A quem iremos?

As fomes do nosso coração lançam-nos para o mundo à procura de alimento. De muitas maneiras perguntamos ao mundo: “Viste aquele que fez isto ao meu coração e o deixou penando”? O nosso coração encontra-se disperso e perdido, enquanto perguntamos a cada pessoa, a cada possessão e a cada actividade que nos digam algo mais acerca do Mistério que está no centro da nossa vida. A alma apaixonada pelos mensageiros de Deus confunde-os com o próprio Deus. Tomamos as coisas boas criadas por Deus e pretendemos que sejam Deus. O coração, cansado de peregrinar, procura instalar-se e construir um lar. Põe os seus desejos mais profundos nas relações, nas possessões, nos planos, nas actividades, nas metas, e pede a tudo isto que sacie as fomes profundas. Porém, pretendemos demasiado deles e como não podem resistir às nossas expectativas começam a desmoronar-se. Os santos carmelitas nunca se cansam de nos recordar que só Deus é o alimento suficiente para saciar as fomes do nosso coração.

John Welch, O. Carm.

Abrir

Criaste-nos para Ti, Senhor

A tradição Carmelita reconhece que há no coração humano uma fome muito profunda de Deus. Este desejo e esta ânsia impulsionam-nos ao longo de toda a nossa vida a procurar a realização das aspirações do nosso coração. Esta corrente profunda de desejo na nossa vida é devida ao facto de que Deus nos desejou primeiro. Deus, o primeiro contemplativo, ao contemplar-nos viu que éramos atractivos e encantadores para Si. A tradição Carmelita não fala do aniquilamento do desejo mas da transformação dos desejos, para que desejemos cada vez mais o que Deus deseja em consonância de desejo. Como Teresa de Ávila dizia em simples palavras: “Quero o que Tu queres”.

John Welch, O. Carm.

Abrir

Festa de Santa Teresa de Jesus

Catequese do Papa Bento XVI sobre Santa Teresa de Jesus

Queridos irmãos e irmãs:

Ao longo das catequeses que eu quis dedicar aos Padres da Igreja e a grandes figuras de teólogos e mulheres da Idade Média, pude falar sobre alguns santos e santas que foram proclamados Doutores da Igreja por sua eminente doutrina. Hoje, gostaria de começar com uma breve série de encontros para completar a apresentação dos Doutores da Igreja.

E iniciamos com uma santa que representa um dos cumes da espiritualidade cristã de todos os tempos: Santa Teresa de Jesus. Nasceu em Ávila, Espanha, em 1515, com o nome de Teresa de Ahumada. Na sua autobiografia, ela menciona alguns detalhes da sua infância: o nascimento “de pais virtuosos e tementes a Deus”, numa grande família, com nove irmãos e três irmãs. Ainda jovem, com pelo menos 9 anos, leu a vida dos mártires, que inspiram nela o desejo do martírio, tanto que chegou a improvisar uma breve fuga de casa para morrer como mártir e ir para o céu (cf. Vida 1, 4): “Eu quero ver Deus”, disse a pequena aos seus pais. Alguns anos mais tarde, Teresa falou das suas leituras da infância e afirmou ter descoberto a verdade, que se resume em dois princípios fundamentais: por um lado, que “tudo o que pertence a este mundo passa”; por outro, que só Deus é para “sempre, sempre, sempre”, tema que recupera em seu famoso poema: “Nada te perturbe, nada te espante; tudo passa, só Deus não muda. A paciência tudo alcança. Quem a Deus tem, nada lhe falta. Só Deus basta!”. Ficando órfã aos 12 anos, pediu à Virgem Santíssima que fosse sua mãe (cf. Vida 1,7).

