Solenidade de São João da Cruz

CATEQUESE DE BENTO XVI SOBRE SÃO JOÃO DA CRUZ

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Há duas semanas apresentei a figura da grande mística espanhola Teresa de Jesus. Hoje gostaria de falar de outro importante santo daquelas terras, amigo espiritual de santa Teresa, reformador com ela da família religiosa carmelita: São João da Cruz, proclamado Doutor da Igreja pelo Papa Pio XI em 1926, e chamado na tradição Doctor mysticus, «Doutor místico».

João da Cruz nasceu em 1542 no povoado de Fontiveros, perto de Ávila, na Velha Castela, de Gonzalo de Yepes e Catalina Alvarez. A família era extremamente pobre porque o pai, de nobre origem de Toledo, tinha sido expulso de casa e deserdado por ter casado com Catalina, uma humilde tecelã de seda. Órfão de pai em tenra idade, com nove anos, transferiu-se com a mãe e o irmão Francisco para Medina del Campo, perto de Valladolid, centro comercial e cultural. Ali frequentou o Colegio de los Doctrinos, desempenhando também alguns trabalhos humildes para as irmãs da igreja-convento da Madalena. Em seguida, considerando as suas qualidades humanas e os seus resultados nos estudos, foi admitido primeiro como enfermeiro no Hospital da Conceição, depois no Colégio dos Jesuítas, recém-fundado em Medina del Campo: ali João entrou com dezoito anos e estudou ciências humanas, retórica e línguas clássicas durante três anos. No final da formação, ele viu claramente qual era a sua vocação: a vida religiosa e, entre as muitas ordens presentes em Medina, sentiu-se chamado ao Carmelo.

No Verão de 1563 começou o noviciado com os Carmelitas da cidade, assumindo o nome religioso de João de São Matias. No ano seguinte foi destinado à prestigiosa Universidade de Salamanca, onde por três anos estudou artes e filosofia. Em 1567 foi ordenado sacerdote e voltou a Medina del Campo para celebrar a sua primeira Missa circundado pelo carinho dos familiares. Precisamente ali teve lugar o primeiro encontro entre João e Teresa de Jesus. O encontro foi decisivo para ambos: Teresa expôs-lhe o seu plano de reforma do Carmelo também no ramo masculino da Ordem e propôs a João que se adaptasse «para maior glória de Deus»; o jovem sacerdote ficou fascinado pelas ideias de Teresa, a ponto de se tornar um grande defensor do projecto. Os dois trabalharam juntos alguns meses, compartilhando ideais e propostas para inaugurar quanto antes possível a primeira casa de Carmelitas Descalços: a abertura ocorreu a 28 de Dezembro de 1568 em Duruelo, lugar solitário da província de Ávila. Com João formavam esta primeira comunidade masculina reformada outros três companheiros. Ao renovar a sua profissão religiosa segundo a Regra primitiva, os quatro assumiram um novo nome: Então, João denominou-se «da Cruz», como depois será conhecido universalmente. No final de 1572, a pedido de santa Teresa, tornou-se confessor e vigário do mosteiro da Encarnação em Ávila, onde a santa era priora. Foram anos de estreita colaboração e amizade espiritual, que a ambos enriqueceram. A esse período remontam inclusive as mais importantes obras teresianas e os primeiros escritos de João.

A adesão à reforma carmelita não foi fácil, e causou a João também graves sofrimentos. O episódio mais traumático foi, em 1577, o seu rapto e aprisionamento no convento dos Carmelitas de Antiga Observância de Toledo, devido a uma acusação injusta. O santo permaneceu preso durante meses, submetido a privações e constrições físicas e morais. Ali compôs, além de outras poesias, o célebre Cântico espiritual. Finalmente, na noite entre 16 e 17 de Agosto de 1578, conseguiu fugir de modo aventuroso, refugiando-se no mosteiro das Carmelitas Descalças da cidade. Santa Teresa e os companheiros reformados celebraram com imensa alegria a sua libertação e, após um breve período de recuperação das forças, João foi destinado para a Andaluzia, onde transcorreu dez anos em vários conventos, especialmente em Granada. Assumiu cargos cada vez mais importantes na Ordem, até se tornar Vigário provincial, e completou a redacção dos seus tratados espirituais. Depois, voltou para a sua terra natal, como membro do governo geral da família religiosa teresiana, que já gozava de plena autonomia jurídica. Habitou no Carmelo de Segóvia, desempenhando a função de superior daquela comunidade. Em 1591 foi eximido de qualquer responsabilidade e destinado à nova Província religiosa do México. Enquanto se preparava para a longa viagem com outros dez companheiros, retirou-se num convento solitário perto de Jaén, onde adoeceu gravemente. João enfrentou com serenidade e paciência exemplares enormes sofrimentos. Faleceu na noite entre 13 e 14 de Dezembro de 1591, enquanto os irmãos de hábito recitavam o Ofício matutino. Despediu-se deles, dizendo: «Hoje vou cantar o Ofício no Céu». Os seus restos mortais foram trasladados para Segóvia. Foi beatificado por Clemente X em 1675 e canonizado por Bento XIII em 1726.

