Sagrada Família (Ano A)

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus (Mt 2, 13-23)

Depois de partirem, o anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse-lhe: «Levanta-te, toma o menino e sua mãe, foge para o Egipto e fica lá até que eu te avise, pois Herodes procurará o menino para o matar.» E ele levantou-se de noite, tomou o menino e sua mãe e partiu para o Egipto, permanecendo ali até à morte de Herodes. Assim se cumpriu o que o Senhor anunciou pelo profeta: Do Egipto chamei o meu filho. Então Herodes, ao ver que tinha sido enganado pelos magos, ficou muito irado e mandou matar todos os meninos de Belém e de todo o seu território, da idade de dois anos para baixo, conforme o tempo que, diligentemente, tinha inquirido dos magos. Cumpriu-se, então, o que o profeta Jeremias dissera: Ouviu-se uma voz em Ramá, uma lamentação e um grande pranto: É Raquel que chora os seus filhos e não quer ser consolada, porque já não existem.
Morto Herodes, o anjo do Senhor apareceu em sonhos a José, no Egipto, e disse-lhe: «Levanta-te, toma o menino e sua mãe e vai para a terra de Israel, porque morreram os que atentavam contra a vida do menino.» Levantando-se, ele tomou o menino e sua mãe e voltou para a terra de Israel.  Porém, tendo ouvido dizer que Arquelau reinava na Judeia, em lugar de Herodes, seu pai, teve medo de ir para lá. Advertido em sonhos, retirou-se para a região da Galileia e foi morar numa cidade chamada Nazaré; assim se cumpriu o que foi anunciado pelos profetas: Ele será chamado Nazareno.

Chave de leitura

O Evangelho de Mateus foi chamado o “Evangelho do Reino”. Mateus convida-nos a reflectir acerca da vinda do Reino dos Céus. Na estrutura do seu relato evangélico alguns viram um drama em sete actos, que trata da realidade da vinda deste Reino. O drama começa com a preparação para esta vinda do Reino na pessoa do Messias menino e termina com a vinda do Reino no sofrimento e no triunfo com a paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo, Filho de Deus.
A passagem do Evangelho proposta para nossa reflexão, faz parte, por assim dizer, do primeiro acto, no qual Mateus nos apresenta a pessoa de Jesus que cumpre as Escrituras. Mateus é o evangelista que cita mais vezes o Antigo Testamento para demonstrar que em Cristo se cumprem a Lei e os Profetas. Jesus, a realização e a perfeição das Escrituras, veio ao mundo para restabelecer o Reino dos Céus, já anunciado na aliança de Deus com o seu povo. Com a vinda de Cristo, esta aliança não se limita unicamente ao povo hebreu mas alarga-se a todos os povos. Mateus orienta uma comunidade de hebreus cristãos, perseguida pela sinagoga, e convida-a a abrir-se aos gentios. Ele é o escriba sábio que sabe tirar do seu tesouro o que é antigo e o que é novo. O Evangelho foi escrito originariamente em arameu e depois redigido em grego.
Mateus 2, 13-23 faz parte da secção que trata do nascimento e da infância de “Jesus Cristo filho de David, filho de Abraão” (Mt 1, 1). Jesus é filho do seu povo mas também é filho de toda a humanidade. Na sua genealogia encontram-se influências estrangeiras (Mt 1, 3-6). Os primeiros a serem chamados para homenagearem o recém-nascido, além de Maria sua Mãe (Mt 2, 11), são os Magos. O Messias atrai os sábios com a sua luz oferecendo-lhes a salvação (Mt 2, 1-12). Os Magos recebem esta salvação em contraste com Herodes e uma Jerusalém perturbada (Mt 2, 3). Desde o seu nascimento, Jesus é perseguido pelos chefes do seu povo e ao mesmo tempo revive as experiências dolorosas desse mesmo povo.
Já desde o seu nascimento revive as várias experiências de exílio e de humilhação do seu povo. O Evangelho mostra-nos isto com o relato da fuga para o Egipto e a matança dos inocentes. O drama destes acontecimentos desenrola-se diante de nós nestas secções: 1) O anjo que aparece em sonhos a José depois da partida dos Magos e a fuga para o Egipto (Mt 2, 13-15). 2) – Herodes dá-se conta de que foi enganado pelos Magos e mata todos os meninos de Belém (Mt 2, 16-18). 3) – A morte de Herodes e o regresso “clandestino” da Sagrada Família, não a Belém mas à Galileia (Mt 2, 19-23).

