Caminhar com Maria – I

A Encarnação: Maria converte-se no primeiro sacrário

Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc 1, 38)

Se procurais Maria, encontrareis Jesus. E aprendereis a entender um pouco o que há nesse coração de Deus que se abaixa, que renuncia a manifestar o seu poder e a sua majestade para aparecer em forma de escravo. Falando de modo humano, podemos dizer que Deus se excede, pois não se limita ao que seria essencial ou imprescindível para nos salvar, mas vai mais além. A única norma ou medida que nos permite compreender de algum modo essa maneira de agir de Deus é darmo-nos conta de que carece de medida: nasce de uma loucura de amor, que o leva a assumir a nossa carne e a carregar com os nossos pecados.

Oração: Santa Maria, Mãe de Deus, conservai em mim um coração de criança, puro e límpido como a água da fonte. Dai-me um coração simples, que não se incline a ruminar as próprias tristezas; um coração magnânimo no doar-se, dócil à compaixão, um coração fiel e generoso que não esqueça nenhum bem e não guarde rancor de nenhum mal. Criai em mim um coração doce e humilde, que ame sem exigir retribuição, alegre em esconder-se noutros corações, sacrificando-se diante do vosso Divino Filho. Dai-me um coração grande e indomável que nenhuma ingratidão possa fechar e nenhuma indiferença possa cansar; um coração atormentado pela glória de Jesus Cristo, ferido pelo Seu amor com uma ferida que não possa  ser cicatrizada senão no céu. Amen.

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O Amor solidário de Jesus para com os perseguidos por causa da justiça

Como dissemos anteriormente, a maior injustiça na época de Jesus era a falsa imagem de Deus que a religião oficial comunicava ao povo: um Deus severo, juiz que ameaçava com castigo e condenava. Por causa desta falsa imagem de Deus, a própria vida humana era falsificada e aparecia de um jeito que já não correspondia mais ao projeto de Deus. Em vez de abrir a porta do Reino, a religião parecia querer fechá-la. Jesus dizia: “Vocês fecham o Reino do Céu para os homens. Nem vocês entram, nem deixam entrar aqueles que o desejam” (Mt 25,13).

Jesus não aguentava esse tipo de religião que, em nome da lei de Deus mal interpretada, matava na alma do povo a alegria de viver. Ele não veio para condenar o mundo, mas sim para salvá-lo (Jo 12,47). Jesus anunciava a Boa Notícia de um Deus amoroso e solidário que acolhe e salva e não a notícia triste de um Deus severo que condena e castiga. Ele dizia: “Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, e sim para que o mundo seja salvo por meio dele” (Jo 3,17). Jesus irradiava este amor solidário em atitudes bem concretas para com os pobres, os mansos, os aflitos, os que tinham fome e sede de justiça, os que buscavam ter misericórdia com os miseráveis, os que buscavam ver e experimentar a presença de Deus na vida, os que lutavam pela paz.

Por causa deste seu amor à justiça, Jesus foi criticado e perseguido. Quando perdoou o paralítico, foi criticado (Mc 2,6-7). Quando foi jantar na casa do publicano Levi, foi reprovado (Mc 2,16). Quando num sábado curou o cego de nascimento, foi denunciado (Jo 5,16). Quando comia sem lavar as mãos, era ridicularizado (Mt 15,2). Tentaram desmoralizá-lo dizendo que ele era um possesso (Mc 3,22), um comilão e beberrão (Mt 11,19), um louco (Mc 3,21), um pecador (Jo 9,24), um blasfemo (Mc 14,64). Quando Jesus desafiou as autoridades e dizia que a maneira de elas interpretarem a Lei de Deus era contrária à vontade de Deus, elas decidiram matá-lo (Mc 3,6).