João é considerado um dos mais importantes poetas líricos da literatura espanhola. As obras principais são quatro: Subida ao Monte Carmelo, Noite obscura, Cântico espiritual e Chama de amor viva.

No Cântico espiritual, São João apresenta o caminho de purificação da alma, ou seja, a posse progressiva e jubilosa de Deus, até que a alma chegue a sentir que ama a Deus com o mesmo amor com que é por Ele amada. A Chama de amor viva continua nesta perspectiva, descrevendo mais pormenorizadamente o estado de união transformadora com Deus. A comparação utilizada por João é sempre a do fogo: assim como o fogo, quanto mais arde e consome a madeira, tanto mais se torna incandescente até se tornar chama, também o Espírito Santo, que durante a noite obscura purifica e «limpa» a alma, com o tempo ilumina-a e aquece-a como se fosse uma chama. A vida da alma é uma festa contínua do Espírito Santo, que deixa entrever a glória da união com Deus na eternidade.

A Subida ao Monte Carmelo apresenta o itinerário espiritual sob o ponto de vista da purificação progressiva da alma, necessária para escalar a montanha da perfeição cristã, simbolizada pelo cimo do Monte Carmelo. Tal purificação é proposta como um caminho que o homem empreende, colaborando com a obra divina, para libertar a alma de todo o apego ou afecto contrário à vontade de Deus. A purificação, que para alcançar a união com Deus deve ser total, começa a partir daquela da vida dos sentidos e continua com a que se alcança por meio das três virtudes teologais: fé, esperança e caridade, que purificam a intenção, a memória e a vontade. A Noite obscura descreve o aspecto «passivo», ou seja, a intervenção de Deus neste processo de «purificação» da alma. Com efeito, o esforço humano sozinho é incapaz de chegar às profundas raízes das más inclinações e hábitos da pessoa: só os pode impedir, mas não consegue erradicá-los completamente. Para o fazer, é necessária a acção especial de Deus, que purifica radicalmente o espírito e o dispõe para a união de amor com Ele. São João define «passiva» tal purificação, precisamente porque, embora seja aceite pela alma, é realizada pela obra misteriosa do Espírito Santo que, como chama de fogo, consome toda a impureza. Neste estado, a alma é submetida a todo o tipo de provações, como se se encontrasse numa noite obscura.

Estas indicações sobre as obras principais do santo ajudam-nos a aproximar-nos dos pontos salientes da sua vasta e profunda doutrina mística, cuja finalidade é descrever um caminho seguro para alcançar a santidade, a condição de perfeição à qual Deus chama todos nós. Segundo João da Cruz, tudo o que existe, criado por Deus, é bom. Através das criaturas, nós conseguimos chegar à descoberta daquele que nelas deixou um vestígio de Si. De qualquer modo, a fé é a única fonte confiada ao homem para conhecer Deus como Ele é em si mesmo, como Deus Uno e Trino. Tudo o que Deus queria comunicar ao homem, disse-o em Jesus Cristo, a sua Palavra que se fez carne. Jesus Cristo é o único e definitivo caminho para o Pai (cf. Jo14, 6). Qualquer coisa criada nada é em comparação com Deus, e nada vale fora dele: por conseguinte, para alcançar o amor perfeito de Deus, todos os outros amores devem conformar-se em Cristo com o amor divino. Daqui deriva a insistência de São João da Cruz sobre a necessidade da purificação e do esvaziamento interior para se transformar em Deus, que é a única meta da perfeição. Esta «purificação» não consiste na simples falta física das coisas ou do seu uso; o que torna a alma pura e livre, ao contrário, é eliminar toda a dependência desordenada das coisas. Tudo deve ser inserido em Deus como centro e fim da vida. Sem dúvida, o longo e cansativo processo de purificação exige o esforço pessoal, mas o verdadeiro protagonista é Deus: tudo o que o homem pode fazer é «dispor-se», estar aberto à obra divina e não lhe pôr obstáculos. Vivendo as virtudes teologais, o homem eleva-se e valoriza o próprio compromisso. O ritmo de crescimento da fé, da esperança e da caridade caminha a par e passo com a obra de purificação e com a união progressiva com Deus, até se transformar nele. Quando alcança esta meta, a alma imerge-se na própria vida trinitária, e São João afirma que ela consegue amar a Deus com o mesmo amor com que Ele a ama, porque a ama no Espírito Santo. Eis por que motivo o Doutor místico afirma que não existe verdadeira união de amor com Deus, se não culmina na união trinitária. Neste estado supremo a alma santa conhece tudo em Deus e já não deve passar através das criaturas para chegar a Ele. A alma já se sente inundada pelo amor divino e alegra-se completamente nele.

