Não tenhas receio, crê somente

Caríssimos irmãos e irmãs, bom dia!

Hoje gostaria de pôr em confronto a esperança cristã com a realidade da morte, uma realidade que a nossa civilização moderna tende a cancelar cada vez mais. Assim, quando a morte chega, seja para quem está próximo seja para nós mesmos, não estamos preparados, privados até de um “alfabeto” adequado para esboçar palavras com sentido acerca do seu mistério, que contudo permanece. Mesmo se os primeiros sinais de civilização humana transitaram precisamente através deste enigma. Poderíamos dizer que o homem nasceu com o culto dos mortos.

 

Outras civilizações, antes da nossa, tiveram a coragem de a encarar. Era um acontecimento contado pelos idosos às novas gerações, como uma realidade iniludível que obrigava o homem a viver para algo absoluto. O salmo 90 recita: «Ensinai-nos a contar assim os nossos dias, para que guiemos o coração na sabedoria» (v. 12). Contar os próprios dias faz com que o coração se torne sábio! Palavras que nos reconduzem a um realismo sadio, afastando o delírio da omnipotência. O que somos? Somos «quase nada», diz outro salmo (cf. 88, 48); os nossos dias passam velozes: mesmo se vivêssemos cem anos, no final teremos a impressão de que tudo foi um sopro. Muitas vezes ouvi idosos dizerem: “Para mim a vida passou como um sopro…”.

Assim a morte põe a nossa vida a nu. Faz-nos descobrir que as nossas ações de orgulho, ira e ódio eram vaidade: pura vaidade. Apercebemo-nos, desapontados, que não amámos o suficiente e que não procurámos o que era essencial. E, ao contrário, vemos o que de verdadeiramente bom semeamos: os afetos pelos quais nos sacrificamos, e que agora nos levam pela mão.

Jesus iluminou o mistério da nossa morte. Com o seu comportamento, autoriza-nos a sentir-nos pesarosos quando uma pessoa querida falece. Ele ficou «profundamente» perturbado diante do túmulo do amigo Lázaro, e «desatou a chorar» (Jo 11, 35). Nesta sua atitude sentimos Jesus muito próximo, nosso irmão. Ele chorou pelo seu amigo Lázaro. E então Jesus reza ao Pai, fonte da vida, e ordena a Lázaro que saia do sepulcro. E assim acontece. A esperança cristã alimenta-se nesta atitude que Jesus assume contra a morte humana: mesmo estando presente na criação, ela é contudo uma cicatriz que deturpa o desígnio de amor de Deus, e o Salvador quer curar-nos dela.

Outros evangelhos narram acerca de um pai que tem a filha muito doente, e dirige-se com fé a Jesus para que a salve (cf. Mc 5, 21-24.35-43). E não há figura mais comovedora do que a de um pai ou de uma mãe com um filho doente. E Jesus encaminha-se imediatamente com aquele homem, que se chamava Jairo. A um certo ponto chega alguém da casa de Jairo, dizendo que a menina morreu, e que não há mais necessidade de incomodar o Mestre. Mas Jesus diz a Jairo: «Não tenhas receio, crê somente» (Mc 5, 36). Jesus sabe que aquele homem sente a tentação de reagir com raiva e desespero, porque a menina morreu, e recomenda-lhe que preserve a pequena chama que está acesa no seu coração: a fé. «Não tenhas receio, crê somente». “Não receies, unicamente continua a manter acesa aquela chama!”. E depois, quando chegaram a casa, despertará a menina da morte e restituí-la-á viva aos seus entes queridos.

Jesus põe-nos neste “ápice” da fé. Ao choro de Marta pela morte do irmão Lázaro contrapõe a luz de um dogma: «Eu sou a Ressurreição e a Vida; quem crê em Mim, ainda que esteja morto, viverá; e todo aquele que vive e crê em Mim nunca morrerá. Crês tu nisto?» (Jo 11, 25-26). É o que Jesus repete a cada um de nós, todas as vezes que a morte vem arrancar o tecido da vida e dos afetos. Toda a nossa existência se joga aqui, entre a vertente da fé e o precipício do medo. Jesus diz: “Eu não sou a morte, eu sou a ressurreição e a vida, crês tu nisto?, crês tu nisto?”. Nós, que hoje estamos aqui na Praça, cremos nisto?

