Discernimento: a desolação

Caros irmãos e irmãs, o discernimento, que nos vem ocupando nestas catequeses, tem a ver sobretudo com as nossas acções e a sua dimensão afectiva, porque Deus fala ao coração. Assim, hoje dedicar-me-ei a reflectir sobre a experiência da desolação, que se manifesta numa certa escuridão da alma, que se sente tíbia, preguiçosa e triste. Aprendermos a ler esta tristeza é importante, para evitar que o tentador a utilize como instrumento para nos desencorajar. Quando o desânimo sobrevém, devemos continuar com firmeza o que nos tínhamos proposto fazer. Se abandonássemos o trabalho ou o estudo por sentir tédio ou tristeza, nunca terminaríamos nada. O mesmo sucede na vida espiritual. Infelizmente, por causa da desolação, alguns abandonam a oração, e até o matrimónio ou a vida religiosa, sem parar, primeiro, a interpretar esse estado de espírito, com a ajuda de uma pessoa prudente. Para quem quer servir o Senhor, há uma regra de ouro: nunca fazer alterações em tempo de desolação. Antes, aproveitar a desolação como uma oportunidade para converter a vida ou para imitar Jesus naquela firme resolução com que rejeitou as tentações. Se soubermos atravessar a solidão e a desolação com esta consciência e abertura ao Espírito Santo, podemos sair delas mais fortes tanto a nível humano como espiritual.

Papa Francisco, Resumo da Audiência Geral, 26 de Outubro, 2022

Catequese completa:

https://www.vatican.va/content/francesco/pt/audiences/2022/documents/20221026-udienza-generale.html

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Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor – Ano B

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos (Mc 14, 1-15, 47)

Dada a extensão do Evangelho deste Domingo de Ramos, apenas é indicada a citação onde pode ser encontrado.

Partilha

Desde o meio-dia até às três da tarde a obscuridade total cobre a terra. Até a natureza sente o efeito da agonia e morte de Jesus. Pregado na cruz, privado de tudo, da sua boca sai um lamento: «Eli, Eli! Lama Sabactani!». Quer dizer: «Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?». É a primeira frase do salmo 22(21). Jesus entra na morte rezando, expressando o abandono que sente. Reza em hebraico. Os soldados que estavam perto d’Ele, e que faziam de guarda, dizem: «Está a chamar por Elias!». Os soldados eram estrangeiros, mercenários contratados pelos romanos. Não compreendiam a língua dos judeus. Pensavam que Eli queria dizer Elias. Jesus pregado na cruz encontra-se num abandono total. Mesmo que quisesse falar com alguém, não seria possível. Permaneceu completamente só: Judas atraiçoou-o, Pedro negou-o, os discípulos fugiram, as amigas estavam muito afastadas, as autoridades escarneciam-no, os que passavam insultavam-no, o próprio Deus o abandona e nenhuma língua serve para comunicar. Este foi o preço que pagou pela sua fidelidade à sua opção de seguir sempre o caminho do amor e do serviço para redimir os seus irmãos. Ele mesmo disse: «O Filho do homem não veio para ser servido mas para servir e dar a vida em resgate de muitos» (Mt 20, 28). No meio do abandono e da obscuridade, Jesus lança um forte grito e morre. Morre lançando o grito dos pobres, porque sabe que Deus escuta o clamor dos pobres (Ex 2, 24; 3, 7; 22, 22.26, etc.). Com esta fé, Jesus entra na morte, seguro de ser escutado. A Carta aos Hebreus comenta: «Ele ofereceu preces e súplicas com fortes gritos e lágrimas àquele que o podia libertar da morte e foi escutado pela sua piedade» (Heb 5, 7). Deus escutou o grito de Jesus e «exaltou-o» (Fil 2, 9). A ressurreição é a resposta de Deus à oração e ao oferecimento que Jesus faz da sua vida. Com a ressurreição de Jesus, o Pai anuncia a todo o mundo esta Boa Nova: «Quem vive a vida como Jesus servindo os irmãos, é vitorioso e viverá para sempre, ainda que morra, mesmo que o matem!». Esta é a Boa Nova do reino que nasce da Cruz.

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3º Domingo da Quaresma – Ano B

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Evangelho de Nossa Senhor Jesus Cristo segundo São João (Jo 2, 13-25)

Estava próxima a Páscoa dos judeus, e Jesus subiu a Jerusalém. Encontrou no templo os vendedores de bois, ovelhas e pombas, e os cambistas nos seus postos. Então, fazendo um chicote de cordas, expulsou-os a todos do templo com as ovelhas e os bois; espalhou as moedas dos cambistas pelo chão e derrubou-lhes as mesas; e aos que vendiam pombas, disse-lhes: «Tirai isso daqui. Não façais da Casa de meu Pai uma feira.»

Os seus discípulos lembraram-se do que está escrito: O zelo da tua casa me devora. Então os judeus intervieram e perguntaram-lhe: «Que sinal nos dás de poderes fazer isto?» Declarou-lhes Jesus, em resposta: «Destruí este templo, e em três dias Eu o levantarei!» Replicaram então os judeus: «Quarenta e seis anos levou este templo a construir, e Tu vais levantá-lo em três dias?» Ele, porém, falava do templo que é o seu corpo. Por isso, quando Jesus ressuscitou dos mortos, os seus discípulos recordaram-se de que Ele o tinha dito e creram na Escritura e nas palavras que tinha proferido.

Enquanto Ele estava em Jerusalém, durante as festas da Páscoa, muitos creram nele ao verem os sinais miraculosos que realizava. Mas Jesus não se fiava deles, porque os conhecia a todos e não precisava de que ninguém o elucidasse acerca das pessoas, pois sabia o que havia dentro delas.

Reflexão

Os quatro evangelistas fazem eco do gesto provocativo de Jesus que expulsa do Templo de Jerusalém os “vendedores” de animais e “cambistas” de dinheiro. Jesus enche-se de indignação. Com um chicote retira do recinto sagrado os animais, revira as mesas dos cambistas, esparramando por terra as suas moedas, e grita: “Tirai isso daqui. Não façais da Casa de meu Pai uma feira”.

João acrescenta um diálogo com os judeus no qual Jesus afirma de maneira solene que, após a destruição do Templo, ele “o levantará em três dias”. Ninguém entendeu o que ele disse. Por isso, o evangelista acrescenta: “Jesus falava do templo de seu corpo”.

O evangelista recorda aos seguidores de Jesus que eles não devem sentir saudades do velho templo, que já não existia quando o evangelista escreve o seu evangelho. Jesus, “destruído” pelas autoridades religiosas, porém “ressuscitado” pelo Pai, é o “novo templo”. Não é uma metáfora atrevida. É uma realidade que deve marcar para sempre a relação dos cristãos com Deus. As portas deste novo templo, que é Jesus, estão abertas a todos. Ninguém está excluído. O Deus que habita em Jesus é de todos e para todos.

