6º Domingo da Páscoa – Ano C

Mas o Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome,

vos ensinará todas as coisas e vos recordará tudo o que Eu vos disse (Jo 14, 26)

– Somos como crianças que não sabem ler o livro da vida, porque desconhecemos as letras deste alfabeto e sentimo-nos muitas vezes desorientados. Então, precisamos de aprender a ler. O Espírito Santo é o professor que nos pode ensinar, porque a sua sabedoria vem do próprio Deus. Portanto, o Espírito Santo é aquele que está ao nosso lado, para nos recordar a palavra de Jesus que escutámos, para nos consolar, para nos reanimar, para nos defender dos tumultos do mundo.

Como saber que é a voz do Espírito Santo? É simples: é a voz que nos dá paz. A criança consegue diferenciar a voz da mãe, mesmo antes de a ver. Porquê? Porque a ama. O amor produz conhecimento e o conhecimento produz amor. Ao longo da nossa existência, ouvimos muitas vozes. A voz de Jesus é como a voz da mãe, que pressente a necessidade do filho, porque “o coração tem razões que a razão desconhece”. Quando Jesus fala, a paz inunda o nosso ser. Deixamos de ter medo. A voz de Jesus penetra no nosso mais íntimo ser e dá um sentido à vida.

– “O Evangelho deste Domingo, tirado do capítulo 14 de São João, oferece-nos um retrato espiritual implícito da Virgem Maria, onde Jesus diz: “Se alguém me ama, guarda a minha Palavra; meu Pai amá-lo-á, viremos a ele e nele faremos morada” (Jo 14, 23). Estas expressões são dirigidas aos discípulos, mas podem ser aplicadas ao máximo grau precisamente Àquela que é a primeira e perfeita discípula de Jesus. Efectivamente, Maria foi a primeira que observou de maneira plena a palavra do seu Filho, demonstrando deste modo que O ama não apenas como Mãe, mas ainda antes como serva humilde e obediente; por isso, Deus Pai amou-a e nela a Santíssima Trindade fez a sua morada. Além disso, quando Jesus promete aos seus amigos que o Espírito Santo os assistirá, ajudando-os a recordar cada uma das suas palavras e a compreendê-las profundamente (cf. Jo 14, 26), como não pensar em Maria, que no seu coração, templo do Espírito, meditava e interpretava fielmente tudo aquilo que o seu Filho dizia e fazia?” (Bento XVI).

– “Ó Espírito Santo, dai-me um coração grande, aberto à vossa Palavra silenciosa, mas forte e inspiradora, fechado a todas as ambições mesquinhas, alheio a qualquer desprezível competição humana, compenetrado do sentido da Santa Igreja.

Ó Espírito Santo, dai-me um coração grande, desejoso de se tornar semelhante ao coração do Senhor Jesus. Dai-me um coração grande e forte para amar a todos, para servir a todos, para sofrer por todos! Um coração grande e forte para superar todas as provações, todo o tédio, todo o cansaço, toda a desilusão, toda a ofensa! Um coração grande e forte, constante até ao sacrifício, quando este for necessário!

Ó Espírito Santo, dai-me um coração cuja felicidade seja palpitar com o coração de Cristo e cumprir humilde, fiel e firmemente a vontade do Pai” (São Paulo VI).

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Não estás só nem abandonado(a)

Se interiorizei a certeza de ser amado, se mesmo no meio dos medos recordo e assumo que Deus está sempre comigo, se recupero, mesmo contra os meus sentimentos actuais, a presença amiga de Deus, então eu consigo vencer o medo e a angústia de existir. Porque o maior medo está ligado à solidão e ao abandono.

Vasco P. Magalhães, sj

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O grande anúncio para todos os jovens

Eis a primeira verdade que quero dizer a cada um: «Deus ama-te». Mesmo que já o tenhas ouvido – não importa! –, quero recordar-to: Deus ama-te. Nunca duvides disto na tua vida, aconteça o que acontecer. Em toda e qualquer circunstância, és infinitamente amado.

A segunda verdade é que, por amor, Cristo entregou-Se até ao fim para te salvar. Os seus braços abertos na cruz são o sinal mais precioso dum amigo capaz de levar até ao extremo o seu amor: «Ele, que amava os seus que estavam no mundo, levou o seu amor por eles até ao extremo» (Jo 13, 1).

