Homilia da Missa da Solenidade do Pentecostes

Na Primeira Leitura da liturgia de hoje, a vinda do Espírito Santo no Pentecostes é comparada a uma «forte rajada de vento» (At 2, 2). Que nos diz esta imagem? A rajada de vento sugere uma força grande, mas não finalizada em si mesma: é uma força que muda a realidade. De facto, o vento traz mudança: correntes quentes quando está frio, frescas quando está calor, chuva quando há secura… O vento faz assim. O mesmo, embora a nível muito diferente, faz o Espírito Santo: Ele é a força divina que muda, que muda o mundo. Assim no-lo recordou a Sequência: o Espírito é «descanso na luta, conforto no pranto»; e, por isso, Lhe suplicamos: «Lavai nossas manchas, a aridez regai, sarai os enfermos e a todos salvai». Ele penetra nas situações e transforma-as; muda os corações e muda as vicissitudes.

Muda os corações. Jesus dissera aos seus Apóstolos: «Ides receber uma força, a do Espírito Santo (…) e sereis minhas testemunhas» (At 1, 8). E assim aconteceu: aqueles discípulos que antes viviam no medo, fechados em casa, mesmo depois da ressurreição do Mestre, são transformados pelo Espírito e – como Jesus anuncia no Evangelho de hoje – «dão testemunho d’Ele» (cf. Jo 15, 27). De hesitantes, tornam-se corajosos e, partindo de Jerusalém, lançam-se até aos confins do mundo. Medrosos quando Jesus estava entre eles, agora são ousados sem Ele, porque o Espírito mudou os seus corações.

O Espírito liberta os espíritos paralisados pelo medo. Vence as resistências. A quem se contenta com meias medidas, propõe ímpetos de doação. Dilata os corações mesquinhos. Impele ao serviço quem se desleixa na comodidade. Faz caminhar quem sente ter chegado. Faz sonhar quem sofre de tibieza. Esta é a mudança do coração. Muitos prometem estações de mudança, novos começos, renovações portentosas, mas a experiência ensina que nenhuma tentativa terrena de mudar as coisas satisfaz plenamente o coração do homem. A mudança do Espírito é diferente: não revoluciona a vida ao nosso redor, mas muda o nosso coração; não nos livra dum momento para o outro dos problemas, mas liberta-nos dentro para os enfrentar; não nos dá tudo imediatamente, mas faz-nos caminhar confiantes, sem nos deixar jamais cansar da vida. O Espírito mantém jovem o coração, uma renovada juventude. A juventude, apesar de todas as tentativas para a prolongar, mais cedo ou mais tarde passa; ao contrário, é o Espírito que impede o único envelhecimento maléfico: o interior. E como faz? Renovando o coração, transformando-o de pecador em perdoado. Esta é a grande mudança: de culpados que éramos, faz-nos justos e assim tudo muda, porque, de escravos do pecado, tornamo-nos livres; de servos, filhos; de descartados, preciosos; de desanimados, esperançosos. Deste modo, o Espírito Santo faz renascer a alegria, assim faz florescer no coração a paz.

Por isso, aprendamos hoje o que devemos fazer, quando precisamos duma verdadeira mudança. E quem de nós não precisa? Sobretudo quando nos encontramos por terra, quando nos debatemos sob o peso da vida, quando as nossas fraquezas nos oprimem, quando avançar é difícil e amar parece impossível. Então servir-nos-ia um forte «reconstituinte»: é Ele, a força de Deus. É Ele – como professamos no Credo – «que dá a vida». Como nos faria bem tomar diariamente este reconstituinte de vida! Dizer, ao acordar: «Vinde, Espírito Santo, vinde ao meu coração, vinde acompanhar o meu dia!»

