Regina Coeli (15 de Abril de 2018). “Vede as minhas mãos e os meus pés”

Na oração mariana do Regina Coeli deste 3º Domingo da Páscoa, 15 de Abril, o Papa Francisco lembrou a experiência que os apóstolos tiveram ao se depararem com a presença real de Cristo ressuscitado, que se manifesta aos seus discípulos com a vigorosa saudação “A paz esteja convosco”. 

Este episódio narrado pelo evangelista Lucas insiste muito no realismo da ressurreição. Jesus não é um fantasma, não se trata da aparição da alma de Jesus, mas da sua real presença com o corpo ressuscitado.

Os apóstolos, porém, sentem-se perturbados com aquela aparição, pois a realidade da ressurreição é inconcebível para eles. “Vede as minhas mãos e os meus pés”, diz Jesus aos apóstolos. A insistência de Jesus sobre a realidade da sua ressurreição ilumina a perspectiva cristã sobre o corpo. O corpo não é um obstáculo ou uma prisão da alma. O corpo é criado por Deus e o homem não é completo se não está em união de corpo e alma.

A vitória de Cristo sobre a morte e a sua ressurreição em corpo e alma leva a entender que se deve ter uma ideia positiva do corpo, que pode ser um instrumento de pecado, mas o pecado não é provocado pelo corpo. O pecado não é provocado pelo corpo, mas sim pela nossa fraqueza moral. O corpo é um dom maravilhoso de Deus, destinado, em união com a alma, a expressar em plenitude a imagem e semelhança do próprio Deus. Portanto, somos chamados a ter grande respeito e cuidado pelo nosso corpo e pelo dos outros. Toda a ofensa ou ferida, ou violência ao corpo do nosso próximo é uma ofensa a Deus Criador.

Papa Francisco, Regina Coeli (resumo), 15 de Abril de 2018

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3º Domingo da Páscoa – Ano B

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas (Lc 24, 35-48)

Naquele tempo os discípulos de Emaús contaram o que lhes tinha acontecido pelo caminho e como Jesus se lhes dera a conhecer, ao partir o pão. Enquanto isto diziam, Jesus apresentou-se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco!» Dominados pelo espanto e cheios de temor, julgavam ver um espírito. Disse-lhes, então: «Porque estais perturbados e porque surgem tais dúvidas nos vossos corações? Vede as minhas mãos e os meus pés: sou Eu mesmo. Tocai-me e olhai que um espírito não tem carne nem ossos, como verificais que Eu tenho.» Dizendo isto, mostrou-lhes as mãos e os pés. E como, na sua alegria, não queriam acreditar de assombrados que estavam, Ele perguntou-lhes: «Tendes aí alguma coisa que se coma?» Deram-lhe um bocado de peixe assado; e, tomando-o, comeu diante deles.

Depois, disse-lhes: «Estas foram as palavras que vos disse, quando ainda estava convosco: que era necessário que se cumprisse tudo quanto a meu respeito está escrito em Moisés, nos Profetas e nos Salmos.» Abriu-lhes então o entendimento para compreenderem as Escrituras e disse-lhes: «Assim está escrito que o Messias havia de sofrer e ressuscitar dentre os mortos, ao terceiro dia; que havia de ser anunciada, em seu nome, a conversão para o perdão dos pecados a todos os povos, começando por Jerusalém. Vós sois as testemunhas destas coisas.»

Reflexão

Lucas escreve o seu Evangelho por volta do ano 85 em vista dos problemas da sua comunidade. A primeira geração de discípulos já tinha morrido pois já tinha passado mais de meio século desde os acontecimentos pascais. Agora, a comunidade vacila na sua fé, as perseguições estão no horizonte, ou até estão a acontecer, o primeiro entusiasmo diminuiu, os membros estão cansados da caminhada e perdendo de vista a mensagem vitoriosa da Páscoa. Parece que é mais forte a morte do que a vida, a opressão do que a libertação, o pecado do que a graça.

Neste cenário, Lucas escreve este capítulo 24 que traz uma mensagem de ânimo e coragem aos desanimados e vacilantes da sua época (e da nossa)! Às mulheres, que foram ao sepulcro com os perfumes, os dois anjos perguntam / interrogam: “por que procurais entre os mortos aquele que está vivo? Ele não está aqui! Ressuscitou!” Mensagem actual para os nossos tempos diante da difícil situação de tantas pessoas que enfrentam duras lutas pela sua sobrevivência. O nosso texto quer-nos lembrar que Jesus venceu o mal, não foi derrotado pela morte, está no meio de nós!