Temos que transformar as nossas comunidades cristãs em espaço onde todos possam sentir-se na “casa do Pai”. Uma casa acolhedora que não fecha as portas a ninguém. Uma casa onde aprendamos a escutar o sofrimento dos filhos mais desvalidos de Deus e não somente o nosso próprio interesse. Uma casa onde possamos invocar Deus como Pai porque nos sentimos seus filhos e procuramos viver como irmãos.

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2º Domingo da Quaresma – Ano B

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos (Mc 9, 2-10)

Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João e levou-os, só a eles, a um monte elevado. E transfigurou-se diante deles. As suas vestes tornaram-se resplandecentes, de tal brancura que lavadeira alguma da terra as poderia branquear assim. Apareceu-lhes Elias, juntamente com Moisés, e ambos falavam com Ele. Tomando a palavra, Pedro disse a Jesus: «Mestre, bom é estarmos aqui; façamos três tendas: uma para ti, uma para Moisés e uma para Elias.» Não sabia que dizer, pois estavam assombrados. Formou-se, então, uma nuvem que os cobriu com a sua sombra, e da nuvem fez-se ouvir uma voz: «Este é o meu Filho muito amado. Escutai-o.» De repente, olhando em redor, já não viram ninguém, a não ser só Jesus, com eles. Ao descerem do monte, ordenou-lhes que a ninguém contassem o que tinham visto, senão depois de o Filho do Homem ter ressuscitado dos mortos. Eles guardaram a recomendação, discutindo uns com os outros o que seria ressuscitar de entre os mortos.

Reflexão

A segunda parte do Evangelho de Marcos começa com um anúncio da Paixão, posto na boca de Jesus (cf. Mc 8,31-32). Nesta altura, os discípulos já tinham percebido que Jesus era o Messias libertador que Israel esperava (cf. Mc 8,29); mas ainda acreditavam que a missão messiânica de Jesus se ia concretizar num triunfo militar sobre os opressores romanos. Marcos vai explicar aos crentes a quem o Evangelho se destina que o projecto messiânico de Jesus não se vai concretizar em triunfos humanos, mas sim na cruz – isto é, no amor e no dom da vida.

O relato da transfiguração de Jesus é antecedido do primeiro anúncio da paixão (cf. Mc 8,31-33) e de uma instrução sobre as atitudes próprias do discípulo (convidado a renunciar a si mesmo, a tomar a sua cruz e a seguir Jesus no seu caminho de amor e de entrega da vida – cf. Mc 8,34-38). Depois de terem ouvido falar do “caminho da cruz” e de terem constatado aquilo que Jesus pede aos que O querem seguir, os discípulos estão desanimados e frustrados, pois a aventura em que apostaram parece encaminhar-se para um rotundo fracasso; eles vêem esfumar-se – nessa cruz que irá ser plantada numa colina de Jerusalém – os seus sonhos de glória, de honras, de triunfos e perguntam-se se vale a pena seguir um mestre que nada mais tem para oferecer do que a morte na cruz.

É neste contexto que Marcos coloca o episódio da transfiguração. A cena constitui uma palavra de ânimo para os discípulos (e para os crentes, em geral), pois nela manifesta-se a glória de Jesus e atesta-se que Ele é – apesar da cruz que se aproxima – o Filho amado de Deus. Os discípulos recebem, assim, a garantia de que o projecto que Jesus apresenta é um projecto que vem de Deus; e, apesar das suas próprias dúvidas, recebem um complemento de esperança que lhes permite “embarcar” e apostar nesse projecto que passando pela cruz, que não será a palavra final, no fim do caminho de Jesus (e, consequentemente, dos discípulos que seguirem Jesus) está a ressurreição, a vida plena, a vitória sobre a morte.

Palavra para o caminho

Só Jesus irradia luz. Todos os outros, profetas, mestres, teólogos hierarcas, doutores, pregadores, temos o rosto apagado. Não devemos confundir ninguém com Jesus. Só Ele é o Filho muito Amado. Só a sua Palavra é a única que temos de escutar. Tudo o resto nos deve levar até Ele.

E temos de escutar também hoje, quando nos fala de “carregar a cruz” destes tempos. Hoje são-nos oferecidas mais oportunidades de viver como cristãos “crucificados”. Faz-nos bem. Ajuda-nos a recuperar a nossa identidade cristã.

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5.º Domingo da Quaresma – Ano A

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João (Jo 11, 1-45)

Estava doente um homem chamado Lázaro, de Betânia, terra de Maria e de Marta, sua irmã. Maria, cujo irmão, Lázaro, tinha caído doente, era aquela que ungiu os pés do Senhor com perfume e lhos enxugou com os seus cabelos. Então, as irmãs enviaram a Jesus este recado: «Senhor, aquele que amas está doente.» Ouvindo isto, Jesus disse: «Esta doença não é de morte, mas sim para a glória de Deus, manifestando-se por ela a glória do Filho de Deus.» Jesus era muito amigo de Marta, da sua irmã e de Lázaro.

Mas, quando recebeu a notícia de que este estava doente, ainda se demorou dois dias no lugar onde se encontrava. Só depois é que disse aos discípulos: «Vamos outra vez para a Judeia.» Disseram-lhe os discípulos: «Rabi, há pouco os judeus procuravam apedrejar-te, e Tu queres ir outra vez para lá?» Jesus respondeu: «Não tem doze horas o dia? Se alguém anda de dia, não tropeça, porque tem a luz deste mundo. Mas, se andar de noite, tropeça, porque não tem a luz com ele.» Depois de ter pronunciado estas palavras, acrescentou: «O nosso amigo Lázaro está a dormir, mas Eu vou lá acordá-lo.» Os discípulos disseram então: «Senhor, se ele dorme, vai curar-se!» Mas Jesus tinha falado da sua morte, ao passo que eles julgavam que falava do sono natural. Então, Jesus disse-lhes claramente: «Lázaro morreu; e Eu, por amor de vós, estou contente por não ter estado lá, para assim poderdes crer. Mas vamos ter com ele.» Tomé, chamado Gémeo, disse aos companheiros: «Vamos nós também, para morrermos com Ele.»

Ao chegar, Jesus encontrou-o sepultado havia quatro dias. Betânia ficava perto de Jerusalém, a quase uma légua, e muitos judeus tinham ido visitar Marta e Maria para lhes darem os pêsames pelo seu irmão. Logo que Marta ouviu dizer que Jesus estava a chegar, saiu a recebê-lo, enquanto Maria ficou sentada em casa. Marta disse, então, a Jesus: «Senhor, se Tu cá estivesses, o meu irmão não teria morrido. Mas, ainda agora, eu sei que tudo o que pedires a Deus, Ele to concederá.» Disse-lhe Jesus: «Teu irmão ressuscitará.» Marta respondeu-lhe: «Eu sei que ele há-de ressuscitar na ressurreição do último dia.» Disse-lhe Jesus: «Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crê em mim, mesmo que tenha morrido, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim não morrerá para sempre. Crês nisto?» Ela respondeu-lhe: «Sim, ó Senhor; eu creio que Tu és o Cristo, o Filho de Deus que havia de vir ao mundo.»