Todos somos pequeninos e indefesos diante do mistério da morte. Contudo, que graça se naquele momento guardarmos no coração a pequena chama da fé! Jesus guiar-nos-á pela mão, assim como guiou pela mão a filha de Jairo, e repetirá mais uma vez: “Talitá kum”, “Menina, levanta-te!” (Mc 5, 41). Di-lo-á a nós, a cada um de nós: “Levanta-te, ressurge!”. Agora, eu convido-vos a fechar os olhos e a pensar naquele momento: da nossa morte. Cada um de nós pense na própria morte, e imagine aquele momento que acontecerá, quando Jesus nos pegará na mão e nos disser: “Vem, vem comigo, levanta-te”. Terminará ali a esperança e será a realidade, a realidade da vida. Refleti bem: o próprio Jesus virá ter com cada um de nós e pegar-nos-á pela mão, com a sua ternura, a sua mansidão, o seu amor. E cada um repita no seu coração a palavra de Jesus: “Levanta-te, vem. Levanta-te, vem. Levanta-te, ressurge!”.

Esta é a nossa esperança diante da morte. Para quem crê, é uma porta que se abre de par em par; para quem duvida é uma brecha de luz que filtra por uma porta que não se fechou completamente. Mas será para todos nós uma graça, quando esta luz, do encontro com Jesus, nos iluminar.

Papa Francisco, Audiência Geral, 18 de Outubro de 2017

 

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Quem viver piedosamente em Cristo sofre perseguição

Jesus não foi compreendido, mas antes rejeitado pelos grandes e poderosos deste mundo, acabando por ser morto na cruz. Também Maria, sua Mãe, sofreu muitas vezes, não apenas enquanto esteve junto à cruz.

O caminho de Jesus é também o caminho dos seus discípulos, de nós, carmelitas, chamados a viver em seu obséquio. O sofrimento, a dor, a incompreensão e as dificuldades fazem parte da existência humana, tal como no-lo recorda a Regra: “a vida do homem sobre a terra é um tempo de provação e todos os que querem viver piedosamente em Cristo sofrem perseguição” (R 18; cf. Jb 7,1; 2Tm 3,12). Estas realidades dolorosas não nos serão poupadas porque temos fé – isso seria interesse! –, mas fazem parte da nossa vida.

Pedro Bravo, O. Carm.

 

 

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Rezar com Santa Teresa de Jesus os mistérios luminosos

Mistérios Luminosos (rezados às quintas-feiras)

1º Mistério – O Baptismo de Jesus. “E do céu veio uma voz: «Tu és o meu Filho muito amado; em ti pus todo o meu agrado.»” (Lc 3, 22b).

“A voz que se ouviu no Baptismo disse que Vós comprazeis com Vosso Filho. E haveremos de ser todos iguais, Senhor?… Ó minha alma, considera o grande deleite e o imenso amor que tem por nós o Pai…, bem como o ardor com que o Espírito Santo se junta a Ele!” (Santa Teresa de Jesus, Exc 7).

1 Pai nosso, 10 Ave- Marias e 1 Glória ao Pai…

2º Mistério – Jesus nas Bodas de Caná. “Sua mãe disse aos que estavam a servir: «Fazei tudo o que Ele vos disser!» (Jo 2, 5).

“Ó Fontes divinas das graças do meu Deus. Jorrais com grande abundância para aplacar a nossa sede, quão seguro estará diante dos perigos desta vida, aquele que procura manter-se com este divino licor… (Santa Teresa de Jesus, Exc 9).

1 Pai nosso, 10 Ave- Marias e 1 Glória ao Pai…

3º Mistério – O anúncio do Reino de Deus. Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e acreditai no Evangelho!” (Mc 1, 15).

“Surgiram em mim uma grande força e uma verdadeira determinação de cumprir com todo o empenho a mínima palavra da Divina Escritura. Creio que não deixaria de enfrentar nenhum obstáculo para fazê-lo.” (Santa Teresa de Jesus, V 40, 2).

1 Pai nosso, 10 Ave- Marias e 1 Glória ao Pai…

4º Mistério – A Transfiguração. “Desceu, então, uma nuvem, cobrindo-os com a sua sombra. E da nuvem saiu uma voz: «Este é o meu Filho amado. Escutai-o!»” (Mc 9, 7).