Mas há uma terceira verdade, que é inseparável da anterior: Ele vive! É preciso recordá-lo com frequência, porque corremos o risco de tomar Jesus Cristo apenas como um bom exemplo do passado, como uma recordação, como Alguém que nos salvou há dois mil anos. De nada nos aproveitaria isto: deixava-nos como antes, não nos libertaria. Aquele que nos enche com a sua graça, Aquele que nos liberta, Aquele que nos transforma, Aquele que nos cura e consola é Alguém que vive. É Cristo ressuscitado, cheio de vitalidade sobrenatural, revestido de luz infinita. Por isso dizia São Paulo: «Se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé» (1 Cor 15, 17).

Papa Francisco, Cristo vive, nnº 112, 118, 124

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5º Domingo da Páscoa (Ano C): “Dou-vos um mandamento novo”

“Dou-vos um mandamento novo”

– Dou-vos um mandamento novo: que vos ameis uns aos outros; assim como Eu vos amei, amai-vos também uns aos outros (Jo 13, 34).

– O amor que Ele nos teve e tem me espanta a mim mais e me desatina, sendo nós o que somos (Santa Teresa de Jesus).

– O amor que se manifestou na Cruz de Cristo e que Ele nos chama a viver é a única força que transforma o nosso coração de pedra num coração de carne; a única força capaz de transformar o nosso coração é o amor de Jesus, se nós também amarmos com este amor. E este amor torna-nos capazes de amar os nossos inimigos e perdoar aos que nos ofenderam…

O amor de Jesus faz-nos ver o outro como um membro actual ou futuro da comunidade dos amigos de Jesus; estimula-nos ao diálogo e ajuda-nos a escutar-nos e a conhecer-nos reciprocamente. O amor abre-nos para o outro, tornando-se a base dos relacionamentos humanos. Torna-nos capazes de superar as barreiras das próprias fraquezas e preconceitos. O amor de Jesus em nós cria pontes, ensina novos caminhos, desencadeia o dinamismo da fraternidade (Papa Francisco, Regina Coeli, 19 de Maio, 2019).

– A primeira coisa que os discípulos experimentaram é que Jesus amou-os como amigos: «Não vos chamo servos… a vós que vos tenho chamado amigos». Na Igreja, temos que nos amar simplesmente como amigos e amigas. E entre amigos cuida-se a igualdade, a proximidade e o apoio mútuo. Ninguém está acima de ninguém. Nenhum amigo é senhor dos seus amigos.

Por isso, Jesus corta pela raiz as ambições dos Seus discípulos quando os vê a discutir quem é o primeiro. A procura de protagonismos interesseiros quebra a amizade e a comunhão. Jesus lembra-lhes o seu estilo: «Eu não vim para ser servido, mas para servir». Entre amigos, ninguém tem de se impor. Todos devem estar dispostos a servir e colaborar (José Antonio Pagola).

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Maria, a jovem de Nazaré, a mulher do “Sim”

Sempre impressiona a força do “sim” de Maria, jovem. A força daquele “faça-se em Mim”, que disse ao anjo. Foi uma coisa distinta duma aceitação passiva ou resignada. Foi qualquer coisa distinta daquele “sim” que por vezes se diz: “Bem; provemos a ver que sucede”. Maria não conhecia a frase “provemos a ver que sucede”. Era determinada: compreendeu do que se tratava e disse “sim”, sem rodeios de palavras. Foi algo mais, qualquer coisa de diferente. Foi o “sim” de quem quer comprometer-se e arriscar, de quem quer apostar tudo, sem ter outra garantia para além da certeza de saber que é portadora duma promessa. Pergunto a cada um de vós: Sentes-te portador duma promessa? Que promessa trago no meu coração, devendo dar-lhe continuidade? Maria teria, sem dúvida, uma missão difícil, mas as dificuldades não eram motivo para dizer “não”. Com certeza teria complicações, mas não haveriam de ser idênticas às que se verificam quando a covardia nos paralisa por não vermos, antecipadamente, tudo claro ou garantido. Maria não comprou um seguro de vida! Maria embarcou no jogo e, por isso, é forte, é uma “influenciadora”, é a “influenciadora” de Deus! O “sim” e o desejo de servir foram mais fortes do que as dúvidas e dificuldades.

