deus (não podiam frequentar o Templo ou a sinagoga. Na época, os leprosos eram tidos como pecadores, vítimas de um justo castigo de Deus, particularmente grave) e dos homens (não podiam entrar nas povoações), e o grito de “impuro, impuro” que deviam trazer nos lábios, para que as pessoas, ao ouvir o grito, deles se distanciassem o mais possível, eis um leproso que ousa aproximar-se de Jesus e coloca-se de joelhos diante dele, implorando que o cure. Na Bíblia, a lepra não é apenas o que hoje entendemos por este termo, mas também qualquer doença de pele com aspecto repulsivo. Separados de Deus e dos homens, os leprosos eram considerados mortos vivos, sendo, por isso, a sua cura comparada a uma ressurreição.

O leproso diz a Jesus: “Se quiseres, podes purificar-me”. “Quero: fica purificado”, responde-lhe Jesus, tocando-o com a mão e purificando-o da lepra. “Vemos aqui, como que concentrada, toda a história da salvação: aquele gesto de Jesus, que estende a mão e toca o corpo chagado da pessoa que o invoca, manifesta perfeitamente a vontade de Deus, de curar a sua criatura decaída, restituindo-lhe a vida ‘em abundância’ (Jo 10, 10), a vida eterna, repleta, feliz. Cristo é ‘a mão’ de Deus estendida à humanidade, para que a mesma consiga sair das areias movediças da doença e da morte, erguer-se sobre a rocha sólida do amor divino (cf. Sl 39, 2-3)” (Bento XVI).

Um maravilhoso comentário existencial deste Evangelho é a célebre experiência de São Francisco de Assis, ao encontrar-se com um leproso na planície de Assis, que ele resume no início do seu Testamento: “Foi assim que o Senhor concedeu a mim, Frei Francisco, começar a fazer penitência: como eu estivesse em pecado, parecia-me sobremaneira amargo ver leprosos. E o Senhor me conduziu entre eles, e fiz misericórdia com eles. E afastando-me deles, aquilo que me parecia amargo se me converteu em doçura da alma e do corpo; e, depois demorei só um pouco e saí do mundo” (Testamento de São Francisco 1-4).

Palavra para o caminho

O Evangelho da cura do leproso lança-nos um desafio: se quisermos ser verdadeiros discípulos de Jesus, somos chamados a tornar-nos, em união com Ele, instrumentos do seu amor misericordioso.

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“A boca de Cristo é o Evangelho”. A homilia

Prezados irmãos e irmãs, bom dia!

Continuemos as catequeses sobre a Santa Missa. Tínhamos chegado às Leituras.

O diálogo entre Deus e o seu povo, desenvolvido na Liturgia da Palavra da Missa, alcança o ápice na proclamação do Evangelho. Precede-o o cântico do Aleluia — ou então, na Quaresma, outra aclamação — com o qual «a assembleia dos fiéis acolhe e saúda o Senhor que está prestes a falar no Evangelho». Do mesmo modo que os mistérios de Cristo iluminam toda a revelação bíblica, assim, na Liturgia da Palavra, o Evangelho constitui a luz para compreender o sentido dos textos bíblicos que o precedem, tanto do Antigo como do Novo Testamento. Com efeito, «de toda a Escritura, assim como de toda a celebração litúrgica, Cristo é o centro e a plenitude». Jesus Cristo está sempre no centro, sempre.

Por isso, a própria liturgia distingue o Evangelho das outras leituras, circundando-o de honra e veneração especiais. Com efeito, a sua leitura é reservada ao ministro ordenado, que no final beija o Livro; pomo-nos à escuta de pé, traçando um sinal da cruz na testa, nos lábios e no peito; os círios e o incenso honram Cristo que, mediante a leitura evangélica, faz ressoar a sua palavra eficaz. Destes sinais a assembleia reconhece a presença de Cristo, o qual lhe dirige a “boa notícia” que converte e transforma. Tem lugar um discurso direto, como atestam as aclamações com as quais se responde à proclamação: «Glória a Vós, ó Senhor» e «Louvor a Vós, ó Cristo». Levantamo-nos para ouvir o Evangelho: ali é Cristo quem nos fala. É por isso que prestamos atenção, porque se trata de um diálogo direto. É o Senhor quem nos fala.