“Oh, Jesus meu, quem poderia dar a entender a majestade com que Vos mostrais? Fixai os olhos em vós mesmas e contemplai no vosso interior o vosso Mestre que não vos faltará. Que Sua Majestade não consinta que vos afasteis da sua presença.” (Santa Teresa de Jesus, C 29, 2. 8).

1 Pai nosso, 10 Ave- Marias e 1 Glória ao Pai…

5º Mistério – A instituição da Eucaristia. “Quando chegou a hora, Jesus pôs-se à mesa com os apóstolos e disse: «Ardentemente desejei comer convosco esta ceia pascal, antes de padecer».” (Lc 22, 14-15).

“Se nos chegássemos ao Santíssimo Sacramento com grande amor e fé, uma única vez bastaria para nos deixar ricas de graças. Quanto mais tantas vezes.” (Santa Teresa de Jesus, CAD 3, 13).

1 Pai nosso, 10 Ave- Marias e 1 Glória ao Pai…

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Santa Teresa de Jesus – 15 de Outubro

Nasceu em Ávila (Espanha) no ano 1515. Tendo entrado na Ordem das Carmelitas, fez grandes progressos no caminho da perfeição e teve revelações místicas. Ao empreender a reforma da Ordem teve de sofrer muitas tribulações, mas tudo suportou com coragem invencível. A doutrina profunda que escreveu nos seus livros é fruto das suas experiências místicas. Morreu em Alba de Tormes (Salamanca) no ano 1582.

Quem deveras ama a Deus, todo o bem ama, todo o bem quer, todo o bem favorece, todo o bem louva, com os bons se junta sempre e os favorece e defende; não ama senão verdades e coisa que seja digna de amar. Pensais que é possível, a quem mui deveras ama a Deus, amar vaidades, ou riquezas, ou coisas de deleites do mundo, ou honras, ou tenha contendas ou invejas? Não, que nem pode; e tudo, porque não pretende outra coisa senão contentar ao Amado (Santa Teresa de Jesus).

Preces

Aclamemos com alegria o Senhor da Glória, a Coroa de todos os Santos, que nos concedeu hoje a graça de celebrarmos Santa Teresa, e digamos: Glória a vós, Senhor!

Senhor, fonte de vida e de santidade, que manifestais nos vossos Santos as maravilhas da vossa graça, queremos com Santa Teresa cantar eternamente as vossas misericórdias. Glória a vós, Senhor!

Vós, que desejais abrasar todo o mundo com o fogo do vosso Amor, fazei que sejamos, como Santa Teresa, servidores do vosso Amor entre os nossos irmãos. Glória a vós, Senhor!

Vós, que revelais aos vossos Anjos os mistérios do vosso coração, associai-nos mais a vós, para que, tendo experimentado melhor o vosso amor em nós, conduzamos os irmãos para vós. Glória a vós, Senhor!

Vós, que proclamastes bem-aventurados os puros de coração e prometestes que haveriam de ver-vos, purificai o nosso olhar, para que vos descubramos em todas as criaturas e nos elevemos sempre para vós. Glória a vós, Senhor!

Vós, que resistis aos soberbos e dais inteligência aos simples, fazei que sejamos humildes de coração, para adquirirmos em benefício de toda a Igreja a sabedoria, que nos enriquece. Glória a vós, Senhor!

Vós, que suscitastes na Igreja a família do Carmelo, concedei aos Carmelitas a graça da fidelidade ao espírito de oração e de zelo apostólico, a exemplo de Santa Teresa. Glória a vós, Senhor!

Oração

Senhor, que por meio de Santa Teresa de Jesus, inspirada pelo Espírito Santo, manifestastes à vossa Igreja o caminho da perfeição, concedei-nos a graça de encontrar alimento na sua doutrina espiritual e de nos inflamarmos no desejo da verdadeira santidade. Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo

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28º Domingo do Tempo Comum – Ano A

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus (Mt 22, 1-14)