Papa Francisco, Jesus vive, nº 44

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O coração de cada jovem deve ser considerado «terra santa»

A clarividência de quem foi chamado a ser pai, pastor ou guia dos jovens consiste em encontrar a pequena chama que continua a arder, a cana que parece quebrar-se (cf. Is 42, 3) mas ainda não partiu. É a capacidade de individuar percursos onde outros só veem muros, é saber reconhecer possibilidades onde outros só veem perigos. Assim é o olhar de Deus Pai, capaz de valorizar e nutrir os germes de bem semeados no coração dos jovens. Por isso, o coração de cada jovem deve ser considerado «terra santa», diante da qual nos devemos «descalçar» para poder aproximar-nos e penetrar no Mistério.

Papa Francisco, Cristo vive, nº 67

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O amor maduro

Toda a gente usa a palavra “amor”. Mas tantas vezes abusa! Estamos sempre a cair na conta de que não estamos a falar do mesmo. Pode dizer-se que, muito para além das simpatias e das antipatias, o amor adulto é querer e fazer o bem do outro. E isso exige três coisas: ser inteligente, ser gratuito e ser eficaz! Inteligente para perceber bem do que o outro precisa: que lhe fale, que me cale, que exija, peça, dê… Gratuito, porque a busca da retribuição tira a liberdade ao outro, compra-o! Eficaz, porque só com intenções o mundo não cresce, confunde-se e decresce.

Vasco P. Magalhães, sj

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A bênção de Maria chama-se Jesus

Solenidade de Nossa Senhora de Fátima

Homilia da Missa da peregrinação de 13 de Maio de 2019

Caros irmãos e irmãs em Cristo, damos graças ao nosso Deus amoroso por nos ter aqui reunido como comunidade ou família de fé nesta Solenidade de Nossa Senhora de Fátima. O tema bíblico desta peregrinação anual é retirado da Primeira Carta de Pedro: “Sois povo de Deus”. Esta palavra realiza-se agora na nossa assembleia. Somos, de facto, povo de Deus, reunidos pelo Espírito Santo, alimentados pela Palavra do Senhor, pela Eucaristia e pela missão comum.

O Evangelho de hoje relata a reação das pessoas que viram as coisas belas e maravilhosas que Jesus realizou. Ter-se-ão, provavelmente questionado quem seriam os pais deste homem tão talentoso. E do meio da multidão uma mulher grita: “Felizes as entranhas que te trouxeram e os seios que te amamentaram!”. Por outras palavras, “como deve ser feliz e abençoada a tua mãe por ter um filho como tu”. São palavras que habitualmente se dizem quando os estudantes terminam os estudos com distinção, quando uma pessoa tem sucesso na sua profissão ou quando alguém se torna padre, irmã religiosa ou bispo. As pessoas dizem: “os teus pais têm sorte; devem estar muito orgulhosos de ti”. E, de facto, Maria foi abençoada por ser a mãe de Jesus. Toda a mãe é abençoada por trazer no seu ventre vida humana e por alimentar essa vida de forma a tornar-se num ser humano bom. A bênção de Maria chama-se Jesus.

Mas Jesus realça um outro aspecto da maternidade de Maria, que para Ele é a origem da sua verdadeira felicidade. Ele respondeu: “Felizes, antes, os que escutam a Palavra de Deus e a põem em prática”. A afirmação de Jesus é semelhante às palavras que Isabel dirigiu a Maria na visitação: “Feliz de ti que acreditaste, porque se vai cumprir tudo o que te foi dito da parte do Senhor”. Jesus e Isabel sabem que a maternidade de Maria não consiste apenas em dar à luz um filho biologicamente e cuidar bem dele. A maternidade de Maria foi um acto de fé, ao aceitar o convite de Deus para ser a mãe do Filho de Deus. Maria tornou-se mãe pela fé, do mesmo modo que José se tornou pai de Jesus pela fé e pela obediência. Maria foi a serva obediente cuja total entrega e disponibilidade a Deus fez dela a Mãe do Filho de Deus. A sua resposta ao Anjo Gabriel retrata essa bênção: “Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra”. Deus abençoou Maria escolhendo-a entre muitas mulheres para conceber o Filho de Deus. A resposta de fé que Maria deu à palavra de Deus, pondo em prática essa fé, tornou completa a bênção de Deus. Ela é a mãe de Jesus na fé e na carne. Maria e José educaram Jesus na observância da fé judaica, levaram-no a Jerusalém para a festa da Páscoa. Jesus estudou e meditou as Escrituras e, através delas, descobriu a sua missão. Ia à sinagoga regularmente; rezava por longas horas em lugares isolados; amava e servia os pobres, os excluídos, os estrangeiros; mostrou o rosto de Deus aos pecadores. Maria transmitiu ao seu Filho a sua fé e a sua forma de escutar e guardar a Palavra de Deus.