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Natal: um rio de luz e amor

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Quando os dias se tornam mais curtos, quando no inverno caem os primeiros flocos de neve, então, docemente, renasce a lembrança do Natal. Desta palavra emana um encanto misterioso ao qual dificilmente o coração pode resistir. Até aqueles para quem a evocação do Menino de Belém nada significa, crentes de outra Fé ou descrentes, preparam a festa e tentam acender aqui e além um raio de alegria. Durante semanas e meses, um rio de amor espalha-se pela terra.

Santa Teresa Benedita da Cruz

 

Em todo o tempo, mas com maior intensidade em cada Natal, a boa notícia de Jesus ressoa aos nossos ouvidos e alimenta o coração e a mente, quando proclama: “Tanto amou Deus o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigénito, a fim de que todo o que crê nele não se perca, mas tenha a vida eterna” (Jo 3, 16).

Caminhos Carmelitas e a Ordem do Carmo em Portugal enviam aos seus amigos e leitores os melhores votos de um Santo e Feliz Natal e que o Ano de 2014 seja cheio de Graça.

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Oração pelas vocações carmelitas

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Pai santo, Vós quisestes que a Ordem do Carmo fosse ornada com o nome da humilde Mãe do ‎vosso Filho: concedei a esta vossa Família muitas e santas vocações religiosas, contemplativas, ‎missionárias e laicais, que, em íntima união convosco, pela oração, fraternidade e zelo ‎apostólico, a exemplo do profeta Elias e da Virgem Maria, testemunhem ao mundo o vosso amor ‎misericordioso e levem a todos, no fogo do Espírito, a presença viva e transformante de ‎Jesus Cristo, vosso Filho, nosso Senhor, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo. Amen.‎

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Consagração a Nossa Senhora do Carmo

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Ó Maria, Mãe e decoro do Carmelo, consagro-te hoje e sempre a minha vida, como uma pequena homenagem de gratidão por todas as graças que através da tua intercessão recebi de Deus. Tu cuidas com especial carinho os que trazem devotamente o teu escapulário: suplico-te que ampares a minha fragilidade com as tuas virtudes, que ilumines com a tua sabedoria as trevas da minha mente, e que avives em mim a fé, a esperança e a caridade, para que possa em cada dia crescer no amor a Deus e na devoção para contigo. Que o escapulário atraia sobre mim o teu olhar maternal e a tua protecção nas lutas diárias, e que eu seja sempre fiel ao teu Filho Jesus e a ti, evitando todo o pecado e imitando as tuas virtudes. Quero oferecer a Deus, através das tuas mãos, todo o bem que fizer com a ajuda da tua graça; a tua bondade me alcance o perdão dos meus pecados e uma constante fidelidade ao Senhor. Ó Mãe amabilíssima, que o teu amor me alcance um dia trocar o teu escapulário pela eterna veste nupcial, e viver contigo e com os santos do Carmelo na felicidade do Reino de teu Filho, Ele que vive e reina pelos séculos dos séculos. Amen.

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A Igreja tem uma alma

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Quem não vê a manifestação do Espírito Santo na Igreja não compreende bem a essência da própria Igreja. Conhecer esta realidade é a mais segura garantia da prosperidade da Igreja.

Beato Tito Brandsma

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A alegria de Deus é perdoar

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Prezados irmãos e irmãs, bom dia!

Na Liturgia de hoje lê-se o capítulo 15 do Evangelho de Lucas, que contém as três palavras da misericórdia: a da ovelha tresmalhada, a da moeda perdida e depois a maior de todas as parábolas, típica de são Lucas, a do pai e dos dois filhos, o filho «pródigo» e o filho que se julga «justo», que se crê santo. Estas três parábolas falam da alegria de Deus. Deus é alegre! E isto é interessante: Deus é alegre! E em que consiste a alegria de Deus? A alegria de Deus é perdoar, a alegria de Deus é perdoar! É o júbilo de um pastor que encontra a sua ovelha; a alegria de uma mulher que encontra a sua moeda; é a felicidade de um pai que volta a receber em casa o filho que se tinha perdido, que estava morto e reviveu, voltou para casa. Aqui está o Evangelho inteiro! Aqui está! Aqui está o Evangelho inteiro, todo o Cristianismo! Mas vede que não se trata de sentimento, não é «moralismo»! Pelo contrário, a misericórdia é a verdadeira força que pode salvar o homem e o mundo do «câncer» que é o pecado, o mal moral, o mal espiritual. Só o amor preenche os vazios, os abismos negativos que o mal abre no coração e na história. Somente o amor pode fazer isto, e esta é a alegria de Deus!