Os dois discípulos de Emaús são a imagem viva da comunidade para quem o evangelista Lucas escreve e de muitas outras nos nossos dias! Já sabem do túmulo vazio, mas estão desanimados, desiludidos, sem forças pois ainda não fizeram a experiência da presença de Jesus Ressuscitado. Os dois só fazem esta experiência quando partilham o pão! A Escritura fez com que os seus corações “ardessem pelo caminho”, mas não lhes abriu ainda os olhos para reconhecerem a presença do Ressuscitado junto deles. Para isso era necessário formar uma comunidade celebrativa de fé e de partilha: “contaram… como tinham reconhecido Jesus quando ele partiu o pão”.

Finalmente, o grupo dos discípulos reunidos em Jerusalém é símbolo das comunidades confusas e vacilantes. Tinham dificuldade em acreditar pois a mensagem da Ressurreição é realmente espantosa! Mas, uma vez feita essa experiência, eles transformam-se e tornam-se em testemunhas vivas do que sentiram, experimentaram e vivenciaram: “Vós sois as testemunhas destas coisas”. Um grupo de derrotados, sem esperança e desunidos transformam-se num grupo de missionários corajosos e convictos, assumindo a tarefa de anunciar no nome de Jesus “a conversão e o perdão dos pecados a todas as nações”.

Palavra para o caminho

No Evangelho proclamado neste 3º Domingo de Páscoa “entrevê-se um repetido convite a vencer a incredulidade e a crer na ressurreição de Cristo, porque os seus discípulos estão chamados a ser testemunhas precisamente deste acontecimento extraordinário. A ressurreição de Cristo é o acontecimento central do cristianismo, verdade fundamental que se deve reafirmar com vigor em todos os tempos, porque negá-la como se tentou fazer de várias formas, e ainda se continua a fazer, ou transformá-la num acontecimento meramente espiritual, significa vanificar a nossa própria fé. «Mas se Cristo não ressuscitou afirma São Paulo é vã a nossa pregação, e vã é também a nossa fé» (1 Cor 15, 14)” (Bento XVI).

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Se Cristo não ressuscitou é vã a nossa fé (1Cor 15, 14)

Crer no Ressuscitado é opôr-nos com todas as nossas forças à ideia de que a grande maioria de homens, mulheres e crianças que só têm conhecido miséria, humilhação e sofrimento nesta vida, fiquem esquecidos para sempre.

Crer no Ressuscitado é aproximar-nos com esperança de tantas pessoas sem saúde, enfermos crónicos, deficientes físicos e psíquicos, pessoas afundadas na depressão, cansadas de viver e de lutar. Um dia conhecerão o que significa viver em paz e com saúde total. Escutarão as palavras do Pai: “Entra para sempre na alegria do teu Senhor”.

Crer no Ressuscitado é esperar que as horas alegres e as experiências tristes, as marcas que deixamos nas pessoas e nas coisas, o que construímos ou desfrutamos generosamente, transfigurar-se-ão. Já não conheceremos a amizade que termina, a festa que acaba nem a despedida que nos deixa tristes. Deus será tudo em todos.

Crer no Ressuscitado é acreditar que um dia escutaremos estas inacreditáveis palavras que o livro do Apocalipse coloca na boca de Deus: “Eu sou o princípio e o fim de tudo. Ao que tiver sede eu lhe darei gratuitamente do manancial da água da vida. Já não haverá morte nem choro, nem gritos e nem fadigas, porque tudo isso passou”.

José Antonio Pagola

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Audiência geral do Papa Francisco. O Baptismo converte-nos noutro Cristo

Queridos irmãos e irmãs, bom dia!

Os cinquenta dias do tempo litúrgico pascal são propícios para refletir sobre a vida cristã que, por sua natureza, é a vida que provém do próprio Cristo. De facto, somos cristãos na medida em que deixamos Jesus Cristo viver em nós. Então, por onde começar a fim de reavivar esta consciência se não pelo princípio, pelo Sacramento que acendeu em nós a vida cristã? Pelo Batismo. A Páscoa de Cristo, com a sua carga de novidade, chega até nós através do Batismo para nos transformar à sua imagem: os batizados pertencem a Jesus Cristo, Ele é o Senhor da sua existência. O Batismo é o «fundamento de toda a vida cristã» (Catecismo da Igreja Católica, 1213). É o primeiro dos Sacramentos, porque é a porta que permite a Cristo Senhor habitar a nossa pessoa e, a nós, imergir-nos no seu Mistério.