Jesus sabia que não conseguiria mudar a cabeça dos líderes do povo. Sabia que a sua fidelidade ao Deus amoroso que acolhe a todos como filhos e filhas seria interpretada como heresia e que o seu destino seria prisão, tortura e morte de cruz. As profecias sobre o Servo de Javé não deixavam dúvida a este respeito (cf. Is 50,6; 53,3-10). Se quisesse, Jesus poderia ter escapado da morte. Mas Jesus não quis escapar. “Pai, não se faça a minha, mas a tua vontade!” (Lc 22,42). Até o último respiro da sua vida, ele continuou revelando a face do Deus amor aos excluídos. Era esta sua obediência radical ao Pai, que o levava a desobedecer às autoridades religiosas do seu tempo.

Por este seu jeito de ser e pelo testemunho de sua vida, Jesus encarnava o amor de Deus e o revelava ao povo e aos discípulos (Mc 6,31; Mt 10,30; Lc 15,11-32). Revelando o Pai em gestos bem concretos, Jesus revelava ao mesmo tempo a podridão do sistema. Por isso era perseguido, mas mesmo perseguido, Jesus estava em paz. Esta atitude de paz frente à perseguição era o Reino Deus presente em Jesus. Ele queria que todos os perseguidos pudessem ter esta mesma experiência do Reino. Por isso dizia: “Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino do céu!”

Foi esta a Boa Nova do amor solidário de Deus que Jesus viveu e irradiou durante os três anos que andou pela Galileia anunciando o Reino de Deus. Sua mensagem desagradou aos poderosos e eles o prenderam, condenaram e mataram na cruz. Mas Deus o ressuscitou, confirmando-o diante dos discípulos por meio de muitas aparições (1Cor 15,3-8). O resumo são as oito bem-aventuranças.

Carlos Mesters, O. Carm.

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O Amor solidário de Jesus para com os que lutam pela Paz

A construção da Paz começa nas coisas miúdas como desejar um “Bom Dia!”, e só terminará quando o mundo estiver reconstruído: sem guerra, sem fome, sem doenças, sem injustiça, sem opressão, todos vivendo como irmãos e irmãs, uns dos outros. Este é o objetivo da construção da Paz, da Paz completa. SHALÔM. A Paz é como uma casa para morar: ela é construída tijolo por tijolo. Quem não cuida do tijolo, nunca terá casa para morar. Qual é o tijolo que serve para construir a casa da Paz?

A vida de Jesus é uma amostra de como ser construtor de paz. Onde havia ódio, levava o amor; onde havia ofensa, levava o perdão; onde havia discórdia, levava a união; onde havia dúvida, levava a fé; onde havia erro, levava a verdade; onde havia desespero, leva a esperança; onde havia ofensa, levava o perdão; onde havia tristeza, levava a alegria; onde havia injustiça, levava a justiça e o direito; onde havia trevas, levava a luz.

Aos discípulos amedrontados dizia: “A paz esteja com vocês!” Soprou sobre eles dizendo: “Recebam o Espírito Santo!”, e deu a eles e a todos nós o poder de perdoar e de reconciliar (Jo 20,21-23). E quando os enviou em missão, não permitia levar nada, a não ser uma única coisa: a Paz. E quando chegavam em algum lugar, eles deviam dizer: “A Paz esteja nesta casa!” (Lc 10,5). Assim começou e recomeça o processo da Paz que reverte o processo do ódio, da confusão, da discórdia, da ofensa, da destruição, iniciado com Adão e Eva (Gn 2,1-7), com Caim e Lamec, (Gn 4,8.24), com o Dilúvio (Gn 6,13-17) e a Torre de Babel (Gn 11,1-9). Assim recomeça sempre a reconstrução do Paraíso Terrestre da Paz.

Não se começa a construção da casa pelo telhado, mas pelo alicerce. Qual o alicerce da casa da Paz? É a reconstrução do relacionamento humano entre as pessoas, bem na base, para que possa nascer e renascer a vida em comunidade. No tempo de Jesus, o povo esperava que o profeta Elias voltasse “para reconduzir o coração dos pais para os filhos e o coração dos filhos para os pais” (Ml 3,23-24). Eles esperavam que fosse refeito o tecido básico da convivência humana, pois sem este alicerce, o resto não teria consistência. Seria construir a casa em cima da areia (cf Mt 7,26).