Caros irmãos e irmãs, no fim permanece esta pergunta: com a sua mística excelsa, com este árduo caminho rumo ao cimo da perfeição, este santo tem algo a dizer também a nós, ao cristão normal que vive nas circunstâncias desta vida de hoje, ou é um exemplo, um modelo apenas para poucas almas escolhidas que podem realmente empreender este caminho da purificação, da ascese mística? Para encontrar a resposta, em primeiro lugar temos que ter presente que a vida de São João da Cruz não foi um «voar sobre as nuvens místicas», mas uma vida muito árdua, deveras prática e concreta, quer como reformador da ordem, onde encontrou muitas oposições, quer como superior provincial, quer ainda no cárcere dos seus irmãos de hábito, onde esteve exposto a insultos incríveis e a maus tratos físicos. Foi uma vida dura, mas precisamente nos meses passados na prisão, ele escreveu uma das suas obras mais bonitas. E assim podemos compreender que o caminho com Cristo, o andar com Cristo, «o Caminho», não é um peso acrescentado ao fardo já suficientemente grave da nossa vida, não é algo que tornaria ainda mais pesada esta carga, mas é algo totalmente diferente, é uma luz, uma força que nos ajuda a carregar este peso. Se um homem tem em si um grande amor, este amor quase lhe dá asas, e suporta mais facilmente todas as moléstias da vida, porque traz em si esta grande luz; esta é a fé: ser amado por Deus e deixar-se amar por Deus em Cristo Jesus. Este deixar-se amar é a luz que nos ajuda a carregar o fardo de todos os dias. E a santidade não é uma obra nossa, muito difícil, mas é precisamente esta «abertura»: abrir as janelas da nossa alma, para que a luz de Deus possa entrar, não esquecer Deus, porque é precisamente na abertura à sua luz que se encontra a força, a alegria dos remidos. Oremos ao Senhor para que nos ajude a encontrar esta santidade, deixando-nos amar por Deus, que é a vocação de todos nós e a verdadeira redenção. Obrigado!

Bento XVI

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Ano da Fé – VII

EXISTE CONTRADIÇÃO ENTRE FÉ E CIÊNCIA NATURAL?

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Nenhuma verdade de fé faz concorrência com as verdades da ciência. Só existe uma Verdade, à qual dizem respeito tanto a fé como a razão científica. Deus quis tanto a razão, com que podemos descobrir as estruturas racionais do mundo, como a fé. Por isso, a fé cristã exige e apoia a ciência natural. A fé existe para conhecermos as coisas que, embora não possam ser abarcadas pela razão, existem todavia para além da razão e são reais. A fé lembra à ciência natural que esta não se deve colocar no lugar de Deus, mas servir a Criação. A ciência natural tem de respeitar a dignidade humana, em vez de atentar contra ela.

Entre Deus e a ciência natural não encontramos qualquer contradição. Eles não se excluem, como hoje alguns crêem e temem; eles completam-se e implicam-se mutuamente (Max Planck).

 

 

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2º Domingo do Advento (C)

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Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas (Lc 3, 1-6)

No décimo quinto ano do reinado do imperador Tibério, quando Pôncio Pilatos era governador da Judeia, Herodes, tetrarca da Galileia, seu irmão Filipe, tetrarca da Itureia e da Traconítide, e Lisânias, tetrarca de Abilena, sob o pontificado de Anás e Caifás, a palavra de Deus foi dirigida a João, filho de Zacarias, no deserto. Começou a percorrer toda a região do Jordão, pregando um baptismo de penitência para remissão dos pecados, como está escrito no livro dos oráculos do profeta Isaías: «Uma voz clama no deserto: ‘Preparai o caminho do Senhor e endireitai as suas veredas. Toda a ravina será preenchida, todo o monte e colina serão abatidos; os caminhos tortuosos ficarão direitos e os escabrosos tornar-se-ão planos. E toda a criatura verá a salvação de Deus.’»