Se, na adolescência, a leitura de livros profanos a levou às distracções da vida mundana, a experiência como aluna das freiras agostinianas de Santa Maria das Graças, de Ávila, e a leitura de livros espirituais, em sua maioria clássicos da espiritualidade franciscana, ensinaram-lhe o recolhimento e a oração. Aos 20 anos de idade, entrou para o convento carmelita da Encarnação, sempre em Ávila. Três anos depois, ficou gravemente doente, tanto que permaneceu por quatro dias em coma, aparentemente morta (cf. Vida 5, 9). Também na luta contra as suas próprias doenças, a santa vê o combate contra as fraquezas e resistências ao chamamento de Deus. Escreve: ” Desejava viver, pois bem entendia que não vivia, antes pelejava com uma sombra de morte e não havia quem me desse vida nem a podia eu tomar. E Quem ma podia dar tinha razão de não me socorrer, pois tantas vezes me havia chamado a Si e eu O havia deixado.” (Vida 8, 12). Em 1543, perdeu a proximidade da sua família: o pai morre e todos os seus irmãos, um após outro, migram para a América. Na Quaresma de 1554, aos 39 anos, Teresa chega ao topo da luta contra as suas próprias fraquezas. A descoberta frutífera de “um Cristo muito ferido” marcou profundamente a sua vida (cf. Vida, 9). A santa, que naquele momento sente profunda consonância com o Santo Agostinho das “Confissões”, descreve assim a jornada decisiva da sua experiência mística: “Aconteceu que… de repente, experimentei um sentimento da presença de Deus, que não havia como duvidar de que estivesse dentro de mim ou de que eu estivesse toda absorvida n’Ele” (Vida 10, 1). Paralelamente ao amadurecimento da sua própria interioridade, a santa começa a desenvolver, de forma concreta, o ideal de reforma da Ordem Carmelita: em 1562, funda, em Ávila, com o apoio do bispo da cidade, Dom Álvaro de Mendoza, o primeiro Carmelo reformado, e logo depois recebe também a aprovação do superior geral da Ordem, Giovanni Battista Rossi. Nos anos seguintes, continuou a fundação de novos Carmelos, um total de dezassete. Foi fundamental o seu encontro com São João da Cruz, com quem, em 1568, constituiu, em Duruelo, perto de Ávila, o primeiro convento dos padres Carmelitas Descalços. Em 1580, recebe de Roma a elevação a Província Autónoma para os seus Carmelos reformados, ponto de partida da Ordem Religiosa dos Carmelitas Descalços. Teresa termina a sua vida terrena justamente enquanto se ocupa com a fundação.

Em 1582, de facto, tendo criado o Carmelo de Burgos e enquanto fazia a viagem de volta a Ávila, morreu, na noite de 15 de Outubro, em Alba de Tornes, repetindo humildemente duas frases: “No final, morro como filha da Igreja” e “Chegou a hora, Esposo meu, de nos encontrarmos”. Uma existência consumada dentro da Espanha, mas empenhada por toda a Igreja.

Beatificada pelo Papa Paulo V, em 1614, e canonizada por Gregório XV, em 1622, foi proclamada “Doutora da Igreja” pelo Servo de Deus Paulo VI, em 1970. Teresa de Jesus não tinha formação académica, mas sempre entesourou ensinamentos de teólogos, literatos e mestres espirituais. Como escritora, sempre se ateve ao que tinha experimentado pessoalmente ou visto na experiência de outros (cf. Prefácio do “Caminho de Perfeição”), ou seja, a partir da experiência.

Teresa consegue tecer relações de amizade espiritual com muitos santos, especialmente com São João da Cruz. Ao mesmo tempo, é alimentada com a leitura dos Padres da Igreja, São Jerónimo, São Gregório Magno, Santo Agostinho. Entre as suas principais obras, deve ser lembrada, acima de tudo, a sua autobiografia, intitulada “Livro da Vida”, que ela chama de “Livro das Misericórdias do Senhor”.

Escrito no Carmelo de Ávila, em 1565, conta o percurso biográfico e espiritual, como diz a própria Teresa, para submeter a sua alma ao discernimento do “Mestre dos espirituais”, São João de Ávila. O objectivo é manifestar a presença e a acção de um Deus misericordioso na sua vida: Para isso, a obra muitas vezes inclui o diálogo de oração com o Senhor. É uma leitura fascinante, porque a santa não apenas narra, mas mostra reviver a profunda experiência do seu amor com Deus.