O que Jesus mais fez foi exatamente isto: refazer a vida comunitária nos povoados da Galileia. Conforme o Evangelho de Marcos, a primeira coisa que Jesus fez foi chamar discípulos para formar comunidade com eles (Mc 1,16-20; 3,14). Ao redor dele nascia a nova fraternidade, expressão do amor solidário de Deus, fundamento na construção da Paz. Ele acolhia as pessoas, dava lugar aos que não tinham lugar, era irmão para os que viviam isolados, denunciava as divisões que impediam a construção da paz: divisão entre próximo e não-próximo (Lc 10,29-37); entre pagão e judeu (Mt 15,28; cf. Lc 7,6); entre puro e impuro (Mt 23,23-24; Mc 7,13-23); entre pobres e exploradores (Lc 20,46–47; 22,25). Quando curava uma pessoa ou perdoava um pecador, dizia: “Vai em paz!” (Lc 7,50; 8,48; Mc 5,34). Quando, depois da ressurreição, aparecia aos discípulos, ele dizia: “A Paz esteja com vocês!” (Lc 24,30; Jo 20,19.26). Ele trouxe a paz que só Deus nos pode dar (Jo 14,27). É a paz fruto da justiça, fruto de longa luta e de muito sofrimento. Por isso disse em outro lugar que não veio trazer a paz, mas sim a espada e a divisão (Mt 10,34; Lc 12,51).

Jesus reforçava a vida em comunidade que é o fundamento da Paz, o lugar da reconstrução da Aliança. A Paz existe quando todos e todas são acolhidos como irmãos e irmãs, uns dos outros, todos sendo filhos e filhas do mesmo Pai. Jesus procurava reintegrar as pessoas marginalizadas na convivência humana (Mc 1,40-45). A Comunidade deve ser como o rosto de Deus, transformado em Boa Nova para o povo. Jesus era ecuménico e universal. Acolhia a todos: judeus, romanos, samaritanos, a mulher Cananeia.

Carlos Mesters, O. Carm.

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O Amor solidário de Jesus para com os puros de coração

Fazia parte do programa de Jesus “abrir os olhos dos cegos” (Lc 4,18). Ele dizia aos discípulos: “A lâmpada do corpo é o olhar. Quando o olhar é sadio, o corpo inteiro também fica iluminado. Mas, se o olhar está doente, o corpo também fica na escuridão. Portanto, veja bem se a luz que está em você não é escuridão” (Lc 11,34-35). Quem tem um olhar de inveja, não enxerga corretamente as pessoas e não percebe a presença de Deus nos outros. Quem tem um olhar de orgulho, de raiva ou de vingança, não consegue apreciar direito os fatos da vida. Tais pessoas são cegas. Jesus dizia que alguns fariseus eram cegos, porque não enxergavam direito nem a vida nem as coisas de Deus (cf. Mt 15,14; 23,16-17; Jo 9,40-41). Mas quem tem um olhar puro, esse consegue perceber os apelos de Deus na vida.

Jesus, ele tinha um olhar limpo, puro, e o mantinha puro por meio da oração, tendo sempre presente a vontade do Pai (Jo 4,34; 5,19). Ele só fazia aquilo que o Pai lhe mostrava que era para fazer (Jo 5,19). Ele falava só aquilo que ouvia do Pai (Jo 5,30).

Jesus procurava ajudar os discípulos a limpar o olhar: “Cuidado com o fermento dos fariseus e de Herodes!” (Mc 8,15-16). A mentalidade do “fermento de Herodes e dos fariseus” (Mc 8,15) tinha raízes profundas na vida daquele povo. Também hoje, o “fermento do consumismo” tem raízes profundas na nossa vida e exige uma vigilância constante. Jesus procurava atingir essas raízes para poder arrancar o “fermento” que os impedia de perceber a presença de Deus na vida. É bonito ver como Jesus, através do diálogo, ia ajudando as pessoas a enxergar melhor. O evangelho de João é que dá uma atenção especial a esta preocupação de Jesus: a conversa de Jesus com a Samaritana (Jo 4,7-26), com Nicodemos (Jo 3,1-15), com Marta (Jo 11,21-27), com o cego que foi curado (Jo 9,35-39). Jesus ajudava até mesmo as pessoas que resistiam contra ele: alguns judeus (Jo 8,31-59) e Pilatos (Jo 18,33-38).