O verbo grego “batizar” significa “imergir” (cf. CIC, 1214). O banho com a água é um rito comum em várias crenças para exprimir a passagem de uma condição para outra, sinal de purificação para um novo início. Mas para nós cristãos não deve passar despercebido que se é o corpo a ser imergido na água, é a alma que é imersa em Cristo para receber o perdão do pecado e resplandecer de luz divina (cf. Tertuliano, Sobre a ressurreição dos mortos, VIII, 3; ccl 2, 931; pl 2, 806). Em virtude do Espírito Santo, o Batismo imerge-nos na morte e ressurreição do Senhor, afogando na pia batismal o homem velho, dominado pelo pecado que separa de Deus, e fazendo com que nasça o homem novo, recriado em Jesus. N’Ele, todos os filhos de Adão são chamados para a vida nova. Ou seja, o Batismo é um renascimento. Estou certo, certíssimo de que todos nós recordamos a data do nosso nascimento: tenho a certeza. Mas questiono-me, com alguma dúvida, e pergunto-vos: cada um de vós recorda qual foi a data do próprio batismo? Alguns dizem sim — está bem. Mas é um sim um pouco débil, porque talvez muitos não recordem. Mas se festejamos o dia do nascimento, como não festejar — pelo menos recordar — o dia do renascimento? Dar-vos-ei um dever de casa, uma tarefa hoje para fazer em casa. Quantos de vós que não se recordam a data do batismo, perguntem à mãe, aos tios, aos netos, perguntem: “Sabes qual é a data do batismo?”, e nunca mais a esqueçais. E demos graças ao Senhor por aquele dia, porque é precisamente o dia em que Jesus entrou em nós, que o Espírito Santo entrou em nós. Compreendestes bem o dever de casa? Todos devemos saber a data do nosso batismo. É outro aniversário: o aniversário do renascimento. Não vos esqueçais de fazer isto, por favor.

Recordemos as últimas palavras do Ressuscitado aos Apóstolos: são precisamente um mandato: «Ide e fazei discípulos todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo» (Mt 28, 19). Através da lavacro batismal, quem crê em Cristo é imerso na própria vida da Trindade.

De facto, a do Batismo não é uma água qualquer, mas a água sobre a qual é invocado o Espírito que «dá a vida» (Credo). Pensemos no que Jesus disse a Nicodemos para lhe explicar o nascimento para a vida divina: «Quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus. O que nasceu da carne é carne, e o que nasceu do Espírito é espírito» (Jo 3, 5-6). Portanto o Batismo é também chamado “regeneração”: acreditamos que Deus nos salvou «pela sua misericórdia, com uma água que regenera e renova no Espírito» (Tt 3, 5).

Por conseguinte, o Batismo é sinal eficaz de renascimento, para caminhar em novidade de vida. Recorda-o São Paulo aos cristãos de Roma: «Ignorais, porventura, que todos nós que fomos batizados em Jesus Cristo, fomos batizados na sua morte? Pelo batismo sepultámo-nos juntamente com Ele, para que, assim como Cristo ressuscitou dos mortos, mediante a glória do Pai, assim caminhemos nós também numa vida nova» (Rm 6, 3-4).

Imergindo-nos em Cristo, o Batismo torna-nos também membros do seu Corpo, que é a Igreja, e participamos da sua missão no mundo (cf. CIC 1213). Nós batizados não estamos isolados: somos membros do Corpo de Cristo. A vitalidade que brota da pia batismal é ilustrada por estas palavras de Jesus: «Eu sou a videira, vós as varas: quem está em mim e eu nele, esse dá muito fruto» (cf. Jo 15, 5). A mesma vida, a do Espírito Santo, escorre de Cristo para os batizados, unindo-os num só Corpo (cf. 1 Cor 12, 13), crismado pela santa unção e alimentado na mesa eucarística.