Em 1566, Teresa escreveu o “Caminho de Perfeição”, chamado por ela de “Admoestações e Conselhos” que dava às suas religiosas. As destinatárias são as doze noviças do Carmelo de São José, em Ávila. Teresa propõe-lhes um intenso programa de vida contemplativa ao serviço da Igreja, em cuja base estão as virtudes evangélicas e a oração. Entre os trechos mais importantes, destaca-se o comentário sobre o Pai Nosso, modelo de oração.

A obra mística mais famosa de Santa Teresa é o “Castelo Interior”, escrito em 1577, em plena maturidade. É uma releitura do seu próprio caminho de vida espiritual e, ao mesmo tempo, uma codificação do possível desenvolvimento da vida cristã rumo à sua plenitude, a santidade, sob a acção do Espírito Santo. Teresa refere-se à estrutura de um castelo com sete “moradas”, como imagens da interioridade do homem, introduzindo, ao mesmo tempo, o símbolo do bicho da seda que renasce numa borboleta, para expressar a passagem do natural ao sobrenatural. A santa inspira-se na Sagrada Escritura, especialmente no “Cântico dos Cânticos”, para o símbolo final dos “dois esposos”, que permite descrever, na sétima “morada”, o ápice da vida cristã em seus quatro aspectos: trinitário, cristológico, antropológico e eclesial. À sua actividade fundadora dos Carmelos reformados, Teresa dedica o “Livro das Fundações”, escrito entre 1573 e 1582, no qual fala da vida do nascente grupo religioso. Como na autobiografia, a história é dedicada principalmente a evidenciar a acção de Deus na fundação dos novos mosteiros.

Não é fácil resumir em poucas palavras a profunda e complexa espiritualidade teresiana. Podemos citar alguns pontos-chave. Em primeiro lugar, Santa Teresa propõe as virtudes evangélicas como base da vida cristã e humana: em particular, o desapego dos bens ou a pobreza evangélica (e isso diz respeito a todos nós); o amor de uns aos outros como elemento essencial da vida comunitária e social; a humildade e o amor à verdade; a determinação como resultado da audácia cristã; a esperança teologal, que descreve como sede de água viva. Sem esquecer das virtudes humanas: afabilidade, veracidade, modéstia, cortesia, alegria, cultura. Em segundo lugar, Santa Teresa propõe uma profunda sintonia com os grandes personagens bíblicos e a escuta viva da Palavra de Deus. Ela se sente em consonância sobretudo com a esposa do “Cântico dos Cânticos”, com o apóstolo Paulo, além de com o Cristo da Paixão e com Jesus Eucarístico.

A santa enfatiza, depois, quão essencial é a oração: rezar significa “tratar de amizade com Deus, estando muitas vezes tratando a sós com quem sabemos que nos ama” (Vida 8, 5). A ideia de Santa Teresa coincide com a definição que São Tomás Aquino dá da caridade teologal, como amicitia quaedam hominis ad Deum, uma espécie de amizade entre o homem e Deus, quem primeiro ofereceu a sua amizade ao homem (Summa Theologiae II-ΙI, 23, 1). A iniciativa vem de Deus. A oração é vida e desenvolve-se gradualmente, em sintonia com o crescimento da vida cristã: começa com a oração vocal, passa pela interiorização, através da meditação e do recolhimento, até chegar à união de amor com Cristo e com a Santíssima Trindade. Obviamente, este não é um desenvolvimento no qual subir degraus significa abandonar o tipo de oração anterior, mas um gradual aprofundamento da relação com Deus, que envolve toda a vida. Mais que uma pedagogia da oração, a de Teresa é uma verdadeira “mistagogia”: ela ensina o leitor das suas obras a rezar, rezando ela mesma com ele; frequentemente, de facto, interrompe o relato ou a exposição para fazer uma oração.