Portanto, na Missa não lemos o Evangelho para saber o que aconteceu, mas ouvimos o Evangelho para tomar consciência do que fez e disse Jesus outrora; e aquela Palavra é viva, a Palavra de Jesus que está no Evangelho é viva e chega ao meu coração. Por isso, ouvir o Evangelho é muito importante, com o coração aberto, porque é Palavra viva. Santo Agostinho escreve que «a boca de Cristo é o Evangelho. Ele reina no céu, mas não cessa de falar na terra». Se é verdade que na Liturgia «Cristo ainda anuncia o Evangelho», consequentemente, participando na Missa, devemos dar-lhe uma resposta. Nós ouvimos o Evangelho e devemos dar uma resposta na nossa vida.

Para transmitir a sua mensagem, Cristo serve-se inclusive da palavra do sacerdote que, após o Evangelho, pronuncia a homilia. Recomendada vivamente pelo Concílio Vaticano II como parte da própria Liturgia, a homilia não é um discurso de circunstância — nem sequer uma catequese, como esta que agora faço — nem uma conferência, nem sequer uma lição; a homilia é outra coisa. O que é a homilia? É «um retomar este diálogo que já está estabelecido entre o Senhor e o seu povo», para que seja posta em prática na vida. A autêntica exegese do Evangelho é a nossa vida santa! A Palavra do Senhor termina a sua corrida fazendo-se carne em nós, traduzindo-se em obras, como aconteceu em Maria e nos Santos. Recordai aquilo que eu disse na última vez, a Palavra do Senhor entra pelos ouvidos, chega ao coração e vai às mãos, às boas obras. E também a homilia segue a Palavra do Senhor, fazendo inclusive este percurso para nos ajudar, a fim de que a Palavra do Senhor chegue às mãos, passando pelo coração.

Já abordei o tema da homilia na Exortação Evangelii gaudium, onde recordei que o contexto litúrgico «exige que a pregação oriente a assembleia, e também o pregador, para uma comunhão com Cristo na Eucaristia, que transforme a vida».

Quem profere a homilia deve cumprir bem o seu ministério — aquele que prega, sacerdote, diácono ou bispo — oferecendo um serviço real a todos aqueles que participam na Missa, mas também quantos o ouvem, devem desempenhar a sua parte. Antes de tudo, prestando a devida atenção, ou seja, assumindo as justas disposições interiores, sem pretensões subjetivas, consciente de que cada pregador tem qualidades e limites. Se às vezes há motivos para se entediar, porque a homilia é longa, ou não está centrada, ou é incompreensível, outras vezes, ao contrário, o obstáculo é o preconceito. E quem pronuncia a homilia deve estar consciente de que não faz algo próprio, mas prega dando voz a Jesus, prega a Palavra de Jesus. E a homilia deve ser bem preparada, deve ser breve, breve! Dizia-me um sacerdote que certa vez tinha ido a outra cidade, onde moravam os pais, e o pai disse-lhe: “Sabes, estou feliz, porque com os meus amigos encontramos uma igreja onde se celebra a Missa sem homilia!”. E quantas vezes vemos que na homilia alguns adormecem, outros conversam, ou saem para fumar um cigarro… Por isso, por favor, que a homilia seja curta, mas bem preparada. E como se prepara uma homilia, caros sacerdotes, diáconos, bispos? Como se prepara? Com a oração, com o estudo da Palavra de Deus e fazendo uma síntese clara e breve, não deve superar 10 minutos, por favor! Concluindo, podemos dizer que na Liturgia da Palavra, mediante o Evangelho e a homilia, Deus dialoga com o seu povo, que o ouve com atenção e veneração e, ao mesmo tempo, reconhece-o presente e ativo. Portanto, se nos pusermos à escuta da “boa notícia”, seremos convertidos e transformados por ela e, consequentemente, capazes de transformar a nós mesmos e ao mundo. Porquê? Porque a Boa Notícia, a Palavra de Deus entra pelos ouvidos, vai ao coração e chega às mãos para fazer boas obras.

Papa Francisco, Audiência Geral, 7 de Fevereiro de 2018

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Quaresma de 2018. Mensagem do Papa Francisco

MENSAGEM DO PAPA FRANCISCO
PARA A QUARESMA DE 2018

«Porque se multiplicará a iniquidade,
vai resfriar o amor de muitos» (Mt 24, 12)

Amados irmãos e irmãs!

Mais uma vez vamos encontrar-nos com a Páscoa do Senhor! Todos os anos, com a finalidade de nos preparar para ela, Deus na sua providência oferece-nos a Quaresma, «sinal sacramental da nossa conversão», que anuncia e torna possível voltar ao Senhor de todo o coração e com toda a nossa vida.