O Batismo permite que Cristo viva em nós e a nós que vivamos unidos a Ele, para colaborar na Igreja, cada um segundo a própria condição, para a transformação do mundo. Recebido uma única vez, o lavacro batismal ilumina toda a nossa vida, guiando os nossos passos até à Jerusalém do Céu. Há um antes e um depois do Batismo. O Sacramento pressupõe um caminho de fé, que chamamos catecumenato, evidente quando é um adulto que pede o Batismo. Mas também as crianças desde a antiguidade, são batizadas na fé dos pais (cf. Rito do Batismo das crianças, Introdução, 2). E sobre isto gostaria de vos dizer algo. Alguns pensam: mas por que batizar uma criança que não entende? Esperemos que cresça, que compreenda e seja ela mesma a pedir o Batismo. Mas isto significa não ter confiança no Espírito Santo, porque quando batizamos uma criança, naquela criança entra o Espírito Santo, e o Espírito Santo faz com que cresça naquela criança, desde pequenina, virtudes cristãs que depois florescerão. Sempre se deve dar esta oportunidade a todos, a todas as crianças, de ter dentro de si o Espírito Santo que as guie durante a vida. Não deixeis de batizar as crianças! Ninguém merece o Batismo, que é sempre dom gratuito para todos, adultos e recém-nascidos. Mas como acontece com uma semente cheia de vida, este dom ganha raízes e dá fruto num terreno alimentado pela fé. As promessas batismais que a cada ano renovamos na Vigília Pascal devem ser reavivadas todos os dias a fim de que o Batismo “cristifique”: não devemos ter medo desta palavra; o Batismo “cristifica-nos”, quem recebeu o Batismo e é “cristificado” assemelha-se a Cristo, transforma-se em Cristo, tornando-se deveras outro Cristo.

Papa Francisco, Audiência Geral, 11 de Abril de 2018

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Crer no Ressuscitado…

Crer no Ressuscitado é resistirmos a aceitar que a nossa vida é somente um pequeno parêntese entre dois grandes vazios. Apoiando-nos em Jesus Ressuscitado por Deus, intuímos, desejamos e cremos que Deus está a conduzir até a verdadeira plenitude o anseio de vida, de justiça e de paz que se encontra no coração da Humanidade e em toda a criação.

Crer no Ressuscitado é opôr-nos com todas as nossas forças à ideia de que a grande maioria de homens, mulheres e crianças que só têm conhecido miséria, humilhação e sofrimento nesta vida, fiquem esquecidos para sempre.

Crer no Ressuscitado é confiar numa vida onde já não haverá pobreza nem dor, ninguém estará triste nem precisará de chorar. Finalmente, poderemos ver os que se fazem transportar em pequenas embarcações chegar à sua verdadeira Pátria.

Crer no Ressuscitado é aproximar-nos com esperança de tantas pessoas sem saúde, enfermos crónicos, deficientes físicos e psíquicos, pessoas afundadas na depressão, cansadas de viver e de lutar. Um dia conhecerão o que significa viver em paz e com saúde total. Escutarão as palavras do Pai: “Entra para sempre na alegria do teu Senhor”.

Crer no Ressuscitado é não nos resignarmos a que Deus seja para sempre um “Deus oculto” de quem não possamos conhecer o seu olhar, a sua ternura e os seus abraços. Encontrá-lo-emos encarnado para sempre gloriosamente em Jesus.

Crer no Ressuscitado é confiar que os nossos esforços por um mundo mais humano e feliz não se perderão. Um dia feliz, os últimos serão os primeiros e as prostitutas preceder-nos-ão no Reino.

Crer no Ressuscitado é saber que tudo o que aqui ficou pela metade, o que não conseguiu ser, o que estropiamos com a nossa torpeza ou o nosso pecado, tudo alcançará em Deus a sua plenitude. Nada se perderá do que vivemos com amor e ao que renunciamos por amor.

Crer no Ressuscitado é esperar que as horas alegres e as experiências tristes, as marcas que deixamos nas pessoas e nas coisas, o que construímos ou desfrutamos generosamente, transfigurar-se-á. Já não conheceremos a amizade que termina, a festa que acaba nem a despedida que nos deixa tristes. Deus será tudo em todos.