Depois dos corações, o Espírito muda as vicissitudes. Como o vento sopra por todo o lado, assim Ele chega às situações mesmo as mais imprevistas. Nos Atos dos Apóstolos – um livro que necessitamos absolutamente de descobrir, onde é protagonista o Espírito – assistimos a um dinamismo contínuo, rico de surpresas. Quando os discípulos menos esperam, o Espírito envia-os aos pagãos. Abre caminhos novos, como no caso do diácono Filipe. O Espírito impele-o por uma estrada deserta, de Jerusalém a Gaza (como este nome soa doloroso, hoje! Que o Espírito mude os corações e as vicissitudes e dê paz à Terra Santa!). Naquela estrada, Filipe instrui o funcionário etíope e batiza-o; em seguida o Espírito leva-o a Azoto, depois a Cesareia: sempre em novas situações, para difundir a vida nova de Deus. Temos também Paulo, que, «obedecendo ao Espírito» (At 20, 22), viaja até aos últimos confins do mundo então conhecido, levando o Evangelho a populações que nunca tinha visto. Quando está presente o Espírito, acontece sempre qualquer coisa; quando Ele sopra, nunca há bonança, nunca.

Quando a vida das nossas comunidades atravessa períodos de «lassidão», em que se prefere a comodidade doméstica à vida nova de Deus, é um mau sinal. Quer dizer que se busca abrigo do vento do Espírito. Quando se vive para a autoconservação e não se vai ao encontro dos distantes, não é um bom sinal. O Espírito sopra, mas nós amainamos as velas. E todavia, muitas vezes O vimos realizar maravilhas! Muitas vezes, precisamente nos períodos mais escuros, o Espírito suscitou a santidade mais luminosa! Porque Ele é a alma da Igreja, sempre a reanima com a esperança, enche-a de alegria, fecunda-a de vida nova, dá-lhe rebentos de vida. Como na família, quando nasce uma criança, esta complica os horários, faz perder o sono, mas traz uma alegria que renova a vida, impelindo-a para a frente, dilatando-a no amor. Do mesmo modo o Espírito traz à Igreja um «sabor de infância». Realiza renascimentos contínuos. Reaviva o amor do começo. O Espírito lembra à Igreja que, não obstante os seus séculos de história, é sempre uma jovem de vinte anos, a Noiva jovem por quem está perdidamente apaixonado o Senhor. Não nos cansemos, então, de convidar o Espírito para os nossos ambientes, de O invocar antes das nossas atividades: «Vinde, Espírito Santo!»

Trazerá a sua força de mudança, uma força única que, por assim dizer, é ao mesmo tempo centrípeta e centrífuga. É centrípeta, isto é, impele para o centro, porque atua dentro do coração. Infunde unidade na fragmentação, paz nas aflições, fortaleza nas tentações. Assim no-lo recorda Paulo na Segunda Leitura, quando escreve que o fruto do Espírito é alegria, paz, fidelidade, autodomínio (cf. Gal 5, 22). O Espírito dá intimidade com Deus, a força interior para avançar. Mas, ao mesmo tempo, Ele é força centrífuga, isto é, impele para o exterior. Aquele que conduz ao centro é o Mesmo que envia para a periferia, rumo a toda a periferia humana; Aquele que nos revela Deus impele-nos para os irmãos. Envia, torna testemunhas e, para isso, infunde – escreve ainda Paulo – amor, benignidade, bondade, mansidão. Somente no Espírito Consolador proferimos palavras de vida e encorajamos verdadeiramente os outros. Quem vive segundo o Espírito permanece nesta tensão espiritual: encontra-se inclinado conjuntamente para Deus e para o mundo.

Peçamos-Lhe que nos faça assim. Espírito Santo, rajada de vento de Deus, soprai sobre nós. Soprai nos nossos corações e fazei-nos respirar a ternura do Pai. Soprai sobre a Igreja e impeli-a até aos últimos confins, para que, levada por Vós, nada mais leve senão Vós. Soprai sobre o mundo o suave calor da paz e a fresca restauração da esperança. Vinde, Espírito Santo, mudai-nos por dentro e renovai a face da terra. Amen.

Papa Francisco

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