Com a presente mensagem desejo, este ano também, ajudar toda a Igreja a viver, neste tempo de graça, com alegria e verdade; faço-o deixando-me inspirar pela seguinte afirmação de Jesus, que aparece no evangelho de Mateus: «Porque se multiplicará a iniquidade, vai resfriar o amor de muitos» (24, 12).

Esta frase situa-se no discurso que trata do fim dos tempos, pronunciado em Jerusalém, no Monte das Oliveiras, precisamente onde terá início a paixão do Senhor. Dando resposta a uma pergunta dos discípulos, Jesus anuncia uma grande tribulação e descreve a situação em que poderia encontrar-se a comunidade dos crentes: à vista de fenómenos espaventosos, alguns falsos profetas enganarão a muitos, a ponto de ameaçar apagar-se, nos corações, o amor que é o centro de todo o Evangelho.

Os falsos profetas

Escutemos este trecho, interrogando-nos sobre as formas que assumem os falsos profetas?

Uns assemelham-se a «encantadores de serpentes», ou seja, aproveitam-se das emoções humanas para escravizar as pessoas e levá-las para onde eles querem. Quantos filhos de Deus acabam encandeados pelas adulações dum prazer de poucos instantes que se confunde com a felicidade! Quantos homens e mulheres vivem fascinados pela ilusão do dinheiro, quando este, na realidade, os torna escravos do lucro ou de interesses mesquinhos! Quantos vivem pensando que se bastam a si mesmos e caem vítimas da solidão!

Outros falsos profetas são aqueles «charlatães» que oferecem soluções simples e imediatas para todas as aflições, mas são remédios que se mostram completamente ineficazes: a quantos jovens se oferece o falso remédio da droga, de relações passageiras, de lucros fáceis mas desonestos! Quantos acabam enredados numa vida completamente virtual, onde as relações parecem mais simples e ágeis, mas depois revelam-se dramaticamente sem sentido! Estes impostores, ao mesmo tempo que oferecem coisas sem valor, tiram aquilo que é mais precioso como a dignidade, a liberdade e a capacidade de amar. É o engano da vaidade, que nos leva a fazer a figura de pavões para, depois, nos precipitar no ridículo; e, do ridículo, não se volta atrás. Não nos admiremos! Desde sempre o demónio, que é «mentiroso e pai da mentira» (Jo 8, 44), apresenta o mal como bem e o falso como verdadeiro, para confundir o coração do homem. Por isso, cada um de nós é chamado a discernir, no seu coração, e verificar se está ameaçado pelas mentiras destes falsos profetas. É preciso aprender a não se deter no nível imediato, superficial, mas reconhecer o que deixa dentro de nós um rasto bom e mais duradouro, porque vem de Deus e visa verdadeiramente o nosso bem.

Um coração frio

Na Divina Comédia, ao descrever o Inferno, Dante Alighieri imagina o diabo sentado num trono de gelo; habita no gelo do amor sufocado. Interroguemo-nos então: Como se resfria o amor em nós? Quais são os sinais indicadores de que o amor corre o risco de se apagar em nós?

O que apaga o amor é, antes de mais nada, a ganância do dinheiro, «raiz de todos os males» (1 Tm 6, 10); depois dela, vem a recusa de Deus e, consequentemente, de encontrar consolação n’Ele, preferindo a nossa desolação ao conforto da sua Palavra e dos Sacramentos. Tudo isto se permuta em violência que se abate sobre quantos são considerados uma ameaça para as nossas «certezas»: o bebé nascituro, o idoso doente, o hóspede de passagem, o estrangeiro, mas também o próximo que não corresponde às nossas expetativas.

A própria criação é testemunha silenciosa deste resfriamento do amor: a terra está envenenada por resíduos lançados por negligência e por interesses; os mares, também eles poluídos, devem infelizmente guardar os despojos de tantos náufragos das migrações forçadas; os céus – que, nos desígnios de Deus, cantam a sua glória – são sulcados por máquinas que fazem chover instrumentos de morte.

E o amor resfria-se também nas nossas comunidades: na Exortação apostólica Evangelii gaudium procurei descrever os sinais mais evidentes desta falta de amor. São eles a acédia egoísta, o pessimismo estéril, a tentação de se isolar empenhando-se em contínuas guerras fratricidas, a mentalidade mundana que induz a ocupar-se apenas do que dá nas vistas, reduzindo assim o ardor missionário.

Que fazer?

Se porventura detetamos, no nosso íntimo e ao nosso redor, os sinais acabados de descrever, saibamos que, a par do remédio por vezes amargo da verdade, a Igreja, nossa mãe e mestra, nos oferece, neste tempo de Quaresma, o remédio doce da oração, da esmola e do jejum.