Vale a pena ver de perto como ele fazia para purificar os olhos dos discípulos e como combatia os vários tipos desse falso fermento, dessa falsa mentalidade, que até hoje impedem a visão correta das coisas: Certa vez, alguém, que não era da comunidade, usava o nome de Jesus para expulsar os demônios. João viu e proibiu, pois, assim ele dizia, aquela pessoa não fazia parte do grupo (Mc 9,38). Era o falso fermento da mentalidade de grupo fechado.  Jesus responde: “Não impeçam! Quem não é contra é a favor!” (Lc 9,39-40). Outra vez, os discípulos brigavam entre si pelo primeiro lugar (Mc 9,33-34). Era o falso fermento da mentalidade de competição e de prestígio. Jesus reage: “O primeiro seja o último” (Mc 9,35). “Não vim para ser servido, mas para servir” (Mc 10,45; Mt 20,28; Jo 13,1-16). Outro dia, mães com crianças queriam chegar perto de Jesus. Os discípulos as afastavam. Era o falso fermento da mentalidade de quem marginaliza o pequeno. Jesus os repreende: ”Deixem vir a mim as crianças!” (Mc 10,14). “Quem não receber o Reino como uma criança, não pode entrar nele” (Lc 18,17). Outro dia ainda, vendo um cego os discípulos perguntavam: “Quem pecou, ele ou seus pais, para que nascesse cego?” (Jo 9,2). Era o falso fermento da mentalidade de quem segue a opinião da ideologia dominante. Jesus responde: “Nem ele, nem os pais dele, mas para que nele se manifestem as obras de Deus” (cf Jo 9,3).

Em todas estas atitudes Jesus se esforçava para que as pessoas modificassem seu olhar sobre o próximo. Por exemplo, ele dizia: “Tudo que vocês fizerem a um destes meus irmãos mais pequeninos é a mim que o fizeram” (Mt 25,40). Ele se identifica com os pequenos: “Era eu!” (Mt 25,40.45). Ele levava as pessoas a perceber a presença dele até nas coisas mais simples da vida como dar um copo de água (Mt 10,42; Mc 9,41).

Carlos Mesters, O. Carm.

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Semana de Oração pelas Vocações

Oração pelas Vocações

Senhor da messe e pastor do rebanho, faz ressoar em nossos ouvidos o teu forte e suave convite: “Vem e segue-Me”! Derrama sobre nós o teu Espírito: que Ele nos dê sabedoria para ver o caminho e generosidade para seguir a tua voz. Senhor, que a messe não se perca por falta de operários. Desperta as nossas comunidades para a missão. Ensina a nossa vida a ser serviço. Fortalece os que querem dedicar-se ao Reino, na vida consagrada e religiosa. Senhor, que o rebanho não pereça por falta de pastores. Sustenta a fidelidade dos nossos bispos, padres e ministros. Dá perseverança aos nossos seminaristas. Desperta o coração dos nossos jovens para o ministério pastoral na tua Igreja. Senhor da messe e pastor do rebanho, chama-nos para o serviço do teu povo. Maria, Mãe da Igreja, modelo dos servidores do Evangelho, ajuda-nos a responder “sim”. Amen.

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O Amor solidário de Jesus para com os misericordiosos

Jesus era a misericórdia em pessoa. Como o samaritano da parábola, tinha o coração na miséria dos outros. Ele conhecia de perto a miséria e o sofrimento do seu povo. Nas parábolas ele menciona a angústia dos trabalhadores desempregados que viviam à espera de um biscate e nem sempre o conseguiam (Mt 20,1-6); a situação do povo cheio de dívida e ameaçado de ser escravizado (Mt 18,23-26); o desespero que chegava a levar o pobre a explorar seu próprio companheiro (Mt 18,27-30; Mt 24,48-50); a extravagância dos ricos que ofendia os pobres (Lc 16,19-21); a luta da viúva pobre pelos seus direitos (Lc 18,1-8). Jesus sabia o que se passava no seu país. A miséria do povo o rodeava e enchia o seu coração.