Outro tema caro à santa é a centralidade da humanidade de Cristo. Para Teresa, na verdade, a vida cristã é uma relação pessoal com Jesus que culmina na união com Ele pela graça, por amor e por imitação. Daí a importância que ela atribui à meditação da Paixão e à Eucaristia, como presença de Cristo na Igreja, para a vida de cada crente e como coração da liturgia. Santa Teresa vive um amor incondicional à Igreja: ela manifesta um vivo sensus Ecclesiae frente a episódios de divisão e conflito na Igreja do seu tempo. Reforma a Ordem Carmelita com a intenção de servir e defender melhor a “Santa Igreja Católica Romana” e está disposta a dar a sua vida por ela (cf. Vida 33, 5).

Um último aspecto fundamental da doutrina de Teresa que eu gostaria de sublinhar é a perfeição, como aspiração de toda a vida cristã e sua meta final. A Santa tem uma ideia muito clara da “plenitude” de Cristo, revivida pelo cristão. No final do percurso do “Castelo Interior”, na última “morada”, Teresa descreve a plenitude, realizada na inabitação da Trindade, na união com Cristo mediante o mistério da sua humanidade.

Queridos irmãos e irmãs, Santa Teresa de Jesus é uma verdadeira mestra de vida cristã para os fiéis de todos os tempos. Na nossa sociedade, muitas vezes desprovida de valores espirituais, Santa Teresa ensina-nos a ser incansáveis testemunhas de Deus, da sua presença e da sua acção; ensina-nos a sentir realmente essa sede de Deus que existe no nosso coração, esse desejo de ver Deus, de buscá-lo, de ter uma conversa com Ele e de ser seus amigos. Esta é a amizade necessária para todos e que devemos buscar, dia após dia, novamente.

Que o exemplo desta santa, profundamente contemplativa e eficazmente laboriosa, também nos encoraje a dedicar a cada dia o tempo adequado à oração, a esta abertura a Deus, a este caminho de busca de Deus, para vê-lo, para encontrar a sua amizade e, por conseguinte, a vida verdadeira; porque muitos de nós deveríamos dizer: “Eu não vivo, não vivo realmente, porque não vivo a essência da minha vida”. Porque este tempo de oração não é um tempo perdido, é um tempo no qual se abre o caminho da vida; abre-se o caminho para aprender de Deus um amor ardente a Ele e à sua Igreja; e uma caridade concreta com nossos irmãos. Obrigado.

Bento XVI

Abrir

Amor gera Amor

Sempre que pensarmos em Cristo, lembremo-nos do amor com que nos que nos deu tantos bens; lembremo-nos como Deus, em Seu Filho, nos mostrou tal qualidade de amor para connosco; amor gera amor. Ainda que sejamos principiantes e ruins, procuremos sempre tomar consciência deste amor e despertarmo-nos para amar; porque, uma vez que o Senhor nos concedeu esta graça de que este amor se nos imprima no coração, tudo nos será mais fácil e tiraremos mais proveito de forma mais rápida e com menos esforços. Conceda-nos Sua Majestade esta mercê pelo muito que nos amou pelo Seu glorioso Filho. Amen.

Santa Teresa de Jesus

Abrir

O Senhor é o meu Pastor

Confiem em Deus, que não deixa a quem O busca com o coração simples e recto, nem deixará de nos dar o necessário para o caminho, até nos levar à clara e pura luz de amor.