Jesus é todo misericórdia, Jesus é todo amor: é Deus que se fez homem. Cada um de nós, cada um de nós é aquela ovelha tresmalhada, a moeda perdida; cada um de nós é aquele filho que esbanjou a própria liberdade, seguindo ídolos falsos, miragens de felicidade, e perdeu tudo. Mas Deus não se esquece de nós, o Pai nunca nos abandona. É um Pai paciente, espera-nos sempre! Respeita a nossa liberdade, mas permanece sempre fiel. E quando voltamos para Ele, acolhe-nos como filhos na sua casa, porque nunca, nem sequer por um momento, deixa de esperar por nós com amor. E o seu coração rejubila com cada filho que volta para Ele. Faz festa, porque é alegria. Deus tem esta alegria, cada vez que um de nós, pecadores, vamos ter com Ele e pedimos o seu perdão.

Qual é o perigo? É que nós presumimos que somos justos e julgamos os outros. Julgamos até Deus, porque pensamos que Ele deveria castigar os pecadores, condená-los à morte, em vez de perdoar. Então sim que corremos o risco de permanecer fora da casa do Pai! Como aquele irmão mais velho da parábola, que em vez de ficar feliz porque o seu irmão voltou, irrita-se com o pai que o recebeu e faz festa. Se no nosso coração não há misericórdia, a alegria do perdão, não estamos em comunhão com Deus, ainda que observemos todos os preceitos, porque é o amor que salva, não apenas a prática dos preceitos. É o amor a Deus e ao próximo que dá cumprimento a todos os mandamentos. E este é o amor de Deus, a sua alegria: perdoar. Ele espera-nos sempre! Talvez alguém no seu coração tenha algum peso: «Mas eu fiz isto, fiz aquilo…». Ele espera-te! Ele é Pai: espera-nos sempre!

Se vivermos segundo a lei do «olho por olho, dente por dente», jamais sairemos da espiral do mal. O Maligno é astuto e ilude-nos que com a nossa justiça humana podemos salvar-nos a nós mesmos e o mundo. Na realidade, só a justiça de Deus nos pode salvar! E a justiça de Deus revelou-se na Cruz: a Cruz é o juízo de Deus sobre todos nós e sobre este mundo. Mas como nos julga Deus? Dando a vida por nós! Eis o gesto supremo de justiça que derrotou de uma vez por todas o Príncipe deste mundo; e este gesto supremo de justiça é também, precisamente, o gesto supremo de misericórdia. Jesus chama todos nós a seguir este caminho: «Sede misericordiosos, como o vosso Pai é misericordioso» (Lc 6, 36). Agora, peço-vos algo. Em silêncio, todos pensemos… cada um pense numa pessoa com a qual não está bem, com a qual está irritado, da qual não gosta. Pensemos naquela pessoa e em silêncio, neste momento, oremos por essa pessoa, sejamos misericordiosos para com aquela pessoa. [silêncio de oração].

Agora, invoquemos a intercessão de Maria, Mãe da Misericórdia. 

Papa Francisco

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33º Domingo do Tempo Comum (C)

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas (Lc 21, 5-19)

Como alguns falassem do templo, dizendo que estava adornado de belas pedras e de ofertas votivas, respondeu: «Virá o dia em que, de tudo isto que estais a contemplar, não ficará pedra sobre pedra. Tudo será destruído.» Perguntaram-lhe, então: «Mestre, quando sucederá isso? E qual será o sinal de que estas coisas estão para acontecer?» Ele respondeu: «Tende cuidado em não vos deixardes enganar, pois muitos virão em meu nome, dizendo: ‘Sou eu’; e ainda: ‘O tempo está próximo.’ Não os sigais. Quando ouvirdes falar de guerras e revoltas, não vos alarmeis; é necessário que estas coisas sucedam primeiro, mas não será logo o fim.»