Crer no Ressuscitado é acreditar que um dia escutaremos estas inacreditáveis palavras que o livro do Apocalipse coloca na boca de Deus: “Eu sou o princípio e o fim de tudo. Ao que tiver sede eu lhe darei gratuitamente do manancial da água da vida. Já não haverá morte nem choro, nem gritos e nem fadigas, porque tudo isso passou”.

José Antonio Pagola

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2º Domingo da Páscoa. Domingo da Divina Misericórdia

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João (Jo 20, 19-31)

Na tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas da casa onde os discípulos se encontravam, com medo dos judeus, veio Jesus, colocou-Se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco». Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos ficaram cheios de alegria ao verem o Senhor. Jesus disse-lhes de novo: «A paz esteja convosco. Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós». Dito isto, soprou sobre eles e disse-lhes: «Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhe-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes serão retidos». Tomé, um dos Doze, chamado Dídimo, não estava com eles quando veio Jesus. Disseram-lhe os outros discípulos: «Vimos o Senhor». Mas ele respondeu-lhes: «Se não vir nas suas mãos o sinal dos cravos, se não meter o dedo no lugar dos cravos e a mão na seu lado, não acreditarei». Oito dias depois, estavam os discípulos outra vez em casa e Tomé com eles. Veio Jesus, estando as portas fechadas, apresentou-Se no meio deles e disse: «A paz esteja convosco». Depois disse a Tomé: «Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; aproxima a tua mão e mete-a no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente». Tomé respondeu- Lhe: «Meu Senhor e meu Deus!» Disse-lhe Jesus: «Porque Me viste acreditaste: felizes os que acreditam sem terem visto». Muitos outros milagres fez Jesus na presença dos seus discípulos, que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para acreditardes que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e para que, acreditando, tenhais a vida em seu nome.

Reflexão

Jesus faz-se presente na comunidade. As portas fechadas não podem impedir que ele esteja no meio dos que nele acreditam. Ainda hoje a palavra de Jesus é e será sempre: “A paz esteja convosco”. O Jesus que está connosco na comunidade é o mesmo Jesus que viveu na terra e traz as marcas da sua paixão. É deste Jesus, ao mesmo tempo crucificado e ressuscitado, que recebemos a missão, a mesma que ele recebeu do Pai: “Assim como o Pai Me enviou, também Eu vos envio a vós”. Mas antes repete novamente: “A paz esteja convosco”. Construir a paz faz parte da missão. Paz significa muito mais do que só a ausência de guerra. Significa construir uma convivência humana harmoniosa, em que as pessoas possam ser elas mesmas, tendo todas o necessário para viver, convivendo felizes e em paz. Esta foi a missão de Jesus, e é também a nossa missão. Numa palavra, é criar comunidade a exemplo da comunidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Jesus soprou sobre os discípulos e disse-lhes: “Recebei o Espírito Santo”. É só com a ajuda do Espírito de Jesus que seremos capazes de realizar a missão que Jesus nos dá. O ponto central da missão de paz está na reconciliação, na tentativa de superar as barreiras que nos separam: “Àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhe-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes serão retidos!”. Este poder de reconciliar e de perdoar é dado à comunidade. No evangelho de Mateus é concedido também a Pedro (Mt 16,19). Aqui, percebe-se a enorme responsabilidade da comunidade. O texto deixa claro que uma comunidade sem perdão, sem reconciliação já não é comunidade cristã.

Tomé, um dos doze, não estava presente quando Jesus apareceu e não acredita no testemunho dos outros companheiros. Tomé é exigente: “Se não vir nas suas mãos o sinal dos cravos, se não meter o dedo no lugar dos cravos e a mão na seu lado, não acreditarei”. A dúvida de Tomé deixa transparecer como era difícil crer na ressurreição.

Novamente, durante a reunião da comunidade, eles têm uma experiência profunda da presença de Jesus ressuscitado no meio deles. Dirigindo-se a Tomé, Jesus não critica nem fala mal da sua incredulidade, mas aceita o desafio e diz-lhe: “Põe aqui o teu dedo e vê as minhas mãos; aproxima a tua mão e mete-a no meu lado; e não sejas incrédulo, mas crente!”. Tomé confessa: “Meu Senhor e meu Deus!” No primeiro capítulo do Evangelho de João, os discípulos deram a Jesus uma série de títulos que indicavam um conhecimento crescente de quem Ele era mas aqui Tomé dá-lhe o título final e definitivo: Jesus é Senhor e Deus!