O que Jesus mais fazia era atender às pessoas que o procuravam em busca de alguma ajuda ou alívio. Ele fazia isto desde pequeno. Lá em Nazaré, como todo mundo, ele trabalhava na roça e, além disso, ajudava o povo como carpinteiro. Carpinteiro era aquela pessoa bem prática do povoado a quem todos recorriam para resolver seus pequenos problemas domésticos: mesa quebrada, telha estragada, arado desregulado, etc. Este seu jeito natural de servir aos outros, Jesus o deve ter aprendido de sua mãe que chegou a viajar mais de 100 quilômetros só para ajudar sua prima idosa Isabel, no primeiro parto (Lc 1,36-39.56-57). Jesus dizia de si mesmo, resumindo o sentido da sua vida: “Eu não vim para ser servido, mas para servir” (Mc 10,45).

Sim, Jesus era a misericórdia em pessoa. Certa vez, ele queria descansar um pouco e foi de barco para o outro lado do lago (Mc 6,31). O povo soube e foi a pé na frente dele e ficou esperando por ele na praia (Mc 6,33). Vendo o povo, Jesus esqueceu o descanso e dizia: “Tenho dó desse povo. São como ovelhas sem pastor” (Mc 6,34). Outra vez, em Cafarnaum, terminado o sábado, no momento de aparecer a primeira estrela no céu, o povo levou a ele todos os doentes da cidade, e ele curou a todos (Mc 1,32-34). Era tanta gente que o procurava, que nem sobrava tempo para ele comer (Mc 3,20; Mt 6,31). O evangelho conta muitos episódios desta atenção misericordiosa de Jesus para com as pessoas: com a mulher adúltera (Jo 8,11), com o paralítico (Mc 2,9), a moça pecadora (Lc 7,47), o bom ladrão (Lc 23,34). Perdoou até o soldado que o estava matando (Lc 23,34).

Pedro, ouvindo Jesus falar tanto em misericórdia e perdão, perguntou: “Quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes?” (Mt 18,21) O número sete significava a totalidade. No fundo, Pedro pergunta: “Então devo perdoar sempre?” E Jesus responde: “Não lhe digo que até sete vezes, Pedro, mas até setenta vezes sete”. Ou seja: “Não lhe digo até sempre, mas até setenta vezes sempre!”

O evangelho conta também as brigas e discussões que Jesus sustentava para defender os sofredores contra as agressões injustas das autoridades religiosas. Defendeu a mulher que vivia curvada há 18 anos e que foi agredida pelo coordenador da sinagoga (Lc 13,10-17). Defendeu a moça que foi agredida como pecadora na casa de um fariseu (Lc 7,36-50). Defendeu as mães que queriam uma bênção para suas crianças, contra a má vontade dos discípulos (Mt 19,13-15). Defendeu os discípulos quando criticados por arrancarem espigas em dia de sábado (Mt 12,1-8). Defendeu a mulher acusada de adultério por alguns fariseus (Jo 8,1-11). Defendeu e curou o rapaz com mão seca dentro da sinagoga em dia de sábado (Mc 3,1-6). Acolhia os leprosos, os doentes, os cegos, os coxos, todos e todas que o procuravam. E ele explicou o motivo que o levava a ter esse seu comportamento. Ele disse: “Quero misericórdia e não sacrifício” (Mt 9,13; 12,7; 23,23). Agindo assim, Jesus irradiava para os outros o amor solidário que ele mesmo recebia do Pai. Colocava em prática o que ensinava aos outros: “Sede misericordiosos como o Pai de vocês é misericordioso” (Lc 6,36).

Carlos Mesters, O. Carm.