Dito isto, voltou a casa e foi chamar sua irmã, Maria, dizendo-lhe em voz baixa: «Está cá o Mestre e chama por ti.» Assim que ela ouviu isto, levantou-se rapidamente e foi ter com Ele. Jesus ainda não tinha entrado na aldeia, mas permanecia no lugar onde Marta lhe viera ao encontro. Então, os judeus que estavam com Maria, em casa, para lhe darem os pêsames, ao verem-na levantar-se e sair à pressa, seguiram-na, pensando que se dirigia ao túmulo para aí chorar. Quando Maria chegou ao sítio onde estava Jesus, mal o viu caiu-lhe aos pés e disse-lhe: «Senhor, se Tu cá estivesses, o meu irmão não teria morrido.» Ao vê-la a chorar e os judeus que a acompanhavam a chorar também, Jesus suspirou profundamente e comoveu-se. Depois, perguntou: «Onde o pusestes?» Responderam-lhe: «Senhor, vem e verás.» Então Jesus começou a chorar. Diziam os judeus: «Vede como era seu amigo!» Mas alguns deles murmuravam: «Então, este que deu a vista ao cego não podia também ter feito com que Lázaro não morresse?»

Jesus, suspirando de novo intimamente, foi até ao túmulo. Era uma gruta fechada com uma pedra. Disse Jesus: «Tirai a pedra.» Marta, a irmã do defunto, disse-lhe: «Senhor, já cheira mal, pois já é o quarto dia.» Jesus replicou-lhe: «Eu não te disse que, se creres, verás a glória de Deus?» Quando tiraram a pedra, Jesus, erguendo os olhos ao céu, disse: «Pai, dou-te graças por me teres atendido. Eu já sabia que sempre me atendes, mas Eu disse isto por causa da gente que me rodeia, para que venham a crer que Tu me enviaste.»

Dito isto, bradou com voz forte: «Lázaro, vem cá para fora!» O que estava morto saiu de mãos e pés atados com ligaduras e o rosto envolvido num sudário. Jesus disse-lhes: «Desligai-o e deixai-o andar.» Então, muitos dos judeus que tinham vindo a casa de Maria, ao verem o que Jesus fez, creram nele.

O significado da ressurreição de Lázaro

Em Betânia. Tudo acontece em Betânia, uma povoação aos pés do Monte das Oliveiras, junto a Jerusalém. Nesta narração, a família de Lázaro, onde Jesus costumava e gostava de hospedar-se, é o espelho da comunidade do Discípulo Amado do fim do século primeiro. É também espelho das nossas comunidades. Betânia quer dizer “Casa dos Pobres”. Marta quer dizer “Senhora” (Coordenadora): uma mulher coordenava a comunidade. Lázaro significa “Deus ajuda”: a comunidade pobre que tudo esperava de Deus. Maria significa “Amada de Yahvé” imagem da comunidade. A narração da ressurreição de Lázaro quer comunicar esta certeza: Jesus leva a vida à comunidade dos pobres; Ele é a fonte da vida para os que crêem n’Ele.

Entre a vida e a morte. Lázaro morreu. Muitos judeus encontram-se na casa de Marta e de Maria para consolá-las pela morte do irmão. Os representantes da Antiga Aliança não trazem a vida nova. Apenas consolam. Jesus é o que traz a vida nova! No Evangelho de João, os judeus são também os adversários que querem matar Jesus (Jo 10, 31). De uma parte, a ameaça de morte contra Jesus e de outra, Jesus que chega para vencer a morte! É neste contexto de vida e morte que se realiza o sétimo sinal da ressurreição de Lázaro, a vitória sobre a morte.

Dois modos de acreditar na ressurreição. O ponto central é o confronto entre o modo antigo de crer na ressurreição, que só terá lugar no fim dos tempos, e o modo novo trazido por Jesus que, desde agora, vence a morte. Marta, os fariseus, e a maioria do povo já acreditavam na ressurreição (Act 23, 6-10; Mc 12, 18). Acreditavam mas não a revelavam, porque era fé numa ressurreição que aconteceria somente no fim dos tempos e não na ressurreição na hora presente da história, que é agora. Aquela não renovava a vida. Faltava dar um salto. A vida nova da ressurreição aparecerá com Jesus.

A profissão de fé em Jesus é a profissão de fé na vida. Jesus desafia Marta para que faça este salto. Não basta acreditar na ressurreição que terá lugar no fim dos tempos, mas deve-se acreditar na ressurreição que está já presente no nosso hoje na pessoa de Jesus e nos que crêem n’Ele. Sobre estes a morte não tem poder algum porque Jesus é a “ressurreição e a vida”. Portanto, Marta, mesmo ainda sem ver o sinal concreto da ressurreição de Lázaro, confessa a sua fé: “Sim, Senhor. Eu creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que devia vir ao mundo”.

Humano, muito humano, em tudo igual a nós. Depois da profissão de fé, Marta vai chamar a sua irmã Maria. Maria vai ao encontro de Jesus. Ela repete a mesma frase de Marta: “Senhor, se estivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido” (Jo 11, 21). Maria chora como choram todos os outros. Jesus comove-se. Quando os pobres choram, Jesus comove-se e chora também. Perante o pranto de Jesus os outros dizem. “Vede como o amava!”. Esta é a característica das comunidades do Discípulo Amado: o amor mútuo entre Jesus e os membros da comunidade. Alguns, contudo, não crêem e duvidam: “Então, este que deu a vista ao cego não podia também ter feito com que Lázaro não morresse?” (Jo 11, 33.35.38). É desta forma que João acentua a humanidade de Jesus contra aqueles que, pelo fim do século primeiro, espiritualizavam a fé e negavam a humanidade de Jesus.

A nós compete-nos tirar a pedra para que Deus nos devolva a vida. Jesus manda que retirem a pedra. Marta diz: “Senhor, já cheira mal, pois já é o quarto dia”. Uma vez mais Jesus desafia-a, chamando-a de novo à fé na ressurreição, que é agora, como um sinal da glória de Deus: “Eu não te disse que, se creres, verás a glória de Deus?”. Retiraram a pedra. Perante o sepulcro aberto e a incredulidade das pessoas, Jesus dirige-se ao Pai. Na sua prece, diante de todos, dá graças ao Pai: “Pai, eu te dou graças porque me escutaste; eu sei que sempre me escutas”. O Pai de Jesus é o mesmo Deus que escuta sempre o grito do pobre (Ex 2, 24; 3, 7). Jesus conhece o Pai e confia n’Ele. Agora pede-lhe um sinal por causa da multidão que o rodeia, para que acredite e confie n’Ele, Jesus, o enviado do Pai. Depois grita em alta voz: “Lázaro, sai para fora!”. Um agricultor do interior do Brasil fez o seguinte comentário: “Toca-nos a nós remover a pedra! E assim Deus ressuscita a comunidade. Há gente que não quer remover a pedra e por isso na sua comunidade não há vida!”.