“Porque Me viste acreditaste: felizes os que acreditam sem terem visto”. Com esta frase, Jesus declara felizes a todos nós que estamos nesta condição: sem termos visto acreditamos que o Jesus que está no nosso meio é o mesmo que morreu crucificado!

Palavra para o caminho

– Redescubramos as obras de misericórdia corporais: dar de comer aos famintos, dar de beber aos sedentos, vestir os nus, acolher os peregrinos, dar assistência aos doentes, visitar os presos, enterrar os mortos. E não esqueçamos as obras de misericórdia espirituais: aconselhar os indecisos, ensinar os ignorantes, corrigir os que erram, consolar os tristes, perdoar as ofensas, suportar com paciência as pessoas molestas, rezar a Deus pelos vivos e defuntos.

– Quanto desejo que (…) as nossas paróquias e as nossas comunidades, cheguem a ser ilhas de misericórdia no meio do mar da indiferença.

– Ter um coração misericordioso não significa ter um coração débil. Quem deseja ser misericordioso necessita de um coração forte, firme, fechado ao tentador, mas aberto a Deus.

Papa Francisco

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Domingo de Páscoa – Ano B

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João (Jo 20,1-9)

No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro e viu a pedra retirada do sepulcro. Correu então e foi ter com Simão Pedro e com o discípulo predilecto de Jesus e disse-lhes: «Levaram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde O puseram». Pedro partiu com o outro discípulo e foram ambos ao sepulcro. Corriam os dois juntos, mas o outro discípulo antecipou-se, correndo mais depressa do que Pedro,e chegou primeiro ao sepulcro. Debruçando-se, viu as ligaduras no chão, mas não entrou. Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira. Entrou no sepulcro e viu as ligaduras no chão e o sudário que tinha estado sobre a cabeça de Jesus, não com as ligaduras, mas enrolado à parte. Entrou também o outro discípulo que chegara primeiro ao sepulcro: viu e acreditou. Na verdade, ainda não tinham entendido a Escritura, segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos.

Reflexão

Os quatro evangelhos relatam os acontecimentos do Dia da Ressurreição. Lendo os relatos torna-se evidente que ninguém esperava a Ressurreição! Para os discípulos, a Cruz era o fim da esperança, a maior desilusão possível. Se acrescentarmos a isto o facto de que todos eles traíram Jesus (ou por dinheiro, ou por covardia), podemos imaginar o ambiente pesado entre eles na manhã do Domingo. Entretanto, e neste ambiente, chega Maria Madalena com a notícia de que o túmulo estava vazio. Ela, naturalmente, pensa que o corpo tinha sido roubado. Ressurreição? Nem pensar! Pedro e o Discípulo Amado correm até ao túmulo. Já no túmulo, perante o que está diante dos seus olhos, o Discípulo Amado acredita. Ele reconheceu no que viu a presença e a acção de Deus. Só quem olha com os olhos do coração, do amor, vê para além das aparências!

Como em Lucas 24, na história dos Discípulos de Emaús, o texto demonstra que a nossa fé não está baseada num túmulo vazio! Não é o túmulo vazio que fundamenta a nossa fé na Ressurreição, mas o contrário, é a experiência da presença de Jesus Ressuscitado que explica porque o túmulo está vazio!

“Do mesmo modo que o grão de trigo se eleva da terra como caule e espiga, assim também Jesus não poderia ficar no sepulcro: o sepulcro está vazio porque o Pai não O «abandonou na habitação dos mortos nem permitiu que a sua carne conhecesse a decomposição» (cf. Act 2, 31; Sal 16, 10)” (Bento XVI)

Hoje em dia, quando olhamos para o mundo, não é fácil acreditar na vitória da vida sobre a morte. Há tanto sofrimento e injustiça!… Só uma experiência profunda da presença de Jesus libertador no meio da comunidade poderá sustentar a nossa fé na vitória final do bem sobre o mal, da luz sobre as trevas, da graça sobre o pecado! Em Jesus ressuscitado é inaugurada a nova criação, fazendo do primeiro dia da semana o «Domingo», ou seja, o «Dia do Senhor», Dia que jamais terá ocaso. “Ele enxugará todas as lágrimas dos seus olhos; e não haverá mais morte, nem luto, nem pranto, nem dor. Porque as primeiras coisas passaram” (Ap 21, 4).