Disse-lhes depois: «Há-de erguer-se povo contra povo e reino contra reino. Haverá grandes terramotos e, em vários lugares, fomes e epidemias; haverá fenómenos apavorantes e grandes sinais no céu.» «Mas, antes de tudo, vão deitar-vos as mãos e perseguir-vos, entregando-vos às sinagogas e metendo-vos nas prisões; hão-de conduzir-vos perante reis e governadores, por causa do meu nome. Assim, tereis ocasião de dar testemunho. Gravai, pois, no vosso coração, que não vos deveis preocupar com a vossa defesa, porque Eu próprio vos darei palavras de sabedoria, a que não poderão resistir ou contradizer os vossos adversários. Sereis entregues até pelos pais, irmãos, parentes e amigos. Hão-de causar a morte a alguns de vós e sereis odiados por todos, por causa do meu nome. Mas não se perderá um só cabelo da vossa cabeça. Pela vossa constância é que sereis salvos.»

Mensagem

O discurso escatológico que Lucas nos traz é uma apresentação teológica onde aparecem, em pano de fundo, três momentos da história da salvação: a destruição de Jerusalém, o tempo da missão da Igreja e a vinda do Filho do Homem (que porá fim ao “tempo da Igreja” e trará a plenitude do “Reino de Deus”).

O texto começa com o anúncio da destruição de Jerusalém (vers. 5-6). Na perspectiva profética, Jerusalém é o lugar onde deve irromper a salvação de Deus (cf. Is 4,5-6; 54,12-17; 62; 65,18-25) e para onde convergirão todos os povos empenhados em ter acesso a essa salvação (cf. Is 2,2-3; 56,6-8; 60,3; 66,20-23). No entanto, Jerusalém recusou a oferta de salvação que Jesus veio trazer. A destruição da cidade e do Templo significa que Jerusalém deixou de ser o lugar exclusivo e definitivo da salvação. A Boa Nova de Jesus vai, portanto, deixar Jerusalém e partir ao encontro de todos os povos. Começa, assim, uma outra fase da história da salvação: começa o “tempo da Igreja” – o tempo em que a comunidade dos discípulos, caminhando na história, testemunhará a salvação a todos os povos da terra.

Vem, depois, uma reflexão sobre o “tempo da Igreja”, que culminará com a segunda vinda de Jesus (vers. 7-19). Como será esse tempo? Como vivê-lo?

Em primeiro lugar, Lucas sugere que, após a destruição de Jerusalém, surgirão falsos messias e visionários que anunciarão o fim (o que é, aliás, vulgar em épocas de crise e de catástrofe). Lucas avisa: “não sigais atrás deles” (vers. 8); e esclarece: “não será logo o fim” (vers. 9). A destruição de Jerusalém no ano 70 pelas tropas de Tito deve ter parecido aos cristãos o prenúncio da segunda vinda de Jesus e alguns pregadores populares deviam alimentar essas ilusões. Mas Lucas (que escreve durante os anos 80) está apostado em eliminar essa febre escatológica que crescia em certos sectores cristãos: em lugar de viverem obcecados com o fim, os cristãos devem preocupar-se em viver uma vida cristã cada vez mais comprometida com a transformação “deste” mundo.

Em segundo lugar, Lucas diz aos cristãos o que acontecerá nesse “tempo de espera”: paulatinamente, irá surgindo um mundo novo. Para dizer isto, Lucas recorre a imagens apocalípticas (“há-de erguer-se povo contra povo e reino contra reino” – vers. 10, cf. Is 19,2; 2 Cr 15,6; “haverá grandes terramotos e, em diversos lugares, fome e epidemias; haverá fenómenos espantosos e grandes sinais no céu” – vers. 11), muito usadas pelos pregadores populares da época para falar da queda do mundo velho – o mundo do pecado, do egoísmo, da exploração – e do surgimento de um mundo novo. A questão é, portanto, esta: no tempo que medeia entre a queda de Jerusalém e a segunda vinda de Jesus, o “Reino de Deus” ir-se-á manifestando; o mundo velho desaparecerá e nascerá um mundo novo (recordemos que os discípulos não devem esperá-lo de braços cruzados, à espera que Deus faça tudo, mas devem empenhar-se na sua construção). É claro que a libertação plena e definitiva só acontecerá com a segunda vinda de Jesus.