Palavra para o caminho

A vida é esperança. Estão vivos aqueles que esperam. Depois do momento do nosso nascimento, em que fomos criados, somos habitados pela esperança. Não cessamos de procurar, esperar, desejar. Procuramos os sinais de Deus? Esperamos a sua vinda? Desejamos a sua presença? Neste tempo da Quaresma, somos convidados à conversão. A esperança opera uma mudança nos nossos comportamentos. Não nos contentemos com esperanças que nos podem decepcionar. Nós vivemos de esperança, porque Deus não pode decepcionar-nos. Porque o nosso Deus é um Deus que fala, somos chamados por Ele. A esperança faz-nos escutar os seus apelos e responder-lhes. Sejamos vivos. Sê-lo-emos se nós esperamos.

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4.º Domingo da Quaresma – Ano A

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João (Jo 9, 1-41)

Ao passar, Jesus viu um homem cego de nascença. Os seus discípulos perguntaram-lhe, então: «Rabi, quem foi que pecou para este homem ter nascido cego? Ele, ou os seus pais?» Jesus respondeu: «Nem pecou ele, nem os seus pais, mas isto aconteceu para nele se manifestarem as obras de Deus. Temos de realizar as obras daquele que me enviou enquanto é dia. Vem aí a noite, em que ninguém pode actuar. Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo.» Dito isto, cuspiu no chão, fez lama com a saliva, ungiu-lhe os olhos com a lama e disse-lhe: «Vai, lava-te na piscina de Siloé» – que quer dizer Enviado. Ele foi, lavou-se e regressou a ver. Então, os vizinhos e os que costumavam vê-lo antes a mendigar perguntavam: «Não é este o que estava por aí sentado a pedir esmola?» Uns diziam: «É ele mesmo!» Outros afirmavam: «De modo nenhum. É outro parecido com ele.» Ele, porém, respondia: «Sou eu mesmo!»

Então, perguntaram-lhe: «Como foi que os teus olhos se abriram?» Ele respondeu: «Esse homem, que se chama Jesus, fez lama, ungiu-me os olhos e disse-me: ‘Vai à piscina de Siloé e lava-te.’ Então eu fui, lavei-me e comecei a ver!» Perguntaram-lhe: «Onde está Ele?» Respondeu: «Não sei.»

Levaram aos fariseus o que fora cego. O dia em que Jesus tinha feito lama e lhe abrira os olhos era sábado. Os fariseus perguntaram-lhe, de novo, como tinha começado a ver. Ele respondeu-lhes: «Pôs-me lama nos olhos, lavei-me e fiquei a ver.» Diziam então alguns dos fariseus: «Esse homem não vem de Deus, pois não guarda o sábado.» Outros, porém, replicavam: «Como pode um homem pecador realizar semelhantes sinais miraculosos?» Havia, pois, divisão entre eles. Perguntaram, então, novamente ao cego: «E tu que dizes dele, por te ter aberto os olhos?» Ele respondeu: «É um profeta!»

Ora os judeus não acreditaram que aquele homem tivesse sido cego e agora visse, até que chamaram os pais dele. E perguntaram-lhes: «É este o vosso filho, que vós dizeis ter nascido cego? Então como é que agora vê?» Os pais responderam: «Sabemos que este é o nosso filho e que nasceu cego; mas não sabemos como é que agora vê, nem quem foi que o pôs a ver. Perguntai-lhe a ele. Já tem idade para falar de si.» Os pais responderam assim por terem receio dos judeus, pois estes já tinham combinado expulsar da sinagoga quem confessasse que Jesus era o Messias. Por isso é que os pais disseram: ‘Já tem idade, perguntai-lhe a ele’.

Chamaram, então, novamente o que fora cego, e disseram-lhe: «Dá glória a Deus! Quanto a nós, o que sabemos é que esse homem é um pecador!» Ele, porém, respondeu: «Se é um pecador, não sei. Só sei uma coisa: que eu era cego e agora vejo.» Eles insistiram: «O que é que Ele te fez? Como é que te pôs a ver?» Respondeu-lhes: «Eu já vo-lo disse, e não me destes ouvidos. Porque desejais ouvi-lo outra vez? Será que também quereis fazer-vos seus discípulos?» Então, injuriaram-no dizendo-lhe: «Discípulo dele és tu! Nós somos discípulos de Moisés! Sabemos que Deus falou a Moisés; mas, quanto a esse, não sabemos donde é!» Replicou-lhes o homem: «Ora isso é que é de espantar: que vós não saibais donde Ele é, e me tenha dado a vista! Sabemos que Deus não atende os pecadores, mas se alguém honrar a Deus e cumprir a sua vontade, Ele o atende. Jamais se ouviu dizer que alguém tenha dado a vista a um cego de nascença. Se este não viesse de Deus, não teria podido fazer nada.» Responderam-lhe: «Tu nasceste coberto de pecados e dás-nos lições?» E puseram-no fora.

Jesus ouviu dizer que o tinham expulsado e, quando o encontrou, disse-lhe: «Tu crês no Filho do Homem?» Ele respondeu: «E quem é, Senhor, para eu crer nele?» Disse-lhe Jesus: «Já o viste. É aquele que está a falar contigo.» Então, exclamou: «Eu creio, Senhor!» E prostrou-se diante dele.

Jesus declarou: «Eu vim a este mundo para proceder a um juízo: de modo que os que não vêem vejam, e os que vêem fiquem cegos.» Alguns fariseus que estavam com Ele ouviram isto e perguntaram-lhe: «Porventura nós também somos cegos?» Jesus respondeu-lhes: «Se fôsseis cegos, não estaríeis em pecado; mas, como dizeis que vedes, o vosso pecado permanece.»

Chave de leitura

O texto do Evangelho deste 4º Domingo da Quaresma convida-nos a meditar a história da cura de um cego de nascença. Encontramos aqui um exemplo concreto de como o 4º Evangelho revela o sentido profundo escondido nos factos da vida de Jesus. A história da cura do cego ajuda-nos a abrir os olhos acerca da imagem que cada um tem de Jesus. Muitas vezes, nas nossas cabeças, há um Jesus que parece um rei glorioso, distante da vida do povo. Nos Evangelhos, Jesus aparece como um Servo dos pobres, amigo dos pecadores. A imagem do Messias-Rei, que os fariseus tinham na sua mente impedia-os de reconhecer Jesus como Messias-Servo.