São João da Cruz

Abrir

Festa de Santa Teresinha

Catequese do Papa Bento XVI sobre Santa Teresinha

Queridos irmãos e irmãs,

Hoje gostaria de vos falar de Santa Teresa de Lisieux, Teresa do Menino Jesus e da Sagrada Face, que viveu neste mundo apenas 24 anos, no final do século XIX, levando uma vida simples e oculta, mas que depois da sua morte e da publicação dos seus escritos, se tornou uma das santas mais conhecidas e amadas. A “pequena Teresa” não deixou de ajudar as almas mais simples, os pequenos, os pobres, os que sofrem e os que lhe rezam, mas também iluminou toda a Igreja, com a sua profunda doutrina espiritual, de tal forma que o Venerável João Paulo II, em 1997, quis dar-lhe o título de Doutora da Igreja, acrescentado ao título de Padroeira das Missões, dado por Pio XI, em 1939. O meu querido predecessor definiu-a como uma “especialista na ‘scientia amoris'” (Novo millennio ineunte, 27). Esta ciência, que vê brilhar no amor toda a verdade da fé, Teresa expressa-se principalmente no relato da sua vida, publicado um ano após a sua morte com o título de “História de uma alma”. É um livro que foi de imediato um enorme sucesso; foi traduzido para muitas línguas e distribuído em todo o mundo. Eu gostaria de vos convidar a redescobrir este pequeno-grande tesouro, este luminoso comentário do Evangelho plenamente vivido! “História de uma alma”, de facto, é uma maravilhosa história de amor, contada com tal autenticidade, simplicidade e frescura, que o leitor não pode deixar de ficar fascinado! No entanto, qual é esse amor que preencheu a vida de Teresa, desde a infância até à sua morte? Queridos amigos, este amor tem um rosto, tem um nome, é Jesus! A santa fala continuamente de Jesus. Percorramos, então, as grandes etapas de sua vida, para entrar no coração de sua doutrina. Teresa nasceu a 2 de Janeiro de 1873, em Alençon, uma cidade da Normandia, França. Foi a última filha de Luis e Célia Martin, esposos e pais exemplares, beatificados os dois a 19 de Outubro de 2008. Tiveram 9 filhos, dos quais 4 morreram na infância. Restaram 5 filhas, que se tornaram todas religiosas. Teresa, aos 4 anos, foi profundamente afectada pela morte da sua mãe (Ms A, 13r). O pai, com as filhas, mudou-se então para a cidade de Lisieux, onde se desenvolveu toda a vida da santa. Mais tarde, Teresa, sofrendo uma doença nervosa grave, curou-se devido a uma graça divina, que ela definiu como “o sorriso de Nossa Senhora” (ibid., 29v-30v). Recebeu a Primeira Comunhão, vivida intensamente (ibid., 35r), e colocou Jesus Eucaristia no centro da sua existência. A “Graça do Natal” de 1886 marcou um ponto de viragem, ao que ela chamou de “conversão completa” (ibid., 44v-45r). De facto, ela curou-se totalmente da sua hipersensibilidade infantil e iniciou um “caminho de gigante”. Na idade de 14 anos, Teresa aproximou-se cada vez mais, com muita fé, de Jesus Crucificado, e levou muito a sério o caso, aparentemente desesperado, de um criminoso condenado à morte e impenitente (ibid., 45v-46v). “Eu queria a todo custo evitar que ele fosse para o inferno”, escreveu a santa, com a certeza de que a sua oração o teria colocado em contacto com o sangue redentor de Jesus. É a sua primeira e fundamental experiência da maternidade espiritual: “Tão confiante estava na infinita misericórdia de Jesus”, escreveu. Com Maria Santíssima, a jovem Teresa ama, crê e espera, com “um coração de mãe” (cf. PR 6/10r).

Em Novembro de 1887, Teresa vai em peregrinação a Roma, com o seu pai e a sua irmã Celina (ibid., 55v-67r). Para ela, o momento culminante foi a audiência do Papa Leão XIII, a quem pede autorização para entrar, com apenas 15 anos, no Carmelo de Lisieux. Um ano depois, o seu desejo foi realizado: ela torna-se carmelita, para “salvar almas e rezar pelos sacerdotes” (ibid., 69v). Ao mesmo tempo, começou a dolorosa e humilhante doença mental do seu pai. É um grande sofrimento que leva Teresa à contemplação do Rosto de Jesus na sua Paixão (ibid., 71rv).