Para ler o comentário ao Evangelho do II Domingo do Advento, Ano C, consulte: http://www.ordem-do-carmo.pt/index.php/lectio-divina.html

 

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Ano da Fé – VI

O SER HUMANO RESPONDE A DEUS

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Quem deseja crer precisa de um “coração que escuta” (1Rs 3, 9). Deus procura o contacto connosco de múltiplas formas. Em cada encontro humano, em cada experiência da Natureza que nos toca, em cada aparente acaso, em cada desafio, em cada sofrimento… Deus deixa-nos uma mensagem escondida. Ele fala-nos ainda mais claramente quando se dirige a nós pela sua Palavra ou pela voz da consciência. Ele trata-nos como amigos. Por isso, também nós, como amigos devemos corresponder-lhe, crendo e confiando totalmente n’Ele, aprendendo a conhecê-lo cada vez melhor e a aceitar sem reservas a sua vontade.

Quando a fé nasce, ocorre com frequência uma perturbação ou um desassossego. O ser humano apercebe-se de que o mundo visível e o decurso normal das coisas não correspondem a tudo o que existe. Sente-se tocado por um mistério. Persegue as pistas que o remetem para a existência de Deus e encontra-se cada vez mais confiante em abordar Deus, e, por fim, liga-se a Ele livremente. Diz-se no Evangelho segundo São João: “A Deus nunca ninguém o viu. O Filho Unigénito, que está no seio do Pai, é que o deu a conhecer” (Jo 1, 18). Portanto, temos de crer em Jesus, o Filho de Deus, se queremos saber o que Deus nos quer comunicar. Assim, crer significa aderir a Jesus e entregar a nossa vida inteira nas suas mãos.

Fé é conhecimento e confiança. Ela apresenta sete características: 1)- A fé é uma pura dádiva de Deus, que nós obtemos se intensamente a pedirmos. 2)- A fé é a força sobrenatural de que necessariamente precisamos para alcançar a salvação. 3)- A fé requer a vontade livre e a lucidez do ser humano quando ele se abandona ao convite divino. 4)- A fé é absolutamente segura porque Jesus a garante. 5)- A fé é incompleta enquanto não se tornar operante no amor. 6)- A fé cresce na medida em que escutamos cada vez melhor a Palavra de Deus e permanecemos com Ele, na oração, em vivo intercâmbio. 7)- A fé permite-nos já a experiência do alegre antegozo do Céu.

 

É importante aquilo em que cremos, mas mais importante ainda é Aquele em quem cremos (Bento XVI).

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Ano da Fé – V

O LIVRO DA REVELAÇÃO DIVINA: A BÍBLIA (II)

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A Bíblia não caiu do céu feita, nem Deus a ditou a autómatos, isto é, escritores inconscientes. Antes, «para escrever os livros sagrados, Deus escolheu e serviu-Se de pessoas na posse das suas faculdades e capacidades, para que, agindo Ele neles e por eles, pusessem por escrito, como verdadeiros autores, tudo aquilo e só aquilo que Ele queria» (Dei Verbum, 11). Para que determinados textos fossem reconhecidos como Escritura Sagrada, tiveram de ser aceites pela Igreja universal. Teve de existir, portanto, um consenso nas comunidades: «Sim, é o próprio Deus que nos fala por este texto, isto é mesmo inspirado pelo Espírito Santo».

Como pode a Sagrada Escritura ser “Verdade”, se nem tudo o que nela se encontra está correcto? A Bíblia não transmite precisão histórica nem conhecimentos científico-naturais. Também os autores eram filhos do seu tempo. Eles partilhavam as concepções culturais do seu ambiente, em cujos erros, por vezes, estavam presos. Não obstante, tudo o que o ser humano precisa de saber sobre Deus e sobre o caminho da sua redenção encontra-se com infalível segurança na Sagrada Escritura. A Bíblia é como uma longa carta de Deus dirigida a cada um de nós. Por isso, temos de acolher as Sagradas Escrituras com grande amor e respeito. Primeiro, devemos realmente ler a carta de Deus, isto é, não isolar pormenores sem atender ao todo. Depois, devemos orientar esse todo para o seu coração e mistério, ou seja, para Jesus Cristo, de quem fala toda a Bíblia, mesmo o Antigo Testamento. Portanto, devemos ler as Sagradas Escrituras na mesma fé viva da Igreja em que elas surgiram.