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O Amor solidário de Jesus para com os que têm fome e sede de justiça

No tempo de Jesus, muitos escribas e fariseus ensinavam que a justiça só se alcançaria observando a lei até nos seus mínimos detalhes. Era aquela mesma visão da reforma deuteronomista e do Doutor da parábola do Bom samaritano. O relacionamento com Deus se tornava comercial: Eu ofereço algo a Deus, para que Ele me pague. Se eu observar bem toda a lei, posso exigir que Ele me dê a herança prometida da vida eterna. No ensino deles o acento caía na observância, no merecer. Não deixavam espaço para a gratuidade do amor e a misericórdia (cf Mt 9,13). Jesus não concordava com esta justiça e dizia: “Se a justiça de vocês não for maior que a justiça dos fariseus e escribas, vocês não vão poder entrar no Reino dos céus” (Mt 5,20).

Na raiz desta falsa justiça estava a injustiça maior da falsa imagem de Deus que a religião comunicava ao povo. Por causa da insistência na observância da Lei, Deus aparecia como um juiz severo que ameaça com castigo, provoca medo e condena, e não como um pai que acolhe e perdoa. Esta tremenda injustiça para com Deus se manifestava nas coisas mais comuns do dia-a-dia e transformava a vida de muitas pessoas num inferno. Por exemplo, eles não podiam comer sem lavar as mãos (Mc 7,3); não podiam sentar à mesa com quem era de outra raça ou de outra religião (Mc 2,16); não podiam entrar na casa de um pagão (At 10,28); não podiam arrancar espigas em dia de sábado para matar a fome (Mt 12,1-2); não podiam curar um doente em dia de sábado (Mc 3,1-2). E assim havia muitas outras normas, observâncias e costumes. A impureza que a lei assim exigia ameaçava o povo de todos os lados: “Pecado! Proibido! Não Pode!” O “pecado” estava em toda parte! O povo, em vez de sentir-se em paz diante de Deus e feliz com a perspectiva do Reino, tinha a consciência pesada, pois não conseguia observar a Lei, nem alcançar a justiça (cf. Rom 7,15.19).

Jesus não pensava assim. Ele tinha fome e sede de uma outra justiça. Tinha outra imagem de Deus no coração. O amor de Deus por nós não é fruto das nossas observâncias, mas é um dom que recebemos de Deus. A mãe ama a criança não porque a criança é boa e lhe obedece em tudo, mas porque ela mesma é mãe. Mãe é Mãe! Amor de mãe não se compra, nem se merece, mas se recebe de graça pelo simples fato de nascer. “Quisesse alguém dar tudo o que tem para comprar o amor, seria tratado com desprezo” (Ct 8,7). Temos que observar a lei de Deus, sim, sempre, mas não para merecer ou comprar o céu. Observamos a lei para retribuir e agradecer a imensa bondade com que Deus nos acolhe e “nos amou primeiro”, sem mérito algum da nossa parte (1Jo 4,19). Aqui está a raiz do Amor Solidário!

Esta visão da justiça cresceu em Jesus, desde pequeno, convivendo em casa com sua mãe que lhe falava do amor e da misericórdia de Deus (cf Lc 1,54-55) e lembrava as histórias de Jeremias, Oséias e Isaías e tantas outras pessoas. Ele descobria o amor de Deus Pai no amor que recebia de Maria, sua mãe, de Ana, sua avó, e de José, seu pai, que era um homem justo (Mt 1,19). Jesus, por sua vez, traduzia este amor naqueles gestos tão simples de ternura com que recebia e acolhia as pessoas, desde as criancinhas até os velhos: Zaqueu (Lc 19,1-10), Bartimeu (Mc 10,46-52), Talita (Mc 5,41), Nicodemos (Jo 3,1-15), Madalena (Lc 8,2; Jo 20,11-18), Levi (Mc 2,13-17), a mulher adúltera (Jo 8,1-11), a moça do perfume (Lc 7,36-50), a Samaritana (Jo 4,7-26), a Cananéia (Mt 15,21-28), as mães com crianças pequenas nos braços (Mc 10,13-16). Irradiando esta sua fome e sede de justiça, Jesus irradiava o Amor Solidário de Deus.

Carlos Mesters, O. Carm.