Naquele tempo, Jesus dirigiu-Se de novo aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo e, falando em parábolas, disse-lhes: «O Reino do Céu é comparável a um rei que preparou um banquete nupcial para o seu filho. Mandou os servos chamar os convidados para as bodas, mas eles não quiseram comparecer. De novo mandou outros servos, ordenando-lhes: ‘Dizei aos convidados: O meu banquete está pronto; abateram-se os meus bois e as minhas reses gordas; tudo está preparado. Vinde às bodas.’ Mas eles, sem se importarem, foram um para o seu campo, outro para o seu negócio. Os restantes, apoderando-se dos servos, maltrataram-nos e mataram-nos. O rei ficou irado e enviou as suas tropas, que exterminaram aqueles assassinos e incendiaram a sua cidade. Disse, depois, aos servos: ‘O banquete das núpcias está pronto, mas os convidados não eram dignos. Ide, pois, às saídas dos caminhos e convidai para as bodas todos quantos encontrardes.’ Os servos, saindo pelos caminhos, reuniram todos aqueles que encontraram, maus e bons, e a sala do banquete encheu-se de convidados.

Quando o rei entrou para ver os convidados, viu um homem que não trazia o traje nupcial. E disse-lhe: ‘Amigo, como entraste aqui sem o traje nupcial?’ Mas ele emudeceu. O rei disse, então, aos servos: ‘Amarrai-lhe os pés e as mãos e lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes.’ Porque muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos.»

Mensagem

Jesus conhecia muito bem como desfrutavam os camponeses da Galileia as festas de casamento que se celebravam nas aldeias. Sem dúvida, ele mesmo tomou parte em mais de uma. Que experiência podia ser mais alegre para aquelas pessoas que ser convidados para um casamento e poder sentar-se com os vizinhos a partilhar juntos um banquete de festa?

Esta recordação vivida desde criança ajudou Jesus mais tarde a comunicar a Sua experiência de Deus de uma forma nova e surpreendente. Segundo Ele, Deus está a preparar um banquete final para todos os Seus filhos, pois a todos os quer ver sentados junto a Ele desfrutando para sempre de uma vida plenamente feliz.

Podemos dizer que Jesus entende toda a sua vida como o oferecimento de um grande convite em nome de Deus para essa festa final. Por isso Jesus não impõe nada à força, não pressiona ninguém. Anuncia a Boa Nova de Deus, desperta a confiança no Pai, acende nos corações a esperança. A todos chegará o seu convite.

Jesus era realista. Sabia que o convite de Deus pode ser rejeitado. Na parábola «dos convidados para a festa do casamento» fala-se de diversas reacções dos convidados. Uns rejeitam o convite de forma consciente e rotunda: «Não quiseram vir». Outros respondem com absoluta indiferença: «Não fizeram caso». Mais importante para eles são as suas terras e negócios.

Mas, segundo a parábola, Deus não desanima nem desiste. Acima de tudo haverá uma festa final. O desejo de Deus é que a sala do banquete se encha de convidados. Por isso há que ir aos «cruzamentos dos caminhos», por onde caminham tantas pessoas errantes, que vivem sem esperança e sem futuro. A Igreja há-de continuar a anunciar com fé e alegria o convite de Deus proclamado no Evangelho de Jesus.

Palavra para o caminho

Santa Madre Teresa de Calcutá saía todas as noites para as ruas de Calcutá para recolher moribundos para dar-lhes, com amor, uma boa morte: limpos, bem vestidos e, se fosse possível, baptizados. Certa vez comentou: “Não tenho medo de morrer, porque quando estiver diante do Pai, haverá tantos pobres que lhe entreguei com os trajes de casamento que saberão defender-me”.

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Como era Santa Teresa de Jesus?

Foi dito acerca de Teresa de Jesus que era bela, inteligente e santa, ainda que ela se descreva como “… enfim, mulher, e não boa, mas ruim” (V 18,4).

Era uma pessoa nobre, íntegra, que recusava toda a falsidade e hipocrisia: “Posso errar em tudo, mas não mentir, que, pela misericórdia de Deus, antes passaria mil mortes” (M 4 2, 7). Inclinada à amizade, extrovertida e graciosa na sua conversação, era delicada, generosa e sensível aos favores. Ela mesma afirma que “isto que tenho de ser agradecida, deve ser natural, que com uma sardinha que me dêem me subornarão” (Carta a Maria de São José, 1578). Dotada de um especial dom para atrair os melhores colaboradores, dizia dela o P. Graciano que era “tão aprazível e agradável, que a todos os que tratavam com ela, atraía atrás de si, e amavam-na e queriam”.