A Bíblia divide-se em duas grandes partes: Antigo Testamento, composto de 46 livros, e Novo Testamento composto de 27 livros.

A Bíblia é a carta do amor de Deus dirigida a nós (Sören Kierkegaard).

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1º Domingo do Advento (C)

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas (Lc 21, 25-28.34-36)

«Haverá sinais no Sol, na Lua e nas estrelas; e, na Terra, angústia entre os povos, aterrados com o bramido e a agitação do mar; os homens morrerão de pavor, na expectativa do que vai acontecer ao universo, pois as forças celestes serão abaladas. Então, hão-de ver o Filho do Homem vir numa nuvem com grande poder e glória. Quando estas coisas começarem a acontecer, cobrai ânimo e levantai a cabeça, porque a vossa redenção está próxima.» «Tende cuidado convosco: que os vossos corações não se tornem pesados com a devassidão, a embriaguez e as preocupações da vida, e que esse dia não caia sobre vós subitamente, como um laço; pois atingirá todos os que habitam a terra inteira. Velai, pois, orando continuamente, a fim de terdes força para escapar a tudo o que vai acontecer e aparecerdes firmes diante do Filho do Homem.»

Para ler o comentário ao Evangelho do I Domingo do Advento, Ano C, consulte: http://www.ordem-do-carmo.pt/content/blogsection/6/48/ 

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Ano da Fé – IV

O LIVRO DA REVELAÇÃO DIVINA: A BÍBLIA (I)

 

No coração do Povo de Deus está a Bíblia, um livro onde ele reconhece a assinatura do seu Deus. A Bíblia transmite-nos a Revelação de Deus e o seu projecto de amor, desde a Criação, através de um povo por Ele escolhido (Israel), até ao ponto da plenitude desta história: a vida, a morte e a ressurreição de Jesus, a efusão do Espírito Santo. Deste dom do Espírito nasce a Igreja, o novo Povo de Deus, enxertado no antigo e chamado a encontrar a sua consumação na glória celeste. O Antigo e o Novo Testamento constituem a Escritura Sagrada. Esta, “consignada sob a inspiração do Espírito Santo”, é verdadeiramente Palavra de Deus. Se os escritos que compõem a Bíblia trazem a marca de mãos humanas, eles não deixam de ter Deus por autor e ensinam “firme, fielmente e sem erro a verdade que Deus, para nossa salvação, quis que aí ficasse consignada” (Dei Verbum, 11). No conjunto da Sagrada Escritura, e mesmo no Novo Testamento, os evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João) ocupam um lugar privilegiado. Estes quatro livros, com efeito, conservam vivas a figura e a palavra de Jesus “em que toda a revelação de Deus omnipotente se consuma” (Dei Verbum, 7).

Desconhecer a Escritura é desconhecer Cristo (S. Jerónimo).

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Solenidade de Cristo Rei

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João (Jo 18, 33-37)

Pilatos entrou de novo no pretório, chamou Jesus e perguntou-lhe: «Tu és rei dos judeus?» Respondeu-lhe Jesus: «Tu perguntas isso por ti mesmo, ou porque outros to disseram de mim?» Pilatos replicou: «Serei eu, porventura, judeu? A tua gente e os sumos sacerdotes é que te entregaram a mim! Que fizeste?» Jesus respondeu: «A minha realeza não é deste mundo; se a minha realeza fosse deste mundo, os meus guardas teriam lutado para que Eu não fosse entregue às autoridades judaicas; portanto, o meu reino não é de cá.» Disse-lhe Pilatos: «Logo, Tu és rei!» Respondeu-lhe Jesus: «É como dizes: Eu sou rei! Para isto nasci, para isto vim ao mundo: para dar testemunho da Verdade. Todo aquele que vive da Verdade escuta a minha voz.»