Palavra para o caminho

No Domingo de Páscoa, em alegria contagiante, proclamamos: «Cristo ressuscitou, aleluia! Ressuscitou verdadeiramente, aleluia!». Alegramo-nos e exultamos, pois, no dia de Páscoa, celebramos o maior acontecimento de todos os tempos: a ressurreição de Jesus.

Este é o facto central e mais importante de toda a Bíblia e da nossa fé. Tudo o que se encontra no Antigo Testamento foi escrito para preparar a vinda e a ressurreição de Jesus. E tudo o que está escrito no Novo Testamento testemunha que Jesus ressuscitou. Pela Cruz, Ele venceu o pecado e a morte e está vivo no meio de nós, comunicando-nos a vida nova que recebeu do Pai.

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Oração do Papa no final da Via-Sacra no Coliseu de Roma

Senhor Jesus, o nosso olhar está voltado para ti, cheio de vergonha, de arrependimento e de esperança. Diante do teu supremo amor, atravessa-nos a vergonha por ter-te deixado só, a sofrer pelos nossos pecados:

A vergonha por termos escapado diante da prova, apesar de te termos dito milhares de vezes: “ainda que todos te deixem, eu não te abandonarei nunca”;

A vergonha de termos escolhido Barrabás, não a ti; o poder e não a ti; a aparência e não a ti; o deus-dinheiro e não a ti; a mundanidade e não a
eternidade;

A vergonha de te termos tentado com a boca e o coração cada vez que nos encontramos perante uma provação, dizendo-te: “se és o Messias, salva-te e acreditaremos!”;

A vergonha porque tantas pessoas, mesmo alguns ministros teus, se deixaram enganar pela ambição e pela glória vã, perdendo a sua dignidade e o seu primeiro amor;

A vergonha porque as nossas gerações estão a deixar aos jovens um mundo partido pelas divisões e pelas guerras; um mundo devorado pelo egoísmo, onde os jovens, os pequenos, os doentes, os idosos são marginalizados;

A vergonha de termos perdido a vergonha; Senhor Jesus, dá-nos sempre a graça da santa vergonha!

A esperança, porque a tua mensagem continua a inspirar, ainda hoje, tantas pessoas e povos, porque só o bem pode derrotar o mal e a maldade, só o perdão pode derrubar o rancor e a vingança, só o abraço fraterno pode dissipar a hostilidade e o medo do outro;

A esperança, porque o teu sacrifício continua, ainda hoje, a emanar o perfume do amor divino que acaricia os corações de tantos jovens que continuam a consagrar-te as suas vidas, tornando-se exemplos vivos de caridade e de gratuidade neste nosso mundo devorado pela lógica do lucro e do ganho fácil;

A esperança, porque tantos missionários e missionárias continuam, ainda hoje, a desafiar a consciência adormecida da humanidade, arriscando a vida para te servir nos pobres, nos descartados, nos imigrantes, nos invisíveis, nos explorados, nos que passam fome e nos presos;

A esperança, porque a tua Igreja, santa e feita de pecadores, continua, ainda hoje, apesar de todas as tentativas de a desacreditar, a ser uma luz que ilumina, encoraja, alivia e testemunha o teu amor sem limites pela humanidade, um modelo de altruísmo, uma arca de salvação e uma fonte de certeza e de verdade;

A esperança, porque da tua cruz, fruto da avidez e da cobardia de tantos doutores da lei e hipócritas, jorrou a ressurreição, transformando as trevas do túmulo no fulgor da aurora do Domingo sem fim, ensinando-nos que o teu amor é a nossa esperança; Senhor Jesus, dá-nos sempre a graça da santa esperança!

Ajuda-nos, Filho do homem, a despojarmo-nos da arrogância do ladrão posto à tua esquerda, dos míopes e dos corruptos, que viram em ti uma oportunidade a explorar, um condenado a criticar, um derrotado para zombar, mais uma ocasião para empurrar para os outros, até para Deus, as próprias culpas.

Pedimos, pelo contrário, Filho de Deus, que personifiquemos o bom ladrão que te viu com olhos cheios de vergonha, de arrependimento e de esperança; que, com os olhos da fé, viu na tua aparente derrota a divina vitória e, assim, se ajoelhou diante da tua misericórdia e, com honestidade, roubou o paraíso.
Amén.

Papa Francisco

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