Assim, o seu nome religioso – Irmã Teresa do Menino Jesus e da Sagrada Face – expressa o programa de toda a sua vida, na comunhão com os mistérios centrais da Encarnação e da Redenção. A sua profissão religiosa, na festa da Natividade de Maria, em 8 de Setembro de 1890, é para ela um verdadeiro matrimónio espiritual, na “pequenez” do Evangelho, que se caracteriza pelo símbolo da flor: “Que festa bonita a Natividade de Maria para me tornar a esposa de Jesus!”, escreve. Era a pequena Virgem Santa de um dia que apresentava a sua pequena flor ao Menino Jesus (ibid., 77r). Para Teresa, ser religiosa significa ser esposa de Jesus e mãe das almas (cf. Ms B, 2v). No mesmo dia, a santa escreveu uma frase que mostra a orientação da sua vida: pede a Jesus o dom do seu amor infinito, de ser a menor e, especialmente, pede a salvação de todos os homens: “Que nenhuma alma se condene hoje” (Pr 2). De grande importância é o seu Acto de Oferenda ao Amor Misericordioso, feito na Festa da Santíssima Trindade em 1985 (Ms A, 83v-84r; Pr 6): uma oferta que Teresa partilhou com as suas irmãs, sendo já auxiliar da mestra de noviças.

Dez anos após a “Graça do Natal”, em 1896, chega a “Graça da Páscoa”, que abre o último período da vida de Teresa, com o início da sua paixão profundamente unida à Paixão de Jesus; trata-se da Paixão do corpo, com a doença que a levou à morte através de grandes sofrimentos, mas acima de tudo trata-se da paixão da alma, com uma muito dolorosa prova de fé (Ms C, 4v-7v). Com Maria, junto à cruz de Jesus, Teresa vive agora a fé mais heróica, como luz nas trevas que invadem a sua alma. A carmelita tem a consciência de viver esta grande prova para a salvação de todos os ateus do mundo moderno, chamados por ela de “irmãos”. Ela viveu, então, mais intensamente o amor fraterno (8r-33v): com as irmãs da sua comunidade, com os seus irmãos espirituais missionários, com os sacerdotes e com todos os homens, especialmente aqueles mais distantes. Ela torna-se uma “irmã universal”! A sua caridade amável e sorridente é a expressão da profunda alegria cujo segredo nos revela: “Jesus, minha alegria é amar-te” (P 45/7). Neste contexto de sofrimento, vivendo o maior amor nas menores coisas da vida quotidiana, a santa leva ao pleno cumprimento a sua vocação de ser o amor no Coração da Igreja (cf. Ms B, 3v).

Teresa morreu na noite de 30 de Setembro de 1897, dizendo as palavras simples: “Meu Deus, eu te amo!”, olhando para o crucifixo, que apertava com as mãos. Estas últimas palavras da santa são a chave de todos os seus ensinamentos, da sua interpretação do Evangelho. O acto de amor, expresso no seu último suspiro, era como a respiração contínua da sua alma, como o bater do seu coração. As simples palavras “Jesus, eu te amo” são o centro de todos os seus escritos. O acto de amor a Jesus introdu-la na Santíssima Trindade. Ela escreveu: “Ah, tu sabes, divino Jesus, eu te amo, / o espírito de Amor inflama-me com seu fogo / e, amando-te, eu atraio o Pai” (P 17/2).