Contexto em que foi escrito o Evangelho de João

Meditando a história do cego de nascença, faz bem recordar o contexto das comunidades cristãs da Ásia Menor nos finais do século I, para as quais João escreveu o seu Evangelho e que se identificavam com o cego e a sua cura. Elas mesmas, por causa de uma visão legalista da lei de Deus, eram cegas de nascimento. Mas, como aconteceu com o cego, também elas conseguiram ver a presença de Deus na pessoa de Jesus de Nazaré e converteram-se. Foi um processo doloroso! Na descrição das etapas e dos conflitos da cura do cego, o autor do quarto Evangelho evoca o percurso espiritual das comunidades, desde a escuridão até à plena luz da fé iluminada por Cristo.

Comentário do texto

Jo 9, 1-5: A cegueira perante o mal que existe no mundo. Vendo o cego, os discípulos perguntaram:”Rabi, quem foi que pecou para este homem ter nascido cego? Ele, ou os seus pais?”. Naquela época um defeito físico ou uma doença eram considerados como um castigo de Deus. Associar os defeitos físicos ao pecado era um modo através do qual os sacerdotes da Antiga Aliança mantinham o seu poder sobre a consciência do povo. Jesus ajuda a corrigir esta visão: “Nem pecou ele, nem os seus pais, mas isto aconteceu para nele se manifestarem as obras de Deus”. Obras de Deus é o mesmo que Sinais de Deus. O que era naquela época sinal da ausência de Deus, será sinal da sua presença luminosa no meio de nós. Jesus diz: “Temos de realizar as obras daquele que me enviou enquanto é dia. Vem aí a noite, em que ninguém pode actuar. Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo”. O Dia dos sinais começa a manifestar-se quando Jesus “ao terceiro dia” (Jo 2, 1) realiza “o primeiro sinal” em Caná (Jo 2, 11). Mas o Dia está por terminar. A noite está para chegar, porque estamos já no “sétimo dia”, o sábado, e a cura do cego é o sexto sinal (Jo 9, 14). A Noite é a morte de Jesus. O sétimo sinal será a vitória sobre a morte na ressurreição de Lázaro (Jo 11). No Evangelho de João há só sete sinais, milagres, que anunciam o grande sinal da Morte e Ressurreição de Jesus.

Jo 9, 6-7: O sinal de “Enviado de Deus” produz diversas reacções. Jesus cospe na terra, faz lama com a saliva, unge com lama os olhos do cego e pede-lhe que se vá lavar à piscina de Siloé. O homem vai e volta curado. Este é o sinal! João comenta dizendo que Siloé significa enviado. Jesus é o Enviado do Pai que realiza as obras de Deus, os sinais do Pai. O sinal deste “envio” é que o cego começa a ver.

Jo 9, 8-13: A reacção dos vizinhos. O cego é muito conhecido. Os vizinhos ficam na dúvida: “Não é este o que estava por aí sentado a pedir esmola? Então, perguntaram-lhe: «Como foi que os teus olhos se abriram?”. O que era cega atesta. “Esse Homem que se chama Jesus abriu-me os olhos”. O fundamento da fé em Jesus é aceitar que Ele é um ser humano como nós. Os vizinhos perguntam: “Onde está?” – “Não sei”, responde o que fora cego. Eles não ficam satisfeitos com a resposta do cego e para esclarecer o assunto levam o homem aos fariseus, as autoridades religiosas.

Jo 9, 14-17: A reacção dos fariseus. Aquela dia era um sábado, dia em que era proibido curar. Interrogado pelos fariseus, o homem volta de novo a contar tudo. Alguns fariseus, cegos pela observância da lei, comentam: “Este homem não vem de Deus porque não guarda o sábado!”. E não estavam dispostos a admitir que Jesus pudesse ser um sinal de Deus, porque tinha feito a cura do cego ao sábado. Mas outros fariseus, interpelados pelo sinal, respondem: “Como pode um pecador realizar semelhante sinal?”. E havia divisão entre eles. E perguntaram ao cego: “E tu que dizes acerca dele já que te abriu os olhos?”. E ele dá o seu testemunho: “É um Profeta!”.

Jo 9, 18-23: A reacção dos pais. Os fariseus, chamados agora judeus, não acreditavam que aquele homem tivesse sido cego. Pensavam que se tratava de um engano. Por isso mandaram chamar os pais e perguntaram-lhes: “É este o vosso filho, que vós dizeis ter nascido cego? Então como é que agora vê?”. Com muita cautela os pais responderam: “Sabemos que este é o nosso filho e que nasceu cego; 21mas não sabemos como é que agora vê, nem quem foi que o pôs a ver. Perguntai-lhe a ele. Já tem idade para falar de si”. A cegueira dos fariseus diante da evidência da cura produz temor nas pessoas. Quem confessasse ter fé em Cristo Messias era expulso da sinagoga. A conversa com os pais do cego revela a verdade, mas autoridades religiosas negam-se a aceitá-la. A sua cegueira é maior do que a evidência dos factos. Eles, que tanto insistiam na observância da lei, agora não querem aceitar a lei que declara válido o testemunho de duas pessoas (Jo 8, 17).

Jo 9, 24-34: A sentença final dos fariseus relativamente a Jesus. Chamam de novo o cego e dizem-lhe: “Dá glória a Deus. Nós sabemos que esse homem é um pecador”. Neste caso “dar glória a Deus” significava: Pede perdão pela mentira que há pouco disseste! O cego dissera: “É um Profeta!”. Segundo os fariseus deveria dizer: “É um pecador!”. Mas o cego é inteligente e responde: “Se é um pecador, não sei. Só sei uma coisa: que eu era cego e agora vejo”. Contra este facto não há argumentos! De novo os fariseus perguntam: “Que fez contigo? Como te abriu os olhos?”. O cego responde com ironia:”Eu já vo-lo disse, e não me destes ouvidos. Porque desejais ouvi-lo outra vez? Será que também quereis fazer-vos seus discípulos?” Então insultaram-no e disseram-lhe: “Discípulo dele és tu! Nós somos discípulos de Moisés! Sabemos que Deus falou a Moisés; mas, quanto a esse, não sabemos donde é!”. Com fina ironia, o cego responde de novo: “Ora isso é que é de espantar: que vós não saibais donde Ele é, e me tenha dado a vista!”. “Se não fosse de Deus não poderia fazer-me nada”. Perante a cegueira dos fariseus cresce no cego a luz da fé. Ele não aceita os raciocínios dos fariseus e confessa que Jesus vem do Pai. Esta confissão de fé resulta na sua expulsão da sinagoga. O mesmo acontecia nas comunidades cristãs dos fins do primeiro século. Quem professasse a fé em Jesus devia romper qualquer laço de união familiar e comunitário. O mesmo acontece hoje: quem decide ser fiel a Jesus corre o risco de ser excluído.