Em terceiro lugar, Lucas põe os cristãos de sobreaviso para as dificuldades e perseguições que marcarão a caminhada histórica da Igreja pelo tempo fora, até à segunda vinda de Jesus. Lucas lembra-lhes, contudo, que não estarão sós, pois Deus estará sempre presente; será com a força de Deus que eles enfrentarão os adversários e que resistirão à tortura, à prisão e à morte; será com a ajuda de Deus que eles poderão, até, resistir à dor de ser atraiçoados pelos próprios familiares e amigos. Quando Lucas escreve este texto, tem bem presente a experiência de uma Igreja que caminha e luta na história para tornar realidade o “Reino” e que, nessa luta, conhece os sofrimentos, as dificuldades, a perseguição e o martírio; as palavras de alento que ele aqui deixa – sobretudo a certeza de que Deus está presente e não abandona os seus filhos – devem ter constituído uma ajuda inestimável para esses cristãos a quem o Evangelho se destinava.

O discurso escatológico define, portanto, a missão da Igreja na história (até à segunda vinda de Jesus): dar testemunho da Boa Nova e construir o Reino. Os discípulos nada deverão temer: haverá dificuldades, mas eles terão sempre a ajuda e a força de Deus.

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Ano da Fé – LXII

A MORTE JESUS E A MORTE DO CRISTÃO

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Será que a morte terá sentido, ou melhor, fará sentido um homem morrer? Aparentemente, dir-se-ia que não. O homem é todo ele desejo de viver e com todo o seu ser recusa a morte, mas ela aproxima-se inevitavelmente. Somos por natureza transitórios.

Embora a caducidade seja natural, a morte, vivida como solidão angustiada e impotente, não faz pare do desígnio da criação: “Deus não é o autor da morte, e a perdição dos vivos não Lhe dá nenhuma alegria” (Sab 1, 13). Pelo contrário, pertence à condição histórica da humanidade pecadora, afastada da comunhão original com Deus: “O pecado entrou no mundo e, com o pecado, a morte” (Rom 5, 12). Deste facto derivam o seu carácter de violência e de ameaça e o seu ferrão venenoso.

Jesus, embora não tivesse pecado, tomou a condição humana comum. Sentiu “pavor e angústia” (Mc 14, 33), “com grande clamor e lágrimas” (Heb 5, 7). Mas entregou-se confiadamente à vontade do Pai, ofereceu-se inteiramente pelo bem dos homens. Fez da sua morte um acto pessoal cheio de sentido. A ressurreição revelou a fecundidade da sua doação e deu um fundamento sólido à esperança dos crentes. O seu testemunho impele-os a segui-lo, confiantes no Pai omnipotente e misericordioso, cheios de amor pelos irmãos, preparados para acreditar na vida, mesmo nas trevas da morte.

O cristão teme a morte como todos os homens e como o próprio Jesus. A fé não o livra desta condição mortal. Todavia, sabe que já não está só. Obediente ao último chamamento do Pai, associado a Cristo crucificado e ressuscitado, confortado pelo Espírito Santo, pode vencer a angústia, muitas vezes, até transformá-la em alegria. Pode exclamar com o apóstolo Paulo: “A morte foi tragada pela vitória. Onde está, ó morte, a tua vitória?” (1Cor 15, 54-55). Então, a morte assume o significado de um acto supremo de confiança na vida e de amor a Deus e a todos os homens.

Quero ver Deus, e para O ver é preciso morrer (Santa Teresa de Jesus).

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Carta do Papa ao Capítulo Geral dos Frades Carmelitas

CARTA DO PAPA FRANCISCO AOS CARMELITAS
POR OCASIÃO DO CAPÍTULO GERAL 2013

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Ao Reverendíssimo Padre
Fernando Millán Romeral
Prior Geral da Ordem dos Irmãos da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo

Dirijo-me a vós, queridos Irmãos da Ordem da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo, que celebrais neste mês de Setembro o Capítulo Geral. Num momento de graça e renovação, que vos chama a discernir a missão da gloriosa Ordem Carmelita, desejo dirigir-vos uma palavra de encorajamento e de esperança. O antigo carisma do Carmelo foi durante oito séculos um dom para toda a Igreja, e continua ainda hoje a oferecer o seu particular contributo para a edificação do Corpo de Cristo e para mostrar ao mundo o seu rosto luminoso e santo. As vossas origens contemplativas brotam da terra da epifania do amor eterno de Deus em Jesus Cristo, Verbo feito carne. Enquanto reflectis sobre a vossa missão como Carmelitas hoje, sugiro-vos que considereis três elementos que podem guiar-vos na realização plena da vossa vocação que é a subida do monte da perfeição: o obséquio de Cristo, a oração e a missão.