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Quinta-feira santa: sacerdócio e eucaristia

Um sacerdote deve ser simultaneamente pequeno e grande, nobre de espírito, como de sangue real, simples e natural, como de raiz camponesa, um herói na conquista de si mesmo, um homem que se bateu com Deus, uma fonte de santificação, um pecador a quem Deus perdoou, dos seus desejos o soberano, um servidor para os tímidos e os fracos, que não se abaixa diante dos poderosos, mas que se curva diante dos pobres, discípulo do seu Senhor, chefe do seu rebanho, um mendigo de mãos totalmente abertas, um portador de inúmeros dons, um homem no campo de batalha, uma mãe para confortar os doentes, com a sabedoria da idade e a confiança duma criança em direcção ao alto, os pés na terra, feito para a alegria, perito no sofrimento, isento de qualquer inveja, com perspectivas largas, que fala com franqueza, um amigo da paz, um inimigo da inércia, fiel para sempre… Tão diferente de mim!

De um manuscrito medieval

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O Amor solidário de Jesus para com os mansos

Jesus disse: “Venham a mim todos vocês que estão cansados de carregar o peso do seu fardo, e eu lhes darei descanso. Carreguem a minha carga e aprendam de mim, porque sou manso e humilde de coração.” (Mt 11,28-30). A mansidão a que Jesus se refere não é a de uma pessoa sem fibra, sem vontade própria, que aprova tudo e concorda com tudo, pois Jesus não era assim. A mansidão a que ele se refere é a mansidão resistente do Servo de Javé, anunciado pelo profeta Isaías: “Ele não grita, nem levanta a voz, não solta berros pelas ruas, não quebra a planta machucada, nem apaga o pavio que ainda solta fumaça. Com fidelidade promove o direito sem desanimar nem desfalecer, até estabelecer o direito sobre a terra” (Is 42,2-4).

Assim era a mansidão de Jesus. Isaías completa a descrição da mansidão dizendo que ela consiste em “saber dizer uma palavra de conforto a quem está desanimado” (Is 50,4). E o próprio Servo acrescenta: “O Senhor me abriu os ouvidos e eu não resisti, nem voltei atrás. Ofereci minhas costas aos que me batiam e o queixo aos que me arrancavam a barba. Não escondi o rosto para evitar insultos e escarros. O Senhor é a minha ajuda! Por isso, estas ofensas não me desmoralizam. Faço cara dura como pedra, sabendo que não vou ser um fracassado” (Is 50,5-7).

A mansidão de Jesus é a resistência que nasce da certeza de fé de que a vitória final não será dos violentos, dos corruptos, dos prepotentes, mas sim dos que tem a mansidão do Servo. Jesus era uma amostra viva desta mansidão resistente. Para ele, tudo se resumia em imitar Deus: “Vocês ouviram o que foi dito: Ame o seu próximo, e odeie o seu inimigo. Eu, porém, lhes digo: amem os seus inimigos, e rezem por aqueles que perseguem vocês! Assim vocês se tornarão filhos do Pai que está no céu, porque ele faz o sol nascer sobre maus e bons, e a chuva cair sobre justos e injustos. Portanto, sejam perfeitos como é perfeito o Pai de vocês que está no céu” (Mt 5,43-45 e 48; cf Lc 6,36).