Jo 9, 35-38: A conduta de fé do cego diante de Jesus. Jesus não abandona quem é perseguido por sua causa. Quando se inteira de que o expulsaram da sinagoga, encontra-se com o homem, ajuda-o a dar outro passo, convidando-o a assumir a sua fé e pergunta-lhe: “Tu crês no Filho do Homem?”. E ele responde: “E quem é, Senhor, para que eu creia nele?”. Diz-lhe Jesus: “Já o viste. É aquele que está a falar contigo”. O cego exclama: “Creio, Senhor!”. E prostrou-se diante dele. A conduta de fé do cego diante de Jesus é de absoluta confiança e total aceitação. Aceita tudo o que vem da parte de Jesus. Esta era a fé que sustentava as comunidades cristãs da Ásia Menor nos finais do século primeiro e que nos sustém a nós ainda hoje.

Jo 9, 39-41: Uma reflexão final. O cego que não via, acaba por ver melhor do que os fariseus. As comunidades da Ásia Menor que eram cegas, descobrem a luz. Os fariseus que pensavam ver correctamente são mais cegos do que o cego de nascimento. Encerrados na velha observância, mentem ao dizerem que vêem. Não há pior cego do que o que não quer ver!

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3º Domingo da Quaresma – Ano A

F-7.5

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João (Jo 4, 5-42)

Chegou, pois, a uma cidade da Samaria, chamada Sicar, perto do terreno que Jacob tinha dado ao seu filho José. Ficava ali o poço de Jacob. Então Jesus, cansado da caminhada, sentou-se, sem mais, na borda do poço. Era por volta do meio-dia. Entretanto, chegou certa mulher samaritana para tirar água. Disse-lhe Jesus: «Dá-me de beber.» Os seus discípulos tinham ido à cidade comprar alimentos. Disse-lhe então a samaritana: «Como é que Tu, sendo judeu, me pedes de beber a mim que sou samaritana?» É que os judeus não se dão bem com os samaritanos. Respondeu-lhe Jesus: «Se conhecesses o dom que Deus tem para dar e quem é que te diz: ‘dá-me de beber’, tu é que lhe pedirias, e Ele havia de dar-te água viva!» Disse-lhe a mulher: «Senhor, não tens sequer um balde e o poço é fundo. Onde consegues, então, a água viva? Porventura és mais do que o nosso patriarca Jacob, que nos deu este poço donde beberam ele, os seus filhos e os seus rebanhos?»

Replicou-lhe Jesus: «Todo aquele que bebe desta água voltará a ter sede; mas, quem beber da água que Eu lhe der, nunca mais terá sede: a água que Eu lhe der há-de tornar-se nele em fonte de água que dá a vida eterna.» Disse-lhe a mulher: «Senhor, dá-me dessa água, para eu não ter sede, nem ter de vir cá tirá-la.» Respondeu-lhe Jesus: «Vai, chama o teu marido e volta cá.» A mulher retorquiu-lhe: «Eu não tenho marido.»

Declarou-lhe Jesus: «Disseste bem: ‘não tenho marido’, pois tiveste cinco e o que tens agora não é teu marido. Nisto falaste verdade.» Disse-lhe a mulher: «Senhor, vejo que és um profeta! Os nossos antepassados adoraram a Deus neste monte, e vós dizeis que o lugar onde se deve adorar está em Jerusalém.» Jesus declarou-lhe: «Mulher, acredita em mim: chegou a hora em que, nem neste monte, nem em Jerusalém, haveis de adorar o Pai. Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, pois a salvação vem dos judeus. Mas chega a hora – e é já – em que os verdadeiros adoradores hão-de adorar o Pai em espírito e verdade, pois são assim os adoradores que o Pai pretende. Deus é espírito; por isso, os que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade.» Disse-lhe a mulher: «Eu sei que o Messias, que é chamado Cristo, está para vir. Quando vier, há-de fazer-nos saber todas as coisas.» Jesus respondeu-lhe: «Sou Eu, que estou a falar contigo.»

Nisto chegaram os seus discípulos e ficaram admirados de Ele estar a falar com uma mulher. Mas nenhum perguntou: ‘Que procuras?’, ou: ‘De que estás a falar com ela?’ Então a mulher deixou o seu cântaro, foi à cidade e disse àquela gente: «Eia! Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz! Não será Ele o Messias?» Eles saíram da cidade e foram ter com Jesus.

Entretanto, os discípulos insistiam com Ele, dizendo: «Rabi, come.» Mas Ele disse-lhes: «Eu tenho um alimento para comer, que vós não conheceis.» Então os discípulos começaram a dizer entre si: «Será que alguém lhe trouxe de comer?» Declarou-lhes Jesus: «O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e consumar a sua obra. Não dizeis vós: ‘Mais quatro meses e vem a ceifa’? Pois Eu digo-vos: Levantai os olhos e vede os campos que estão doirados para a ceifa. Já o ceifeiro recebe o seu salário e recolhe o fruto em ordem à vida eterna, de modo que se alegram ao mesmo tempo aquele que semeia e o que ceifa. Nisto, porém, é verdadeiro o ditado: ‘um é o que semeia e outro o que ceifa’. Porque Eu enviei-vos a ceifar o que não trabalhastes; outros se cansaram a trabalhar, e vós ficastes com o proveito da sua fadiga.»

Muitos samaritanos daquela cidade acreditaram nele devido às palavras da mulher, que testemunhava: «Ele disse-me tudo o que eu fiz.» Por isso, quando os samaritanos foram ter com Jesus, começaram a pedir-lhe que ficasse com eles. E ficou lá dois dias. Então muitos mais acreditaram nele por causa da sua pregação, e diziam à mulher: «Já não é pelas tuas palavras que acreditamos; nós próprios ouvimos e sabemos que Ele é verdadeiramente o Salvador do mundo.

O simbolismo da água

Jesus utiliza a palavra água em dois sentidos: no sentido material, que tira a sede, e o sentido simbólico como fonte de vida e dom do Espírito. Ele usa uma linguagem que as pessoas entendem e que, ao mesmo tempo, desperta nelas a vontade de aprofundar e descobrir um sentido mais profundo da vida. O uso simbólico da água tem a sua raiz na tradição do Antigo Testamento, onde é frequente a mística da água como símbolo do Espírito de Deus nas pessoas. Jeremias, por exemplo, contrapõe a água viva do manancial à água da cisterna (Jer 2, 13). Quanto mais água se tira da cisterna menos água há, enquanto que do manancial quanto mais água se tira mais água há (outros textos do Antigo Testamento: Is 12, 3; 49, 10; 55, 1; Ez 47, 1-13; etc.). Jesus conhece as tradições do seu povo e apoiando-se nelas desenvolve o diálogo com a samaritana. Sugerindo o sentido simbólico da água faz com que ocorra à samaritana (e a nós também) todo um conjunto de episódios e frases do Antigo Testamento.