Era profundamente religiosa e, ao mesmo tempo, prática, enérgica, tenaz, trabalhadora e sacrificada. Dizia o bispo Mendoza que “se compromete de tal modo, que consegue o que começa”.

Foi amiga das letras e dos bons livros e buscava o conselho dos bons letrados. Era habilidosa nas tarefas caseiras, e até entre panelas capta também a presença de Deus. Foi uma mulher alegre; para ela “um santo triste é um triste santo”.

Foi uma pessoa de contrastes: contemplativa e activa, simples e sábia, enferma e forte, solitária e sempre acompanhada, perseguida e ditosa, pobre e esplêndida, pecadora e santa, e sobretudo muito humana. Quando passou pelo convento dos Anjos das franciscanas em Madrid, as monjas comentaram: “Bendito seja o Senhor, que nos deixou ver uma santa a quem todas podemos imitar, que dorme e fala como nós e anda sem cerimónias… e é grande a sua lhaneza!”.

Luis Javier Fernández Frontela, OCD

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Alguns traços da vida de Santa Teresa de Jesus

Teresa de Ahumada, Teresa de Jesus, nasce em Ávila a 28 de Março de 1515 e morre em Alba de Tormes a 5 de Outubro de 1582. É filha de Alonso Sanchez de Cepeda, descendente de judeus conversos, e de Beatriz de Ahumada, de família fidalga. O Livro da Vida menciona alguns detalhes da sua família, que podemos qualificar como numerosa, com nove irmãos e três irmãs, junto a uns pais “virtuosos e tementes a Deus”.

Ao cumprir os 14 anos, morre a sua mãe. Nesse momento reza diante da Virgem da Caridade: “Como eu comecei a entender o que tinha perdido, aflita, fui diante de uma imagem de Nossa Senhora e supliquei-lhe, com muitas lágrimas, que fosse minha mãe” (V 7, 1). Em 1531, seu pai manda-a como interna para o convento das freiras agostinhas de Santa Maria das Graças, mas no ano seguinte por motivo de doença tem que regressar a casa.

Determinada a vestir o hábito carmelita contra a vontade de seu pai, em 1535 foge de sua casa para dirigir-se ao convento da Encarnação. Veste o hábito em Novembro de 1536.

Um ano depois da sua profissão, em finais de 1538, devido a uma grave doença, sai do convento para restabelecer-se; e estando em casa de um tio seu, em Hortigosa do rio Almar, lê o Terceiro Abecedário de Francisco de Osuna, que lhe descobre o mundo da oração mental, através da meditação da vida de Cristo e o conhecimento próprio.

Após um agravamento que quase a leva à morte, em 1539 regressa, ainda convalescente e paralítica, à Encarnação, onde lentamente vai recuperando o movimento. Ela atribui isso a uma intervenção de São José, a quem, desenganada dos médicos, se tinha encomendado. E a sua devoção a São José aumenta e se converte em amizade com este Santo a quem sente e chama familiarmente meu Pai e Senhor São José (V 6, 6).

Uma vez recomposta das suas dores, começa a instruir na oração a outros, freiras e leigos, entre eles o seu próprio pai, embora ela se vá afastando da mesma. Durante anos luta entre a dedicação à vida espiritual e os passatempos superficiais, até que em 1554, com 39 anos, dois acontecimentos marcam a sua vida. O primeiro é o encontro com uma imagem de Cristo muito chagado, que a determina a entregar-se por completo nas suas mãos, fazendo sempre e em tudo a vontade de Deus. O segundo acontecimento é a leitura das Confissões de Santo Agostinho: “Quando cheguei à sua conversão e li como ele ouviu aquela voz no jardim, não me parecia senão que o Senhor me falava a mim, segundo sentiu o meu coração; estive por largo tempo desfazendo-me toda em lágrimas… Começou a crescer em mim a disposição de estar mais tempo com Ele” (V 9, 8-9).