Dedicando mais tempo à oração, possibilitamos ao nosso coração descobrir as mentiras secretas, com que nos enganamos a nós mesmos, para procurar finalmente a consolação em Deus. Ele é nosso Pai e quer para nós a vida.

A prática da esmola liberta-nos da ganância e ajuda-nos a descobrir que o outro é nosso irmão: aquilo que possuo, nunca é só meu. Como gostaria que a esmola se tornasse um verdadeiro estilo de vida para todos! Como gostaria que, como cristãos, seguíssemos o exemplo dos Apóstolos e víssemos, na possibilidade de partilhar com os outros os nossos bens, um testemunho concreto da comunhão que vivemos na Igreja. A este propósito, faço minhas as palavras exortativas de São Paulo aos Coríntios, quando os convidava a tomar parte na coleta para a comunidade de Jerusalém: «Isto é o que vos convém» (2 Cor 8, 10). Isto vale de modo especial na Quaresma, durante a qual muitos organismos recolhem coletas a favor das Igrejas e populações em dificuldade. Mas como gostaria também que no nosso relacionamento diário, perante cada irmão que nos pede ajuda, pensássemos: aqui está um apelo da Providência divina. Cada esmola é uma ocasião de tomar parte na Providência de Deus para com os seus filhos; e, se hoje Ele Se serve de mim para ajudar um irmão, como deixará amanhã de prover também às minhas necessidades, Ele que nunca Se deixa vencer em generosidade?

Por fim, o jejum tira força à nossa violência, desarma-nos, constituindo uma importante ocasião de crescimento. Por um lado, permite-nos experimentar o que sentem quantos não possuem sequer o mínimo necessário, provando dia a dia as mordeduras da fome. Por outro, expressa a condição do nosso espírito, faminto de bondade e sedento da vida de Deus. O jejum desperta-nos, torna-nos mais atentos a Deus e ao próximo, reanima a vontade de obedecer a Deus, o único que sacia a nossa fome.

Gostaria que a minha voz ultrapassasse as fronteiras da Igreja Católica, alcançando a todos vós, homens e mulheres de boa vontade, abertos à escuta de Deus. Se vos aflige, como a nós, a difusão da iniquidade no mundo, se vos preocupa o gelo que paralisa os corações e a ação, se vedes esmorecer o sentido da humanidade comum, uni-vos a nós para invocar juntos a Deus, jejuar juntos e, juntamente connosco, dar o que puderdes para ajudar os irmãos!

O fogo da Páscoa

Convido, sobretudo os membros da Igreja, a empreender com ardor o caminho da Quaresma, apoiados na esmola, no jejum e na oração. Se por vezes parece apagar-se em muitos corações o amor, este não se apaga no coração de Deus! Ele sempre nos dá novas ocasiões, para podermos recomeçar a amar.

Ocasião propícia será, também este ano, a iniciativa «24 horas para o Senhor», que convida a celebrar o sacramento da Reconciliação num contexto de adoração eucarística. Em 2018, aquela terá lugar nos dias 9 e 10 de março – uma sexta-feira e um sábado –, inspirando -se nestas palavras do Salmo 130: «Em Ti, encontramos o perdão» (v. 4). Em cada diocese, pelo menos uma igreja ficará aberta durante 24 horas consecutivas, oferecendo a possibilidade de adoração e da confissão sacramental.

Na noite de Páscoa, reviveremos o sugestivo rito de acender o círio pascal: a luz, tirada do «lume novo», pouco a pouco expulsará a escuridão e iluminará a assembleia litúrgica. «A luz de Cristo, gloriosamente ressuscitado, nos dissipe as trevas do coração e do espírito», para que todos possamos reviver a experiência dos discípulos de Emaús: ouvir a palavra do Senhor e alimentar-nos do Pão Eucarístico permitirá que o nosso coração volte a inflamar-se de fé, esperança e amor.

Abençoo-vos de coração e rezo por vós. Não vos esqueçais de rezar por mim.

Vaticano, 1 de Novembro de 2017

Solenidade de Todos os Santos

Francisco

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O percurso da Palavra de Deus em nós

A Palavra de Deus percorre um caminho dentro de nós. Escutamo-la com os ouvidos e ela passa para o coração; não permanece nos ouvidos, mas deve chegar ao coração; e do coração às mãos, às boas obras. Eis o percurso da Palavra de Deus: dos ouvidos ao coração e às mãos.

Papa Francisco

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