Obséquio

A Igreja tem a missão de levar Cristo ao mundo, e para isto, como Mãe e Mestra, convida a cada um a aproximar-se d’Ele.

Na liturgia carmelita da Festa da Virgem do Monte Carmelo contemplamos a Virgem que está “junto à cruz de Cristo”. Esse é também o lugar da Igreja: aproximar-nos de Cristo. E é também o  lugar de cada filho fiel da Ordem Carmelita. A vossa Regra começa com a exortação aos Irmãos a “viver uma vida de obséquio de Jesus Cristo” para o seguir e servir com um coração puro e indiviso. A íntima relação com Cristo realiza-se na solidão, na assembleia fraterna e na missão. “A opção fundamental de uma vida concreta e radicalmente dedicada ao seguimento de Cristo” (Ratio Institutionis Vitae Carmelitae, 8) faz da vossa existência uma peregrinação de transformação no amor. O Concílio Ecuménico Vaticano II recorda o lugar da contemplação no caminho da vida. A Igreja tem “de facto a característica de ser, ao mesmo tempo, humana e divina, visível e dotada de elementos invisíveis, entregue à acção e dada à contemplação, presente no mundo, e contudo, peregrina (Sacrosanctum Concilium, 2). Os antigos eremitas do Monte Carmelo conservaram a memória daquele lugar santo e mesmo exilados e afastados mantinham o olhar e o coração constantemente fixos na glória de Deus. Reflectindo acerca das vossas origens e da vossa história e contemplando a imensa linhagem de quantos viveram através dos séculos o carisma carmelita, descobrireis assim a vossa vocação actual de ser profetas de esperança. E é precisamente nesta esperança que sereis regenerados. Frequentemente o que aparece como novo é algo de muito antigo iluminado por uma nova luz.

Na vossa Regra encontra-se o coração da missão carmelita de então e também de hoje. Enquanto vos preparais para celebrar o oitavo centenário de Alberto, patriarca de Jerusalém em 1214, recordareis que ele formulou um “caminho de vida”, um espaço que vos torna capazes de viver uma espiritualidade totalmente orientada para Cristo. Ele delineou os elementos exteriores e interiores, uma ecologia física do espaço e a armadura espiritual necessária para responder adequadamente à vocação e realizar eficazmente a própria missão.

Num mundo que permanentemente desconhece Cristo e, de facto, o rejeita, sois convidados a aproximar-vos e aderir cada vez mais profundamente a Ele. É um contínuo chamamento a seguir Cristo e a conformar-se com Ele. Isto é de vital importância no nosso mundo tão desorientado, “porque quando se apaga a sua chama, também as outras luzes acabam por perder o seu vigor” (Lumen Fidei, 4). Cristo está presente na vossa fraternidade, na liturgia comunitária e no ministério que vos foi confiado: renovai o obséquio de toda a vossa vida.

Oração

O Santo Padre Bento XVI, antes do vosso Capítulo Geral de 2007, lembrou-vos que “a peregrinação interior da fé para Deus inicia-se com a oração”; e em Castel Gandolfo, em Agosto de 2010, disse-vos: “vós sois aqueles que nos ensinam a orar”. Vós vos definis como contemplativos no meio do povo. Com efeito, se é verdade que sois chamados a viver nas alturas do Carmelo, é também verdade que sois chamados a dar testemunho no meio do povo. A oração é o “caminho real” que nos abre para a profundidade do mistério do Deus Uno e Trino, mas é também o caminho estreito para Deus no meio do povo, peregrino no mundo em direcção à Terra Prometida.

Um dos caminhos mais belos para entrar na oração passa através da Palavra de Deus. A lectio divina conduz ao diálogo directo com o Senhor e mostra os tesouros da sabedoria. A íntima amizade com Ele que nos ama torna-nos capazes de ver com os olhos de Deus, de falar com a sua palavra no coração, de conservar a beleza desta experiência e de compartilhá-la com aqueles que têm fome de eternidade.