A partir desse momento, começou a ter fortes vivências interiores, que os seus confessores, a princípio qualificavam como imaginárias ou como obra do demónio. Ela confia que são de Deus pelo efeito de paz e do reforço de virtudes que deixam na sua alma e o anelo de servir a Deus. Propõe-se estabelecer um novo estilo de vida carmelitana mais fiel às suas origens. Este ideal torna-se realidade a 24 de Agosto de 1562 com a fundação do convento de São José. A partir de então, a dedicação à contemplação e à oração se compaginará com uma actividade extraordinária como fundadora, que desde 1567 funda outros 16 conventos de Carmelitas Descalças: Medina del Campo, Malagón, Valladolid, Toledo, Pastrana, Salamanca, Alba de Tormes, Segóvia, Beas de Segura, Sevilha, Caravaca de la Cruz, Villanueva de la Jara, Palencia, Sória e Burgos. Neles estabelece um estilo de vida religiosa orante, fraterna, alegre, com sentido de pertença à Igreja. E em 1568, em Duruelo, com a colaboração de São João da Cruz, funda os frades Carmelitas Descalços, e quer que sejam fraternos, orantes, cultos e apostólicos, que trabalhem ao serviço da Igreja através do ministério sacerdotal e missionário.

Luis Javier Fernández Frontela, OCD

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A caminho da festa de Santa Teresa de Jesus – III

Mistérios Gloriosos (rezados aos domingos e quartas-feiras) 

1º Mistério – A ressurreição de Jesus. “Depois do sábado, ao raiar o primeiro dia da semana, Maria Madalena e a outra Maria foram ver o sepulcro. Então o anjo falou às mulheres: «Sei que procurais a Jesus que foi crucificado. Ele não está aqui! Ressuscitou como havia dito!»” (Mt 28 1. 5a. 6b.).

“Se estais alegres, vede-O ressuscitado pois a simples imaginação que Ele saiu do sepulcro vos alegrará. Com que esplendor, com que majestade, quão vitorioso, quão alegre!” (Santa Teresa de Jesus, C 26, 4).

1 Pai nosso, 10 Ave- Marias e 1 Glória ao Pai…

2º Mistério – A Ascensão de Jesus ao Céu. “E enquanto os abençoava, afastou-se deles e foi elevado ao céu. Eles o adoraram.” (Lc 24, 51-52a).

“Entendi que Nosso Senhor depois de subir aos céus, nunca desceu à terra a não ser no Santíssimo Sacramento.” (Santa Teresa de Jesus, R 15, 48).

1 Pai nosso, 10 Ave- Marias e 1 Glória ao Pai…

3º Mistério – A descida do Espírito Santo sobre os Apóstolos. “Jesus entrou e pôs-se no meio deles. Disse: «a paz esteja convosco!». Soprou sobre eles e disse: «Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, serão perdoados e a quem os retiverdes, ficarão retidos. (Jo 20, 21.23).

“Que o Espírito Santo tome conta da vossa vontade e a prenda ao amor tão grande que Ele tem.” (Santa Teresa de Jesus, Carta 277).

1 Pai nosso, 10 Ave- Marias e 1 Glória ao Pai…

4º Mistério – A Assunção de Nossa Senhora ao céu. “Todos eles perseveravam na oração comum, junto com algumas mulheres, entre elas, Maria, Mãe de Jesus, e com os irmãos de Jesus.” ( At 1, 14).

“Num dia da Assunção da Rainha dos Anjos e Senhora nossa, dignou-se o Senhor fazer-me a seguinte graça: representou-me sua Mãe chegando ao céu. Vi a alegria e solenidade com que foi recebida e o lugar onde está.” (Santa Teresa de Jesus, V 39, 27).

1 Pai nosso, 10 Ave- Marias e 1 Glória ao Pai…

5º Mistério – A coroação de Nossa Senhora como Rainha do Céu. “Então apareceu no céu um grande sinal: uma mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas.” (Ap 12, 1).

“Queira o Senhor que, tendo-o feito apenas por Ele, seja de utilidade para vós. Mas bem sabe sua Majestade que só posso confiar na Sua misericórdia e não tenho outro remédio senão apegar-me a ela e confiar nos méritos de Seu Filho e da Virgem, Sua Mãe, cujo hábito indignamente trago. Imitai-a e considerai a imensa grandeza dessa Senhora, bem como a vantagem de tê-la por padroeira.” (Santa Teresa de Jesus, 3M 1, 3).