Queridos amigos, também nós, com Santa Teresinha do Menino Jesus, podemos repetir cada dia ao Senhor, que queremos viver de amor a Ele e aos outros, aprender na escola do santos a amar de maneira autêntica e total. Teresa é um dos “pequenos” do Evangelho, que são guiados por Deus nas profundezas do seu mistério. Uma guia para todos, especialmente para os que, no povo de Deus, desenvolvem o ministério de teólogos. Com a humildade e a fé, caridade e esperança, Teresa entra continuamente no coração das Sagradas Escrituras, que contêm o mistério de Cristo. E essa leitura da Bíblia, alimentada pela ciência do amor, não se opõe à ciência académica. A ciência dos santos, de facto, da qual ela fala na última página de “História de uma alma”, é a ciência mais alta: “Todos os santos a entenderam; em particular, talvez, aqueles que encheram o universo com a irradiação do ensinamento do Evangelho. Não será, talvez, por meio da oração, que os santos Paulo, Agostinho, João da Cruz, Tomás de Aquino, Francisco, Domingos e muitos outros ilustres amigos de Deus obtiveram essa ciência divina que encanta os maiores génios?” (Ms C, 36r). Inseparável do Evangelho, a Eucaristia é, para Teresa, o sacramento do Amor Divino que desce até ao extremo para nos elevar até Ele. Na sua última carta, a santa escreveu estas simples palavras sobre a imagem que representa o Jesus Menino na Hóstia Consagrada: “Não posso temer um Deus que por mim se tornou tão pequeno! (…) Eu o amo! De facto, Ele é só Amor e Misericórdia!” (LT 266).

No Evangelho, Teresa descobre sobretudo a misericórdia de Jesus, a ponto de dizer: “Ele deu-me a sua misericórdia infinita; através dela contemplo e adoro as demais perfeições divinas! (…) E então todas me parecem radiantes de amor; a própria justiça (e talvez mais do que qualquer outra), parece-me revestida de amor” (Ms A, 84r). Assim se expressa também nas últimas linhas da “História de uma alma”: “Basta folhear o Santo Evangelho e imediatamente respiro o perfume da vida de Jesus e sei para onde correr… Não é ao primeiro lugar, mas ao último que me dirijo… Sim, eu o sinto; inclusive se tivesse sobre a consciência todos os pecados que se podem cometer, iria com o coração partido de arrependimento lançar-me nos braços de Jesus, porque sei o quanto Ele ama o filho pródigo que volta para Ele” (Ms C, 36v-37r). “Confiança e amor” são, portanto, o ponto final do relato da sua vida, duas palavras que, como faróis, iluminaram todo o seu caminho de santidade, para poder guiar no seu próprio “pequeno caminho de confiança e amor”, da infância espiritual (cf. Ms C, 2v-3r; LT 226). Confiança como a da criança que se abandona nas mãos de Deus, inseparável pelo compromisso forte, radical do verdadeiro amor, que é o dom total de si mesmo, para sempre, como diz a santa, contemplando Maria: “Amar é dar tudo, é dar-se a si mesmo” (P 54/22). Assim, Teresa indica a todos nós que a vida cristã consiste em viver em plenitude a graça do Baptismo, no dom total de si ao amor do Pai, para viver como Cristo, no fogo do Espírito Santo, o seu próprio amor aos outros.

Bento XVI

Abrir

Oração a Nossa Senhora do Carmo

Ó Virgem Maria, Mãe e Rainha do Carmelo, tu estiveste unida de modo admirável ao mistério da Redenção, acolheste e conservaste no coração a Palavra de Deus e perseveraste com os Apóstolos em oração esperando o Espírito Santo. Em ti, como numa imagem perfeita, vemos realizado o que desejamos e esperamos ser na Igreja. Ó Virgem Maria, Estrela Mística do Monte Carmelo, ilumina-nos e guia-nos no caminho da perfeita caridade e atrai-nos para a contemplação do rosto do Senhor. Cuida de nós com amor, e reveste os teus filhos com o teu Santo Escapulário, sinal da tua proteção, e que a tua presença ilumine os nossos caminhos e nos faça chegar ao Monte da Salvação, que é Cristo Jesus, teu Filho e Senhor nosso. Amen.

Abrir

Perfeição

A perfeição consiste em fazer a vontade de Deus, em ser o que Ele quer que sejamos.

Santa Teresinha do Menino Jesus

Abrir

És amparado

Deus não exige nada do homem sem lhe oferecer ao mesmo tempo a força para isso.

Santa Teresa Benedita da Cruz

Abrir

Escutar

Ó Verbo eterno, palavra do meu Deus, quero passar a vida a ouvir-vos, quero ser duma docilidade absoluta para tudo aprender de Vós.

Santa Isabel da Trindade

 

Abrir