O retorno à simplicidade de uma vida centrada no Evangelho é o desafio para a renovação da Igreja, comunidade de fé que sempre encontra novos caminhos para evangelizar o mundo em contínua transformação. Os santos carmelitas foram grandes pregadores e mestres da oração. Isto é o que ainda hoje é pedido ao Carmelo do século XXI. Ao longo da vossa história, os grandes carmelitas foram um forte chamamento à raiz da contemplação, raiz fecunda sempre da oração. Aqui está o coração do vosso testemunho: a dimensão do “contemplativo” da Ordem, para viver, cultivar e transmitir. Desejo que cada um se pergunte a si mesmo: como é a minha vida de contemplação? Quanto tempo dedico diariamente à oração e contemplação? Um carmelita sem esta vida contemplativa é um corpo morto! Hoje, ainda mais do que no passado, é fácil deixar-se distrair pelas preocupações e pelos problemas deste mundo e deixar-se fascinar pelos seus falsos ídolos. O nosso mundo está fracturado de muitas maneiras; o contemplativo, pelo contrário, volta à unidade e constituiu um forte chamamento à unidade. Agora mais do que nunca é o momento de descobrir o caminho interior do amor e dar às pessoas de hoje no testemunho da contemplação, na pregação e na missão não coisas inúteis, mas aquela sabedoria que emerge do “meditar dia e noite na lei do Senhor”, Palavra que sempre conduz junto à Cruz gloriosa de Cristo. Unida à contemplação, a  austeridade de vida não é um aspecto secundário da vossa vida e do vosso testemunho. É uma tentação muito forte, também para vós, cair na mundanidade espiritual. O espírito do mundo é inimigo da vida de oração: nunca se deve esquecer isto! Exorto-vos a que tenhais uma vida mais austera, segundo a vossa mais antiga tradição, uma vida afastada de toda a mundanidade, longe dos critérios do mundo.

Missão

Queridos Irmãos Carmelitas, a vossa missão é a mesma de Jesus. Toda a planificação, todo o confronto seria pouco útil, se o Capítulo não realizasse um caminho de verdadeira renovação. A Família Carmelita conheceu uma maravilhosa “Primavera” em todo o mundo, como fruto, concedido por Deus, do esforço missionário do passado. Toda a missão apresenta por vezes árduos desafios, porque a mensagem evangélica nem sempre é bem acolhida e inclusivamente acontece ser rejeitada violentamente. Nunca nos devemos esquecer que somos lançados para águas turbulentas e desconhecidas, mas Aquele que nos chama à missão dá-nos também a coragem e a força para a realizar. Por isso, celebrais o Capítulo animados pela esperança que jamais morre, com um forte espírito de generosidade na recuperação da vida contemplativa, simplicidade e austeridade evangélica.

Dirigindo-me aos peregrinos na Praça de São Pedro tive ocasião de afirmar: “Todo o cristão e toda a comunidade é missionária na medida em que leva e vive o Evangelho e testemunha o amor de Deus para com todos, especialmente para com aqueles que se encontram em dificuldade. Sede missionários do amor e da ternura de Deus! Sede missionários da misericórdia de Deus, que sempre nos perdoa e tanto nos ama!” (Homilia, 5 de Maio de 2013). O testemunho do Carmelo no passado pertence à profunda tradição espiritual crescida numa das grandes escolas de oração. Esta suscitou a coragem de homens e mulheres que enfrentaram o perigo e inclusivamente a morte. Recordemos somente dois grandes mártires contemporâneos: Santa Teresa Benedita da Cruz e o Beato Tito Brandsma. Pergunto-me então: hoje, entre vós, vive-se com a força e com a coragem destes santos?

Queridos Irmãos do Carmelo, o testemunho do vosso amor e da vossa esperança, radicado na profunda amizade com o Deus vivo, pode chegar como uma “brisa suave”, que renova e revigora a vossa missão eclesial no mundo de hoje. A isto sois chamados. O Rito da Profissão coloca nos vossos lábios estas palavras: “Com esta profissão uno-me à Família Carmelita para viver ao serviço de Deus na Igreja e aspirar à caridade perfeita com a graça do Espírito Santo e a ajuda da Bem-Aventurada Virgem Maria” (Rito da Profissão na Ordem do Carmo).

A Bem-Aventurada Virgem Maria, Mãe e Rainha do Carmelo, acompanhe os vossos passos e torne fecundo em frutos o caminho diário para o Monte de Deus. Invoco sobre toda a Família Carmelita, e em particular sobre os Padres Capitulares, abundantes dons do Espírito Divino, e a todos concedo do coração a implorada Bênção Apostólica.

Vaticano, 22 de Agosto de 2013

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