O diálogo entre Jesus e a samaritana

Jesus encontra a samaritana junto do poço, lugar habitual de encontros e de conversas (Gen 24, 10-27; 29, 1-14). Ele parte da necessidade muito concreta da sua própria sede. Jesus faz-se dependente da samaritana para matar a sua sede e desperta nela o gosto de ajudar e servir. O diálogo de Jesus com a samaritana tem dois níveis:

O nível superficial, no sentido material da água que mata a sede das pessoas e do sentido normal de marido como pai de família. A este nível, a conversa é tensa e difícil e não tem continuidade. A samaritana leva vantagem. A princípio Jesus tentou um encontro com ela através da porta do trabalho quotidiano (tirar água) mas não conseguiu. Depois tentou a porta da família (chamar o marido) mas também por esta porta nada conseguiu. Finalmente, a samaritana abordou o tema da religião (lugar da adoração). Jesus tentou entrar pela porta que ela abriu.

O nível profundo, no sentido simbólico da água como imagem da vida nova trazida por Jesus e do marido como símbolo da união de Deus com o seu povo. A este nível, o diálogo tem continuidade perfeita. Depois de ter revelado que Ele mesmo, Jesus, oferece a água da nova vida, diz: “Vai, chama o teu marido e volta cá”. No passado os samaritanos tiveram cinco maridos, ídolos, ligados a cinco povos que foram levados para aquele lugar pelo rei da Assíria (2Re 17, 30-31). O sexto marido, o que tinha agora, não era o verdadeiro: “o que tens agora não é teu marido” (Jo 4, 18). Não realizava o desejo mais profundo do povo: a união com Deus, como marido que se une à sua esposa (Is 62, 5; 54, 5). O verdadeiro marido, o sétimo, é Jesus, como prometera Oseias: “Eu farei de ti a minha esposa para sempre; desposar-te-ei comigo na justiça, no direito, na piedade e na misericórdia. Farei de ti a minha esposa fiel, e reconhecerás que sou o Senhor!” (Os 2, 21-22). Jesus é o esposo que chega (Mc 2, 19) para trazer a vida nova à mulher que o procurou durante toda a sua vida e não o tinha encontrado até agora. Se o povo aceita Jesus como “esposo”, terá acesso a Deus em qualquer parte que esteja, tanto em espírito como em verdade (Jo 4, 23-24).

Jesus disse à samaritana que tinha sede mas não bebeu água. Isto é sinal de que a sua sede era simbólica e estava em relação com a sua missão: a sede de realizar a vontade do Pai (Jo 4, 34). Esta sede encontra-se sempre em Jesus, durante toda a sua vida, até à hora da morte. Nesta hora diz: “Tenho sede!” (Jo 19, 28). Declara que tem sede pela última vez e assim pode dizer: “Tudo foi realizado!”. Depois inclinando a cabeça entregou o espírito (Jo 19, 30). Realizou a sua missão.

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2.º Domingo da Quaresma – Ano A

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus (Mt 17, 1-9)

Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e seu irmão João, e levou-os, só a eles, a um alto monte. Transfigurou-se diante deles: o seu rosto resplandeceu como o Sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz. Nisto, apareceram Moisés e Elias a conversar com Ele. Tomando a palavra, Pedro disse a Jesus: «Senhor, é bom estarmos aqui; se quiseres, farei aqui três tendas: uma para ti, uma para Moisés e outra para Elias.» Ainda ele estava a falar, quando uma nuvem luminosa os cobriu com a sua sombra, e uma voz dizia da nuvem: «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus todo o meu agrado. Escutai-o.» Ao ouvirem isto, os discípulos caíram com a face por terra, muito assustados. Aproximando-se deles, Jesus tocou-lhes, dizendo: «Levantai-vos e não tenhais medo.» Erguendo os olhos, os discípulos apenas viram Jesus e mais ninguém. Enquanto desciam do monte, Jesus ordenou-lhes: «Não conteis a ninguém o que acabastes de ver, até que o Filho do Homem ressuscite dos mortos.»

Mensagem

Jesus toma consigo os seus discípulos mais íntimos e leva-os a «um alto monte». Não é a montanha a que o tentador o levou para lhe oferecer o poder e a glória de «todos os reinos do mundo». É a montanha em que os seus mais íntimos vão poder descobrir o caminho que leva à glória da ressurreição.

O rosto transfigurado de Jesus «resplandeceu como o sol» e manifestou em que consiste a sua verdadeira glória. Não provém do diabo, mas de Deus, seu Pai. Não se atinge pelos caminhos do poder mundano, mas pelo caminho paciente do serviço oculto, do sofrimento e da crucifixão.

Junto de Jesus aparecem Moisés e Elias, talvez como representante da lei e dos profetas. Não têm o rosto resplandecente, mas apagado. Não se põem a ensinar os discípulos, mas estão a «conversar com ele». A lei e os profetas estão orientados e subordinados a ele.

Pedro, no entanto, não consegue intuir o carácter único de Jesus: «Se quiseres farei aqui três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias». A cada um a sua tenda. Não sabe que Jesus não pode ser equiparado com ninguém.

É o próprio Deus que faz calar Pedro: «Ainda ele estava a falar», quando, entre luzes e sombras, ouvem a sua voz misteriosa: «Este é o meu filho muito amado», o que tem o rosto glorificado pela ressurreição. «Escutai-o». A Ele e mais ninguém. Meu filho é o único legislador, mestre e profeta. Não o confundais com ninguém.

Os discípulos caem por terra «muito assustados». Meter-lhes medo «escutar apenas Jesus» e seguir o seu caminho humilde de serviço ao reino até á cruz. É o próprio Jesus quem os liberta dos seus medos. «Aproximando-se» deles, como só ele sabia fazer «tocou-lhes» como tocava os doentes, e disse-lhes: «Levantai-vos e não tenhais medo» de me escutar e de me seguir só a mim.

Também a nós, cristãos de hoje, nos mete medo escutar somente Jesus. Não ousamos colocá-lo no centro das nossas vidas e comunidades. Não lhes deixamos ser a única e definitiva Palavra. É o próprio Jesus quem nos pode libertar de tantos medos, cobardias e ambiguidades se nos deixarmos transformar por ele.

Palavra para o caminho

Poucas palavras se repetem mais nos evangelhos do que estas de Jesus: “Não tenhais medo”. “Tende confiança”. “Não se perturbe o vosso coração”. “Não sejais cobardes”. O relato do Tabor recolhe a mesma mensagem. Quando os discípulos, envolvidos na sombra da nuvem, caem por terra assustados, ouvem estas palavras de Jesus: “Levantai-vos e não tenhais medo”, em seguida ouve-se uma voz vinda da nuvem: “Este é o meu Filho muito amado… Escutai-o”. Nunca devemos rebaixar a fé a remédio psicológico, mas escutar Deus revelado em Jesus e deixar-se iluminar pela sua Palavra pode curar o ser humano nas suas raízes mais profundas, dando sentido e infundindo uma confiança básica indestrutível” (José António Pagola).