Maria mostra-nos o caminho para encontrar a verdadeira bênção

O nosso mundo de hoje tem imagens de uma vida “abençoada”: muito dinheiro, o último modelo de roupas, carros, perfumes e aparelhos eletrónicos, fama, influência, segurança. Estes não são desejos maus, mas Maria, nossa Mãe, faz-nos parar e fazer uma auto-avaliação. Será que a fé ainda tem um lugar importante no nosso desejo de uma vida boa? Consideramo-nos abençoados quando abdicamos dos nossos planos, como Maria e José, para que a vontade de Deus se possa concretizar? Será que os pais alimentam os seus filhos não apenas com comida, medicamentos e formação, mas também com a Palavra de Deus, os Sacramentos e o serviço aos pobres? Será que os pais assumem com seriedade a responsabilidade de educar os seus filhos na fé? Será que os pais e os mais velhos dão bom exemplo às crianças e aos jovens em como viver a fé nas decisões e acções da vida quotidiana?

Como modelo e exemplo da Igreja, a nossa Santíssima Mãe ensina toda a Igreja a encontrar o caminho da verdadeira bênção. São Paulo recorda-nos que, como Maria, fomos todos escolhidos por Deus, cada um com um chamamento único. Tal chamamento é a maneira de Deus nos abençoar. O nosso chamamento é a bênção de Deus. A fim de completar a bênção do chamamento de Deus, escutemos a palavra de Deus e ponhamos a Sua vontade em prática. Deste modo, o legado que deixaremos não será apenas sucesso, conquistas, estabilidade financeira e boa reputação, mas deixaremos como legado a pessoa de Jesus, a Sua palavra, a Sua presença, o Seu amor pelos abandonados e pelos que sofrem, a Sua solidariedade com os famintos, os sedentos, os despidos, os sem-abrigo, os estrangeiros e os prisioneiros. Mesmo enfrentando dificuldades e perseguições, seremos como a Mulher do Livro do Apocalipse, resplandecente de glória porque cuidou do seu Filho. Não há maior bênção do que ser chamado por Deus a servir Jesus, a fazer Jesus conhecido, amado e servido. Isto só acontecerá se, como Maria, estivermos atentos à Palavra de Deus, se recebermos Jesus na nossa vida e se vivermos como Jesus viveu. Á men.

Cardeal Luis Tagle, Arcebispo de Manila

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A esperança alimenta a alegria

A minha maior alegria é a esperança da claridade futura. A fé do Apocalipse deve transmitir-nos maior firmeza quando o que vemos exteriormente, em nós e nos outros, nos pode tirar o alento.

Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein)

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A luz de Fátima

Naquele 13 de maio, num recôndito canto da serra, três crianças portuguesas estavam a rezar o terço pelos soldados idos para a guerra. Surpreende-os um inesperado lampejar no céu azul, primeiro um clarão e depois outro. Quando erguem os olhos, veem sobre uma azinheira uma Senhora mais resplandecente que o Sol.

Não devemos esquecer que é no cenário de um mundo desumanizado, que consuma o grosso dos seus esforços na fabricação da morte, que se faz ouvir a mensagem de Fátima.

De um lado temos a primeira guerra mundial e a química da história. Do outro temos a visão que três pobres crianças têm de um coração ameaçado, apertado por espinhos, mas com a promessa de que sairá vencedor: «No fim, o meu Coração Imaculado triunfará».

O que nos sugere Fátima? A mensagem é essencial mas penetrante: comprometer-se na transformação orante da morfologia do mundo; assumir um modo de viver alternativo às formas injustas e sem esperança do presente; reconhecer a centralidade do coração, do Coração Imaculado, como modelo para uma reencontrada ética da relação e do cuidado.

Fátima, este imenso delta em que vem desaguar a humanidade ferida e à procura, ensina-nos assim como se ilumina um mundo mergulhado nas trevas.

D. José Tolentino Mendonça

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