1 Pai nosso, 10 Ave- Marias e 1 Glória ao Pai…

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Vem, Senhor Jesus

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Hoje gostaria de refletir sobre aquela dimensão da esperança que é a expetativa vigilante. O tema da vigilância é um dos fios condutores do Novo Testamento. Jesus prega aos seus discípulos: «Estejam cingidos os vossos rins e acesas as vossas lâmpadas. Sede semelhantes a homens que esperam o seu senhor, ao voltar de uma festa, para que, quando vier e bater à porta, logo lha abram» (Lc 12, 35-36). Neste tempo que segue a ressurreição de Jesus, no qual se alternam em continuação momentos serenos e outros angustiados, os cristãos nunca repousam. O Evangelho recomenda que sejam como servos que nunca dormem, até que o patrão volte. Este mundo exige a nossa responsabilidade, e nós devemos assumi-la totalmente com amor. Jesus quer que a nossa existência seja laboriosa, que nunca abaixemos a guarda, para acolher com gratidão e admiração cada novo dia que Deus nos concede. Cada manhã é uma página branca que o cristão começa a escrever com obras de bem.  fomos salvos pela redenção de Jesus, mas agora estamos à espera da manifestação plena do seu senhorio: quando finalmente Deus será tudo em todos (cf. 1 Cor15, 28). Nada é mais certo, na fé dos cristãos, do que este “encontro”, este encontro com o Senhor, quando Ele voltar. E quando este dia chegar, nós cristãos queremos ser como aqueles servos que passaram a noite com os rins cingidos e as lâmpadas acesas: é preciso estar prontos para a salvação que chega, prontos ao encontro. Pensastes como será aquele encontro com Jesus quando Ele vier? Mas será um abraço, uma alegria enorme, uma grande alegria! Devemos viver na expetativa deste encontro!

O cristão não é feito para o tédio: talvez para a paciência. Sabe que até na monotonia de certos dias sempre iguais está escondido um mistério de graça. Há pessoas que com a perseverança do seu amor se tornam como poços que irrigam o deserto. Nada acontece em vão e nenhuma situação na qual um cristão se encontra imerso é completamente refratária ao amor. Nenhuma noite é tão longa a ponto de fazer esquecer a alegria da aurora. E quanto mais escura é a noite, tanto mais próxima está a aurora. Se permanecermos unidos com Jesus, o frio dos momentos difíceis não nos paralisará; e se até o mundo inteiro pregar contra a esperança, se disser que o futuro trará só nuvens obscuras, o cristão sabe que naquele mesmo futuro sucederá o retorno de Cristo. Ninguém sabe quando acontecerá isto, mas o pensamento que no final da nossa história há Jesus Misericordioso é suficiente para manter a confiança e não maldizer a vida. Tudo será salvo. Tudo. Sofreremos, haverá momentos que suscitam raiva e indignação, mas a suave e poderosa memória de Cristo afastará a tentação de pensar que esta vida é errada.

Depois de ter conhecido Jesus, nós só podemos perscrutar a história com confiança e esperança. Jesus é como uma casa, e nós estamos dentro dela, e das janelas desta casa olhamos para o mundo. Portanto não nos fechemos em nós mesmos, não tenhamos saudades de um passado que se presume dourado, mas olhemos sempre para a frente, para um futuro que não é só obra das nossas mãos, mas que antes de tudo é uma preocupação constante da providência de Deus. Tudo o que é opaco um dia tornar-se-á luz.

E pensemos que Deus não se desmente a si mesmo. Nunca. Deus nunca desilude. A sua vontade em relação a nós não é enevoada, mas um projeto de salvação bem delineado: «Deus deseja que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade» (1 Tm 2, 4). Por conseguinte não nos abandonemos ao fluir dos eventos com pessimismo, como se a história fosse um comboio do qual se perdeu o controle. A resignação não é uma virtude cristã. Assim como não é dos cristãos encolher os ombros ou abaixar a cabeça diante de um destino que nos parece inevitável.

Quem anuncia esperança ao mundo nunca é uma pessoa remissiva. Jesus recomenda que o esperemos sem estar de braços cruzados: «Bem-aventurados os servos a quem o senhor achar vigiando, quando vier!» (Lc 12, 37). Não há construtor de paz que no fim de contas não tenha comprometido a sua paz pessoal, assumindo os problemas dos outros. A pessoa remissiva, não é um construtor de paz mas um preguiçoso, alguém que deseja a comodidade. Enquanto o cristão é construtor de paz quando arrisca, quando tem coragem de arriscar para levar o bem, o bem que Jesus nos doou, doou-nos como um tesouro.