Para tomar contacto com o comentário do evangelho da Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo, consulte: http://www.ordem-do-carmo.pt/content/blogsection/6/48/

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Ano da Fé – III

DEUS VEM AO NOSSO ENCONTRO: A REVELAÇÃO

Só Deus tem poder para nos dizer realmente quem é. O homem procura-o às “apalpadelas” mas “só Deus fala bem de Deus”. A fé cristã, que renova a vida do crente e a sua inteligência das coisas, responde à iniciativa de Deus que vem ao encontro do homem, revelando-se: “Aprouve a Deus na sua bondade e sabedoria, revelar-se a si mesmo e dar a conhecer o mistério da sua vontade, segundo o qual a humanidade, por meio de Cristo, Verbo encarnado, tem acesso ao Pai no Espírito Santo e se torna participante da natureza divina” (Dei Verbum, nº 2).

A revelação tem lugar na história concreta dos homens. Deus revela-se primeiro na história de Israel, que conserva um lugar inalienável na fé cristã. No seio da história, o próprio Deus age e fala. Foi Ele que escolheu o seu povo, para lhe confiar uma missão no meio das nações. Deus que é sempre o primeiro a amar, ama sempre sem reservas. Ele não espera, para amar os homens, a resposta que eles poderão dar a este amor.

A história de Israel tecida de alegrias e provações, representa de algum modo a da humanidade nas suas diferentes situações ou experiências: em vida nómada, em escravatura, em libertação, em marcha no deserto, em conquista, em vida sedentária, em exílio, em regresso do exílio… Esta história é anúncio e preparação do que, finalmente, irá realmente acontecer. A vinda de Jesus Cristo, a sua vida, a sua morte e ressurreição marcam efectivamente o cumprimento da história de Israel Entre a Páscoa de Jesus e a sua última vinda na glória, desenrola-se o tempo da Igreja. É o tempo da vida nova fundada sobre a obra de Cristo, o tempo da missão, destinada a levar a luz e os frutos desta obra a toda a humanidade.

Em resumo: O ser humano pode descobrir pela razão que Deus existe, mas não como Deus é realmente. Portanto, como Deus gosta de ser conhecido revelou-se a nós. Ele fê-lo por amor. Desde a Criação, passando pelos Patriarcas (Abraão, Isaac, Jacob) e pelos profetas, até à definitiva revelação no seu Filho Jesus Cristo, Deus comunicou continuamente com a humanidade. Em Jesus, ele verteu-nos o coração e tornou-nos mais claro o seu ser mais íntimo e o seu desígnio: fazer participar, pela graça do Espírito Santo, todos os homens na vida divina, como seus filhos adoptivos no seu único Filho. Através de Jesus Cristo, torna-se visível o Deus invisível: “A partir do momento em que nos deu o seu Filho, que é a sua única e definitiva Palavra, Deus disse-nos tudo ao mesmo tempo e duma só vez e nada mais tem a acrescentar” (S. João da Cruz). Ele torna-se como nós. Isto mostra-nos até que ponto vai o amor de Deus: Ele carrega todo o nosso peso. Deus percorre connosco todos os caminhos. Ele vive a nossa solidão, o nosso sofrimento, o nosso medo da morte. Ele apresenta-se onde não podemos avançar, para nos abrir a porta para a Vida.

A felicidade que procurais, a felicidade que tendes direito (…) tem um nome, um rosto: é Jesus de Nazaré (Bento XVI).

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Ano da Fé – II

O HOMEM É «CAPAZ» DE DEUS

 

Ao criar o homem à sua imagem, o próprio Deus inscreveu no coração humano o desejo de O ver. Mesmo que, muitas vezes, tal desejo seja ignorado, Deus não cessa de atrair o homem a Si, para que viva e encontre n’Ele aquela plenitude de verdade e de felicidade, que ele procura sem descanso. Por natureza e vocação, o homem é um ser religioso, capaz de entrar em comunhão com Deus. O homem pode, pela razão e a partir da criação, isto é, do mundo e da pessoa humana, conhecer a Deus com certeza como origem e fim do universo e como sumo bem, verdade e beleza infinita. Contudo, experimenta muitas dificuldades e não pode entrar pelas suas próprias forças na intimidade do mistério divino. Muitos, perante isto, recuam de medo. Alguns também não querem descobrir Deus porque, então, teriam de mudar de vida. Por isso é que Deus o quis iluminar com a sua Revelação. Fê-lo por amor. Tal como, no amor humano, só se pode conhecer algo de uma pessoa amada quando ela nos abre o coração, também só conhecemos os mais íntimos pensamentos de Deus porque Ele, eterno e misterioso, se abriu a nós por amor.

A mais nobre força do ser humano é a razão. A mais alta meta da razão é o conhecimento de Deus (Santo Alberto Magno).

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