As Bem-aventuranças

O texto das «Bem-aventuranças» oferece-nos o «Bilhete de Identidade» do cristão, apresentando-nos o estilo de vida de Jesus, a norma de vida do cristão. Nelas Jesus não impõe nada; apenas revela o caminho da felicidade, o seu caminho, repetindo oito vezes a palavra «felizes…». Cada «Bem-aventurança» compõe-se de três partes: primeiro, a palavra «felizes»; depois, a situação em que se encontram estes bem-aventurados: pobreza, aflição, injustiça, guerra, perseguição, etc.; e finalmente o motivo de tal felicidade, introduzido pela palavra «porque…». Se repararmos bem nos vários motivos, constatamos que dizem respeito não à situação actual, mas à nova condição que os Bem-aventurados receberão de Deus. De facto, ao indicar tais motivos, Jesus usa frequentemente um futuro passivo: serão consolados, serão saciados, etc. Trata-se do chamado «passivo divino», ou seja, para evitar nomear o santo Nome de Deus em vão, o judeu usava o verbo no passivo, bem ciente, porém, de que o sujeito não nomeado é Deus: sim, é Ele que realiza tudo isto, a iniciativa é sempre d’Ele. Assim, as Bem-aventuranças indicam oito portas pelas quais se pode experimentar a força e a providência de Deus: só Ele pode saciar o coração do homem. E, para Se dar a nós, muitas vezes escolhe estradas impensáveis, tais como a das nossas limitações, das nossas lágrimas, das nossas derrotas; pois, a esta felicidade que vem de Deus, aplicam-se as palavras ditas por Jesus a propósito da paz trazida por Ele: «Não é como a dá o mundo, que Eu vo-la dou» (Jo 14, 27). Aqui pensamos na alegria pascal de Cristo que está vivo e glorioso, mas traz os estigmas: atravessou a morte e experimentou o poder de Deus.

Papa Francisco, Audiência geral (resumo), 29 de Janeiro, 2020