Jesus imitou o Pai e revelou o seu amor. Cada gesto, cada palavra de Jesus, desde o nascimento até à morte na cruz foi um crescendo contínuo. A manifestação plena desta mansidão foi quando na Cruz ofereceu o perdão ao soldado que o torturava e matava. O soldado, empregado do império, prendeu o pulso de Jesus no braço da cruz, colocou um prego e começou a bater. Deu várias pancadas. O sangue espirrava. O corpo de Jesus se contorcia de dor. O soldado bruto e ignorante, alheio ao que estava fazendo e ao que estava acontecendo ao redor, continuava batendo como se fosse um prego na parede da sua casa para pendurar um quadro. Neste momento Jesus dirige ao Pai esta prece: “Pai, perdoa! Eles não sabem o que estão fazendo!” (Lc 23,34) Olhando aquele soldado ignorante e bruto, Jesus teve dó do rapaz e rezou por ele e por todos nós: “Pai, perdoa!” E ainda arrumou uma desculpa: “São ignorantes. Não sabem o que estão fazendo!” Diante do Pai, Jesus se fez solidário com aqueles que o torturavam e maltratavam. Era como o irmão que vem com seus irmãos assassinos diante do juiz e ele, vítima dos próprios irmãos, diz ao juiz: “São meus irmãos, sabe! São uns ignorantes. Perdoa. Eles vão melhorar!” Era como se Jesus estivesse com medo que o mínimo de raiva contra o rapaz que o matava pudesse apagar nele o último restinho de humanidade que ainda sobrava nele. Este gesto incrível de humanidade e de mansidão foi a maior revelação do amor de Deus. Jesus podia morrer: “Está tudo consumado!” (Jo 19,30). Sua vida foi uma revelação do amor solidário do Pai.

Carlos Mesters, O. Carm.

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O Amor solidário de Jesus para com os que choram

Não existe pessoa neste mundo que nunca chorou. Nem Jesus escapa. Nascemos chorando. Uns choram mais que os outros. O choro pode ter muitas causas: choro de raiva e de ódio, choro de amor e de compaixão. Choro alegre e choro triste. Jesus chorou várias vezes. Chorou sobre Jerusalém, a capital do seu povo, porque ela não soube perceber o dia da visita do Senhor (Lc 19,41-44). Jesus se comovia diante do povo faminto que o procurava (Mc 6,34). O evangelho de Mateus diz que, diante da tristeza de tanta gente, causada pela pobreza e opressão, Jesus imitava o Servo de Javé anunciado por Isaías: “Ele tomou sobre si as nossas enfermidades e carregou as nossas doenças” (Mt 8,17).

Jesus deve ter enxugado muitas lágrimas e devolvido a alegria a muita gente. Ele imitava Deus que, como diz Isaias, “enxugará as lágrimas de todas as faces, e eliminará da terra inteira a vergonha do seu povo” (Is 25,8). Como devem ficado alegres a viúva de Naím, cujo filho único ele ressuscitou (Lc 7,11-17); a Cananéia, cuja filha curou (Mc 7,24-30); a mulher de hemorragia irregular que se curou graças a sua fé em Jesus (Mc 5,25-34); o cego Bartimeu (Mc 10,46-52), o velho Zaqueu (Lc 19,1-10), a Samaritana (Jo 4,7-42), a mulher adúltera (Jo 8,1-11), a mulher curvada (Lc 13,11), Madalena (Lc 8,2; Jo 20,11-18), Marta e Maria, irmãs de Lázaro (Jo 11,17-44), tantos e tantas! Não dá para enumerar todos os casos de aflição que se converteram em consolo e alegria graças à bondade de Jesus.

Ele combateu os males que faziam o povo sofrer e chorar: combateu a fome, pois alimentou os famintos (Mc 6,30-44; 8,1-10); combateu a doença, pois curou os enfermos (Mt 4, 24; 8,16-17); combateu os males da natureza, pois acalmou as tempestades (Mt 14,32; 8,23-27); expulsou os maus espíritos e os proibia de falar (Mc 1,23-27.34; Lc 4,13); combateu a ignorância, pois ensinava o povo (Mt 9, 35; Mc 1,22); combateu o abandono e a solidão, pois acolhia as pessoas e não as marginalizava (Mt 9,36; 11,28-30); combateu as leis que oprimiam, pois colocou o ser humano como objetivo de todas as leis (Mt 12,1-5; 23,13-15; Mc 2,23-28); combateu a opressão, pois acolhia o povo oprimido (Mt 11,28-30; Lc 22,25); combateu o medo, pois dizia sempre: “Não tenham medo!” (Mt 28,10; Mc 6,50).

Consolando assim os tristes e irradiando alegria do Reino, Jesus revelava o amor solidário do Pai. Ele mesmo se alegrava vendo a alegria dos pequenos: “Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste essas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado” (Lc 11,21; Mt 11,25-26).

Carlos Mesters, O. Carm.

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