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1.º Domingo da Quaresma – Ano A

Caminhando-no-deserto

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus (Mt 4, 1-11)

Então, o Espírito conduziu Jesus ao deserto, a fim de ser tentado pelo diabo. Jejuou durante quarenta dias e quarenta noites e, por fim, teve fome. O tentador aproximou-se e disse-lhe: «Se Tu és o Filho de Deus, ordena que estas pedras se convertam em pães.» Respondeu-lhe Jesus: «Está escrito: Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.» Então, o diabo conduziu-o à cidade santa e, colocando-o sobre o pináculo do templo, disse-lhe: «Se Tu és o Filho de Deus, lança-te daqui abaixo, pois está escrito: Dará a teu respeito ordens aos seus anjos; eles suster-te-ão nas suas mãos para que os teus pés não se firam nalguma pedra.» Disse-lhe Jesus: «Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus!»Em seguida, o diabo conduziu-o a um monte muito alto e, mostrando-lhe todos os reinos do mundo com a sua glória, disse-lhe: «Tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares.» Respondeu-lhe Jesus: «Vai-te, Satanás, pois está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás e só a Ele prestarás culto.» Então, o diabo deixou-o e chegaram os anjos e serviram-no.

Uma chave de leitura

Jesus foi tentado. Mateus apresenta-nos as tentações: tentação do pão, tentação do prestígio, tentação do poder. Trata-se de várias formas de esperança messiânica que naquele tempo existiam no povo de Israel. O messias glorioso que, como um novo Moisés, daria de comer ao povo no deserto: “ordena que estas pedras se convertam em pães”. O messias desconhecido que de repente se imporia a todos por meio de gestos espectaculares no Templo: “lança-te daqui abaixo”. O messias nacionalista que quer dominar o mundo: “tudo isto te darei”.

No Antigo Testamento tentações idênticas fazem cair o povo no deserto, depois da saída do Egipto (Dt 8, 3; 6, 16; Dt 6, 13). Jesus repetirá a história mas resistirá à tentação de perverter o plano de Deus para o adaptar aos seus interesses humanos de momento. Tentador ou Satanás é tudo o que desvia do plano de Deus. Pedro foi Satanás para Jesus (Mt 16, 23).

A tentação foi uma constante na vida de Jesus. Ela acompanhou-o do princípio até ao fim, desde o baptismo até à morte de cruz, porque na medida em que se alargava entre o povo o anúncio da Boa Nova do Reino crescia a pressão sobre Jesus para se adaptar às perspectivas messiânicas do povo e ser o messias que os outros desejavam e queriam: “messias glorioso e nacionalista”, “messias rei”, “messias sumo sacerdote”, “messias juiz”, “messias guerrilheiro”, “messias doutor da lei”. A Carta aos Hebreus diz: “Ele foi provado em tudo à semelhança de nós, menos no pecado” (Heb 4, 15).

Mas a tentação jamais conseguiu desviar Jesus da sua missão. Ele continuava firme no caminho do “Messias Servo”, anunciado pelo profeta Isaías e esperado sobretudo pelos pobres do povo, os anawim. Jesus não teve medo de provocar conflitos, nem com as autoridades, nem com as pessoas mais queridas. Todos os que tentavam desviá-lo do caminho recebiam respostas duras e reacções inesperadas:

– Pedro tenta afastar Jesus do caminho da Cruz: “Não será assim, Senhor; isto não acontecerá jamais!” (Mt 16, 22). Jesus repreendeu-o duramente: “Afasta-te de mim, Satanás!” (Mc 8, 33).

– Os parentes, primeiramente, queriam levá-lo de volta para casa. Pensavam que estava louco (Mc 3, 21), mas escutaram palavras duras que pareciam uma ruptura (Mc 3, 33). Depois, quando Jesus gozava de certa fama, queriam que se mostrasse mais em público e permanecesse em Jerusalém, a capital (Jo 7, 3-4). Uma vez mais Jesus responde mostrando que há uma diferença radical entre a sua proposta e a deles (Jo 7, 6-7).

– Os seus pais lamentavam-se: “Filho, porque procedeste assim para connosco?” (Lc 2, 48). Receberam a resposta: “Porque me procuráveis? Não sabíeis que devo ocupar-me das coisas que são do serviço de meu Pai?” (Lc 2, 49).

– Os apóstolos, contentes e entusiasmados com a fama que Jesus tinha no meio do povo queriam que voltasse para o povo: “Todos te procuram!” (Mc 1, 37). Mas receberam a recusa: “Vamos a outra parte, pelas aldeias e cidades vizinhas, a fim de que pregue também aí, porque foi para isto que eu vim!” (Mc 1, 38).

– João Baptista queria forçar Jesus a ser um “messias juiz severo” (Lc 3, 9; Mt 3, 7-12; Mt 11, 3). Jesus remete João para as profecias para que as confronte com os factos: “Ide e dizei a João o que vistes e ouvistes!” (Mt 11, 46; Is 29, 18-19; 35, 5-6; 61, 1).

– O povo vendo o sinal da multiplicação dos pães no deserto conclui: “Este certamente é o profeta que devia vir ao mundo!” (Jo 6, 14). As pessoas procuraram forçar Jesus a ser o “messias rei” (Jo 6, 15) mas Jesus retirou-se para a montanha para estar na solidão com o seu Pai.

– Na hora da prisão, a hora das trevas (Lc 22, 53), aparece a tentação de ser o “messias guerreiro”. Mas Jesus diz: “Mete a espada no seu lugar!” (Mt 26, 52) e “Orai para não cairdes em tentação!” (Lc 22, 40-46).

Jesus orientava-se pela Palavra de Deus e encontrava nela a luz e o alimento. É sobretudo a profecia do Servo, anunciada por Isaías (Is 42, 1-9; 49, 1-6; 50, 3-9; 52, 13-53, 12), que o anima e lhe dá coragem para continuar. No Baptismo e na Transfiguração, recebe do Pai a confirmação do seu caminho, da sua missão. A voz vinda do céu repete as palavras com que a profecia de Isaías apresenta o Servo de Jahvé ao povo: “Este é o meu Filho muito amado. Escutai-o!” (Mc 1, 11; 9, 6).

Jesus define a sua missão com estas palavras: “O Filho do Homem não veio para ser servido mas para servir e dar a sua vida pela redenção de muitos!” (Mt 20, 28; Mc 10, 45). É a lição que aprendeu de sua Mãe, que respondeu ao anjo: “Eis aqui a escrava do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!” (Lc 1, 38). Orientando-se pela Palavra de Deus para aprofundar a consciência da sua missão e procurando força na oração, Jesus enfrentava as tentações. Inserido no meio dos pobres, os anwim, e unido ao Pai, sendo fiel a ambos, Jesus seguia o caminho do Messias Servo, o caminho do serviço ao povo (Mt 20, 28).

 

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