E todos os dias da nossa vida, repitamos a invocação dos primeiros discípulos, que na língua aramaica, exprimiam com as palavras Marana tha, e que encontramos no último versículo da Bíblia: «Vem, Senhor Jesus!» (Ap 22, 20). É o refrão de todas as existências cristãs: no nosso mundo só precisamos de uma carícia de Cristo. Que graça se, na oração, nos dias difíceis desta vida, sentirmos a sua voz que responde e nos tranquiliza: «Sim, venho depressa» (Ap 22, 7)!

Papa Francisco, Audiência Geral, 11 de Outubro de 2017

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A caminho da festa de Santa Teresa de Jesus – II

Mistérios Dolorosos (rezados às terças e sextas-feiras) 

 1º Mistério – A agonia de Jesus no Horto das Oliveiras. “Pai, se quiseres, afasta de mim este cálice; contudo, não seja a minha vontade mas a tua.” (Lc 22, 42).

“Ó Sabedoria Eterna! Entre Vós e o Pai isto bastava, e, assim o pedistes no Horto mostrando Vossa Vontade e temor, mas entregando-vos à vontade do Pai. Quanto a nós, Senhor, sabeis que não estamos tão entregues à Vontade de Vosso Pai.” (Santa Teresa de Jesus, C 30, 1).

1 Pai nosso, 10 Ave-Marias e 1 Glória ao Pai…

2º Mistério – A flagelação de Jesus. “Os homens que vigiavam Jesus escarneciam dele e o espancavam. Cobriam o seu rosto e diziam-lhe: «Profetiza! Quem é que te bateu?»” (Lc 22, 63).

“Vede-O atado à coluna, cheio de dores, com a carne toda feita em pedaços pelo muito que vos ama.” (Santa Teresa de Jesus, V 26, 5).

1 Pai nosso, 10 Ave-Marias e 1 Glória ao Pai…

3º Mistério – Jesus é coroado de espinhos. “Vestiram Jesus com um manto de púrpura e puseram-lhe uma coroa de espinhos.” (Mc 15, 17).

“Representou-me Nosso Senhor Jesus Cristo como de costume e estando a contemplá-lo, vi que na cabeça, no lugar da cora de espinhos, estava uma coroa de grande esplendor, no lugar onde fizeram a chaga. Consolei-me muito e comecei a pensar que grande tormento deveria ser para ter feito tantas feridas e senti tanta pena. Disse-me o Senhor para não chorar por aquelas feridas, mas pelas muitas que agora Lhe faziam.” (Santa Teresa de Jesus, R 9).

1 Pai nosso, 10 Ave-Marias e 1 Glória ao Pai…

4º Mistério – Jesus a caminho do Calvário com a cruz. “Carregando a sua cruz, ele saiu para o lugar chamado Calvário, em hebraico: Gólgota.” (Jo 19, 17).

“Contemplai o Senhor carregando a cruz, sem que O deixassem recobrar o fôlego. Ele porá em vós os seus olhos formosos e piedosos, cheios de lágrimas, esquecendo-se das suas dores para consolar as vossas, só porque ides consolar-vos com Ele e voltais a cabeça para fitá-lo.” (Santa Teresa de Jesus, C 26,5).

1 Pai nosso, 10 Ave-Marias e 1 Glória ao Pai…

5º Mistério – A crucifixão e morte de Jesus. “Quando chegaram ao lugar chamado calvário, ali crucificaram Jesus com dois malfeitores: um à sua direita e outro à esquerda. Jesus dizia: «Pai, perdoa-lhes! Eles não sabem o que fazem!»”. (Lc 23, 33-34).

“Quem agora não quer fazer um pouquinho de esforço até recolher-se e olhar dentro de si esse Senhor, de modo algum se poria ao pé da cruz como Madalena, tendo a morte diante de si. O que deveriam passar a gloriosa Virgem e esta santa mulher!” (Santa Teresa de Jesus, C 26, 8).

1 Pai nosso, 10 Ave-Marias e 1 Glória ao Pai…

 

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